quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Poema de passagem 2020


 

A lida com as agruras da vida é uma avenida

Enquanto vamos em direção ao caos

Avistamos, no sentido contrário,

Alguém de nós saindo dele

Alguém chegará primeiro

O que sucumbe

O que sobrevive

Assim se vive

O tempo todo

Nosso medo

Nossa coragem

Nosso logro

Nosso acerto

Nossa viagem

 

O sofrimento é uma espécie de pedágio

A felicidade uma boa pousada de veraneio

Passamos um tempo querendo ser os tais

Uma imagem que desenhamos de nós mesmos quando somos jovens

Passamos outro tempo nos aceitando como somos

Uma realidade que enfrentamos quando amadurecemos

Quando a vaidade se vai

Vem a clareza

E aí ficamos tão incríveis que só nós sabemos

Ninguém mais

Já não falamos tanto

Não contamos vantagem a respeito da gente

Aceitar a si é aceitar a vida como ela é

E a realidade então nos dá ferramentas reais pra melhorar

A engenharia das coisas

Sozinho aqui

Isolado há dias em uma cidade estranha ainda

Sem amigos, sem amor ou esperança dele nesse momento

Faz tempo

Faz muito tempo que não sinto tanta paz

Feliz ano novo pra quem acredita nisso

Eu sempre acredito

 

                                                                     Teju 31/12/2020


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

A Máquina do Tempo


Quantos homens eu já fui

Que me perdi de não saber contar

Nem contar

 

Me contaria pelas canções?

           Pelos amores?

São bons contadores

As canções e os amores

 

              O primeiro amor que abandonei

O segundo que abandonei

O terceiro que não reconheci

O quarto que eu perdi

O quinto que nunca tive

O sexto que a morte levou

O sétimo que não chegou

Minha máquina do tempo

Alucinada

Fora de controle

Canta:

 

- Rosas, violinos vão chover

Sobre o telhado que você

Escorregou sem perceber

 

- Um coração sem dono

Sem ter pra onde ir

Um telefone que nunca faz trim

 Lua traída em postes

Vomita a noite e morre

Me deixa enfim dormir

 

-Sonambulando

Estática a Lua

E eu minguante no Ap

Corujas e sacis, Tvs

Cochicham de você pra mim

 

- Foi ontem

Eu te esperava na porta da escola

Nosso diário de motocicleta

Todo o tempo do mundo e nada pra fazer

 

Foi ontem

 O teu cabelo loiro na piscina

O Belchior , o coração selvagem

O beijo escondido na blusa da paixão

Foi ontem

 

Foi quando?

 

- Aquele engano levando ao destino

Aquela música quebrando o impossível

Aquele imã incognoscível

Aquele posto azul

Aquele posto azul, lilás

Aquela lua de espuma e cerveja

Aquele frio de fogo invisível

Aquela boca dublando as palavras

Aquela blusa que te emprestei

 

Cada eu perdido

Na galeria dos anos

Dos versos, das melodias

Nas curvas e dobras do tempo

Eis-me

Ninguém se perdeu na vertigem do tempo

Foi se juntando num mosaico de colagens

 

Abro a janela e trisca o Mustang de volta para o futu-           

ro como num raio

 

O tempo deve ser um cientista louco

 

A mesma Lua que apareceu quando ouvia Rita

Lee reapareceu

E, como antes, ninguém sonhava mais do que eu

 

Estamos aqui e ali

 Máquina do tempo

 

Viver é impreciso

Conta ontem a poesia

Que é só o que eu preciso hoje

Pra encarar esse novo dia

Que perderei amanhã

 

Teju Franco 25/12/2020

 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Anti-Horário



Sei lá

Ando mergulhado na minha geração

Minha geração rockeira que nunca fui

Eu era um velho quando garoto

Minha vida é de frente pra trás

Nasci velho

Tô voltando

Pera aí útero

To chegando

As mamães anos 50 me deserdaram no futuro

Perdidos no Espaço na tv smart preto e branco

Os hippies no jardim da infância

Os punks no colegial

A gente na discoteca

O sistema e seu caquético capital


Enquanto Maio explodia liberdades em 68

Março nos dava aula de educação moral e cívica

Em outubro o homem ia à Lua

Em julho Woodstock a moça dançava nua

Eu menino ultramen que fazia pipi na cama


Somos todos sequelados

Principalmente as meninas

Quanta repressão em cima delas

Fumar um baseado quase caindo da janela pra fumaça não ir pra dentro de casa

Vigiar a rua com suas polícias e esquadrões da morte

Guerrear pela liberdade a conta-gotas

Contra o poderoso Capitão América do norte


Nasci velho de família como Vinicius de Moraes

E fui porraloucando de querer mais e mais

Meu problema nunca foi falta de energia

Não cheguei à metade do tanque

E olha que rodei

Ando assim pela rua da vigésima cidade que morei

Pensando

Onde foi que errei

Eu até sei

Mas finjo que não sei

Minha vida é de frente pra trás

O que eu não saberei amanhã

Hoje sei mais

Tô no segundo ano da faculdade da vida

Tentando passar pro primeiro

Se é que me entende

“Vou danado pra Catende”

Pra tonga da mironga do cinco G

Quero morrer de sexo

De música

De cerveja

De poesia

De uma nova droga

Nos intervalos faço yoga

Corro cinco quilómetros diários religiosamente no meu purgatório Opus Dei

Atrás da mesma coisa que nunca alcanço

Ainda bem

Se alcançar paro de correr

 E começo a morrer

E eu não quero parar

Enquanto puder correr


A semana passada morri com Renato Russo

Essa, adolesci com Bowie que nunca ouvi

Depois de amanhã ficarei menor de idade e beberei com Cazuza

Assistindo filme pornô

Meus heróis são palhaços do riso fácil

Que voam num Circo Voador


Queria encontrar a turminha mas eles viraram velhinhos

Chatos, caretas com seus reumatismos certinhos

Em vidros comprimidos de horas marcadas

Eu não

 Preciso de espaço

Cada vez mais espaço para meu corpo magro

Preciso ir à praça, ao point, ao pico

Melhor a nova turma

Essa em que eternamente milito

Sócio atlético

Pop mítico

Salve simpatia

Diz que fui por aí

Levando Um violão

Debaixo do "abraço"

Meu tempo é agora

Meu território é onde a novidade acontece

Escolho passos e pessoas

Sobrevivo por um triz

Meu drama e piada eu mesmo faço

Até hoje

De hoje em hoje

Anti-horário

Motriz

Conservado em profunda tristeza

Sou feliz

Sem mentiras sociais, pessoais

Parei de contar mentiras sobre mim a mim

Vivo a sorrir de indigestas verdades

Se na esquina outrem me maldiz, que o faça

Inveja não derruba minha estátua

Nem perturba minha praça

Esqueci um senhor no banco enquanto me banhava na Fontana de Trevi

Contudo, entretanto, La dolce vita “me sempre” foi recreio

 Deve ser essa coisa de viver de aventura

Andar sem freio na terra do nunca

Entre ponteiros e cavaleiros imaginários

Vou morrer mais jovem do que nasci

Antes de ter mãe

Antes de ter alma

Antes de ser eu

Sob outro signo

Anti-horário

Enfim

Sumi

 

 

Teju 18/11/2020











 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Somos tão Jovens


A imagem pode conter: 1 pessoa, barba



Eu não acompanhei os jovens da minha geração, eu passei um tempo vivendo há dez anos atrás dela, a década de 60, depois passei do Bob Dylan para a MPB, e passei a desprezar rock and roll. A minha geração cresceu nos ecos do punk rock que eu nunca ouvi nem tenho vontade, mas a minha geração no Brasil fez sua história doméstica incrível.
Que pena não ter embarcado nesse barco juvenil e repleto de energia, que pena! Talvez tivesse descolado um lugar ao sol nesse mundo difícil da música. Passei a década de 80 desprezando a minha geração, morei um tempo, com a minha namorada da época, essa super cantora que trouxe do Uruguai agora, na casa da mãe do Branco Mello dos Titãs; eles estavam lançando o "Cabeça Dinossauro".
Puta cara legal e generoso o Branco, aliás, todos eles, que vim a conhecer depois. Eu e a Márcia, músicos de boteco, como a maioria da minha geração de MPB, ainda esnobávamos o Branco com sua música de três acordes que marcou a história da minha geração com talento vigor e criatividade.
Ainda no final da década de 80, após a morte do meu pai e uma decaída socioeconômica brutal da família, chegou às minhas mãos o LP "Ideologia" do Cazuza, o efeito foi fulminante. Desempregado, deprimido, ex aluno de teatro da Myriam Muniz, sem coragem e atitude, trancado num apartamento barulhento ao lado da Vinte e Três de Maio, Cazuza entrou na minha veia produzindo a reação química da rebeldia nunca manifestada na minha juventude de banquinho e violão.
Enfim saiu o primeiro show autoral, o repertório ainda era um esboço do esboço do rascunho de ameaça de um compositor, mas continha umas duas canções que até hoje fazem parte do repertório, sem saber, também, aquelas canções fracas já continham a minha marca, uma linha confusa entre Bossa, MPB e rock and roll.
Pra meu espanto deu certo, eu ainda era jovem e levei a maior turma para uma casa chique de Sampa, o Espaço Raísa, lugar onde se apresentavam Arrigo, Itamar, Alzira. A casa lotou, 200 pessoas, a dona ficou com um sorriso aqui, e eu apesar da crueza, tinha a "craqueza" de palco de quem passou 4 anos com a Myriam Muniz (acho que era o que segurava a onda). Ali comecei a acreditar que podia ser compositor.
Anos se passaram e voltei aos bares para pagar aluguel, feijão, pasta de dente e outras coisas tão importantes na vida, incorporei ao meu repertório várias canções do rock da minha geração, menos Legião que não curtia, não tinha paciência para decorar aquelas letras longas, melancólicas com estruturas musicais irregulares.
Há dez anos Legião virou uma paixão, um vício, Renato um guia com sua melancolia guerreira e energética, e seu vozeirão grave e gutural, tudo a ver comigo, passei a cantar várias músicas e a sentir que falta uma pessoa como ele faz nesses tempos de rock tão reaça de direita.
Enfim me encontrei com a minha geração, antes tarde do que nunca, vendo o filme sobre Renato nesse domingo de manhã do dia 02/11/2020 me vi tentando ressuscitar o cara, rezando pra meu celular não ter morrido com a tela quebrada que contém um rascunho que não me lembrarei, se o telefone se for, que fiz pra um casal querido aqui de Santa Isabel que tem uma história ímpar de amor e me levou a fazer a minha "Eduardo e Mônica" versão Digo e Yara.
O tempo passou e eu não peguei o bonde da minha geração, mas não foi tempo perdido, me esgueirei sob esse teatro de vampiros dessa vida que mais parece uma festa estranha com gente esquisita, por enquanto, quase sem querer, sigo na luta ainda sem saber que país é esse, fazendo as pazes com a minha geração coca-cola que de coca-cola não teve nada, fosse Cazuza, Renato, Humberto, Arnaldo, Leoni, Cassia, não teríamos essa moçadinha tão careta e reaça que vemos nesses dias, teríamos outra legião: a urbana e não a miliciana.
Teju Franco 02/11/2020








sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Senhoras e senhores, lhes apresento esse jovem, o "momento"

 






Sabem de quem falo né

Mais que destino ele muda nossas vidas para o bem e para o mal

Ele é tudo nesse jogo da vida

Em questões de segundos ele se apresenta

Faz de você árbitro e jogador

A sorte se faz lançada

Dependendo de você o futuro estará selado

Uma vida de erros, privações

Uma vida de acertos, proveitos

Tudo ali num estalar de dedos

Um grande amor

Uma grande chance

Sucesso

Fracasso

Medo

Coragem

Quanto mais envelheço, me aproximo da morte

Mais valioso eu vejo o tempo

E o que é o tempo senão um embaralhar de momentos

Fruto do acaso ou não ele é a vida passando, testando seu poder de reagir

Faça tudo por ele

Lute para que não passe em vão

Jogue toda a sua vontade, verdade, atitude

Não o deixe passar amiúde

Viver é uma virtude do desejo

Quando o último dos momentos chegar

Tenha a certeza de uma vida plena, intensa, realizada

Alguma coisa há de ficar de você

Mas o grande tesouro da vida vivida

Esse é só teu

Ira com você

Quando "ele"

O momento

Não te der mais escolha


Teju 18/09/2020





terça-feira, 12 de maio de 2020

A fada é foda





A fada sofre

A gente é que não sabe

Não vê

Mas ela sofre

Como todo mundo

A gente não vê a maioria das coisas

Que acontecem à nossa volta

Não Vê

Simplesmente não vê

É muita pressa, afazeres, corre-corre

Ninguém vê

Nem deleite, nem sacrifício

Esse desperdício de viver

Que não se vê


Mas a fada sofre

Recolhe suas lágrimas

Todo santo dia

Lágrimas de santa

De puta

De mãe

De filha

De vadia

Esposa

Amante

Operária

Líder comunitária

A fada é diamante fake de vidro

Ela também quebra

Mas faz isso escondido

Mas a gente não vê

A gente só vê a bela

Sem saber da dor dela

Da dor de ser "ela"

Ela não deixa a gente saber

Somos inimigos

Mesmo sem querer 



Homens não choram por vaidade masculina

Mulheres não choram por falta de tempo 


A fada levanta, põe a mesa, faz a mamadeira 

Se veste, sai correndo, enfrenta um exército de machos predadores, volta, faz a janta, põe filho na cama, ama

E depois cansa

Sozinha, quietinha

Em silêncio

Mãe e filha

Na mesma menina 

Filha e mãe

Na mesma mulher 


Em silencio ... xxxxxxxxx


Mas em orgasmos múltiplos ela berra em guitarras distorcidas

No talo do amplificador a sua dor transformada em gozo genocida

Mata-se o mundo

Pare-se a vida

Seu grito de libertação

A fada é foda

Sempre foi

Mais forte

Na mente 

Na foda

Da vida

Mais dona

Da situação

Só que menos babaca, insegura, adolescente.



Teju Franco 24/03/2018

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Ah! Então não vou poder ir, nunca usei sutiã...




Algo que não sabia de Leila Diniz

Leila Diniz sempre foi minha guia espiritual. Sei "tuda" da vida dela, cheguei a ficar amigo do melhor amigo dela.

Ela é um marco do feminismo, sem querer ser, ela só queria viver livremente. Eu digo sem querer porque naquela época em que ela viveu, os rebeldes e apaixonantes anos sessenta, tudo se polemizava e se politicava muito, e o que não faltavam eram patrulhas de um lado e de outro, gente dizendo - isso pode e isso não pode. E, isso não fazia muito o espirito da Leila, como filha de militante do partidão, conviveu com as rotinas militantes desde cedo, Leila achava chato, a rotina, as pessoas, as cobranças, o barato de Leila era ir experimentando.


Leila não gostava muito dessa coisa que a Maria Bethania chama de "avante". Eu tbem não gosto. - mas como, vc?, logo vc, tão político? Sim, eu milito o tempo todo pela politica das coisas que eu acredito, me enquadrar em organismos nunca foi meu forte. Desde o movimento estudantil, da clandestinidade, e do partido PT, nunca pisei num diretório do PT, eu faço a minha política. Eu não gosto de cartilha, de patrulha e de clichê.

Hoje em dia tem uma regra para se montar shows, elencos: tem que ter x mulheres, x afros, x LGBTs, e quem tem que dirigir aquele filme tem que ser um afro, ou um LGBT, ou sei lá o quê..

Isso não rola pra mim, eu monto uma banda com quem está no meu universo afetivo de vida nesse momento, seja homem, mulher, branco, negro, gay, hétero.

Quem tem que fazer aquele filme sobre aquela mulher não é um diretor negro, nem branco, é alguém apaixonado pelo roteiro e por ela..

Arte com patrulha, patrulha para quem precisa, patrulha para quem precisa de patrulha

Eu não preciso, não sou racista, não sou homofóbico, nunca fui, me relaciono bem com todo mundo, eu não preciso de patrulha, de ninguém me patrulhando, e de ninguém dizendo quem eu devo chamar para minha banda, ou meu espetáculo, eu chamo quem tem a ver no momento.

Todo esse papo, por quê?

Em uma semana da década de sessenta, quando já havia o mito libertário da pessoa Leila Diniz, um grupo militante de feministas a convidaram para uma manifestação em praça pública em que se queimariam sutiãs.

A resposta foi:

Ah então não vou poder ir, nunca usei sutiã.,

Como tudo tem que ser legendado num mundo de patrulhas e clichês, o resumo da ópera é:

Dou a maior força para a causa, mas não ingresso em exército, nem formo patrulha, nem me submeto a nenhuma.

Teju Diniz

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Quarentena




Eu to ficando maluuuuco aqui sozinho
Eu e o meu livro de poesias, minha vida num filminho em câmera lenta todo dia

Há dez dias atrás pensei que tinha acabado meu livro, comecei outra revisão e já se foram mais dez dias de turnos malucos, e ainda nem cheguei à metade

Como essa pandemia que nem chegou à metade, e a gente já assim, meio valente, às vezes, meio covarde, outras, pregando a solidão do isolamento que a gente não aguenta mais

Seres neuróticos, sempre ocupados e apressados
Não estávamos preparados para isso
Para tanto tempo consigo mesmo
Para tanto tempo em frente ao espelho

Instinto de sobrevivência estranho esse que para sobreviver te manda não se mexer, não fazer nada
Só meditar a vida e esperar

Isso não faz parte da "cultura"

A nossa existência industrial não estava preparada
Que será de nós sem a linha de produção?
Que será de nós?, consumidores sem shoppings.
Como respirar numa cidade tão despoluída?
Como encarar esses pores do sol tão lindos
Que esfregam em nossa cara nosso triste destino
Nossa trágica escolha

Seria tão bom acreditar que o mundo ficaria maluco também
E sairia dessa para outra forma mais evoluída
Priorizando a vida, a qualidade dela, as pessoas

Ligo a TV e vejo o dono do mundo querendo desinfetar a pobreza
O gado bolsonarista clamando pela presença da periferia para o abate
Cristãos oferecendo vidas em sacrifício para salvaguardar suas riquezas, dízimos, às custas do sangue do capital escarlate

Empregadas contaminam patrões
Patrões contaminam empregadas
O mercado late
A renda emergencial vira estelionato
O presidente reza e luta pelo colapso

A TV Globo que conduziu o país ao genocida, com seu herói de mentira, tenta salvar o juiz infeliz
Mais sujos dessa merda que qualquer um
O juiz que negociou cargo em troca de prisão de inocente, Abraçou o demente, protegeu seus parentes
Agora quer sair limpo do esgoto fascista em que se esmerdeou
A TV já começa nova etapa em sua guerra
Insaciável por merda
Maldita família Marinho
Eles e os Bolsonaros se merecem

E eu aqui sozinho
Saindo da cama tarde
Sentindo falta dos meus amigos
Toureando a depressão
Que me invade
Ficando louco
Louco
Louco
Distraindo a própria loucura
Sonhando com um mundo maluco beleza de belezas
Em um minuto o desejo de morrer
Depois o sorriso
- que é isso, meu?
Pensando bem, sempre foi assim
A única diferença é a solidão
Somos um bicho social
Que pena que o ser humano só lembra disso nessas horas...


Teju Franco 27/04/2020





domingo, 12 de abril de 2020

O vírus do Espelho



E veio uma solidão e comeu a primeira
E veio uma maior
E comeu a segunda
E outra
E outra
E outra veio e trancou a casa
Ninguém entra
Ninguém sai

Longe de todos
Perto de mim
Só os meus lobos
Em volta de mim
A noite chega
Nada no ar
Só a certeza
Que ninguém vai chegar

Como se esconder
De tantos espelhos
Como fugir de si mesmo assim
Sem ninguém ou nada para se distrair

Vejo aquele garoto que morreu aos nove anos
Junto com sua autoconfiança
Vejo aquele rapaz assustado vendo seu pai desaparecer junto com um lar
Vejo a insanidade da juventude com suas escolhas
Vejo o adulto viciado na dança dos próprios erros
Vejo os amores que decepcionei
O senhor dos sonhos mais vulnerável que um bebe
Uma mãe morrendo no quarto ao lado
De tristeza e escuridão

Na parede encostada, a guitarra mágica, malfadada
Sola sua fuga sem som
Pensando bem
Não é tão diferente
A arte é uma espécie de isolamento
Ser artista é viver só
Não é esse o problema

O problema é estar em uma idade
Em que não existe mais o desejo de mentir para si mesmo
Nem musicar a banda dos homens sós
Se enganar contando para si mesmo aquele outro que você sempre achou que deveria ser
E nunca foi, e não é

O problema é ver quem você é
Parece bom, mas dessa maneira, com as portas trancadas
“sem pódio de chegada ou beijo de namorada”
É um estado de choque e tanto
Um choque de realidade consigo mesmo quase letal
Socorro, grita um pensamento afônico
Entre a sala e o banheiro o mundo se parte ao meio
Ser adulto e não ser um caso crônico
O vírus da solidão é um velho conhecido
Já o vírus do espelho ...

                                              Teju Franco 13/04/2020

sábado, 4 de abril de 2020

Covid19, o vírus Fotógrafo


Ninguém sabe o que está por vir
Nem o filósofo
Nem o economista
Nem o estadista
Nem os genocidas
Pastores guiam seus rebanhos para o encontro do senhor
"À morte", com a grande salvação cristã,
não é de graça
A glória do senhor é cara
A eternidade um crediário a perder de vista
A juros módicos se erguem templos de Salomão

Enquanto tombam cristãos às porta dos hospitais superlotados
O cenário é apocalíptico mas
Os dízimos não podem parar 
Dizem as bestas do apocalipse
Ou o genocida Anchieta
Vendo a gripe dizimar nações indígenas
"Essas viroses estão rendendo muitas almas ao senhor,
Aqui ele terá um bom lucro"
Dois mil anos depois continuamos escolhendo os ladrões e os genocidas, os Malafaias e Bolsonaros


A grande nação dos mocinhos de cinema assumiu publicamente sua identidade
De piratas, ladrões, saqueadores
Interceptam navios e aviões de medicamentos comprados por outros países e simplesmente tomam os medicamentos para si
A nação mais rica do mundo
Assumiu o latrocínio como política de estado
Fizeram isso em toda a sua história de camuflagem de falsos valores
Agora é na cara
O Covid revelou

America first
Foda-se o mundo


O Covid19 é o grande fotografo da atualidade
Revelou o fracasso da falácia neoliberal
Sua total incapacidade de abrigar a humanidade
Revelou
A verdade desumana dos operadores do capital
A lógica genocida das bolsas de valores e seus profetas
Revelou a máscara do bandido por trás do capitão América
A humanidade à merce de um império de piratas, ladrões, saqueadores, assassinos, genocidas


A vida reage, a natureza reage de maneira inesperada, imprevisível
Nossa raça, acuada, desorientada, abandonada pelo estado
Desarticulada pela múltipla informação
A vagar solitária pelas redes sociais
Impotente ao poderio das grandes corporações econômicas
Assiste o mundo se colapsar
Incrédula, atônita, sem ter feito nada
Vegetando na frente da tela
Prostada
A realidade se desfaz numa geleia de plasma
Uma gripezinha como diz o assassino, uma crise de asma

Nossa raça indefesa assistindo inerte e passiva
Ao apocalipse sistêmico e gradual da lógica do capital
Nossa pessoa solitária atrás de sua tela individual
Agora procura por amigos, clama por abraços, compaixão
Vasculha as ruas vazias da cidade fantasma
A cidade assiste a própria solidão ser comida por outra maior
Mas se já estávamos tão sozinhos, o que será de nós agora


A grande solidão comeu a solidão de todos os IPs do planeta
E isso se deu
Quando o Covid19 fotografou a nossa miséria existencial
São os EUA
Roubando medicamentos comprados por outros países
Bloqueando ajuda humanitária à pequena Cuba que nesse momento presta socorro ao mundo todo
Aproveitando pandemia mundial para roubar o petróleo da Venezuela
Os EUA são o negativo da fotografia da raça humana 
Tirada pelo Covid 19 em uma pilha de medicamentos roubados


O vírus fotografo revelou o capitalismo
O avesso de seus falsos mitos
Sua lógica destrutiva e imediatista
Seu profundo desprezo pela vida humana
Dos velhos da Havan, Maderos "Injustus" a Donalds Trumps
A ambição desmedida em sua marcha inexorável para a extinção
Vão queimar dinheiro pra se aquecer quando as geleiras derreterem
Mas pouco importa


O vírus não tem nada a ver com cobras e morcegos
O vírus é a resposta aos macacos
O Planeta tem suas próprias defesas
Ao ver-nos tão indefesos e incapazes de reagir
A tanto poderio
À superpotência e seu arsenal bélico
A natureza manda um micro-organismo que nem célula tem
E põe o topete genocida e seu estacionamento de mísseis em casa
Como um nada que é
Recluso em seu quarto
Como qualquer um desses que ele e sua CIA matam todos os dias
Todos as bestas do capital
Condenados ao próprio espelho
A contemplar a própria degeneração moral
Assistindo a solidão do universo
A comer as suas solidões mesquinhas


"O mundo está nú"
O Covid19 fez a foto e viralizou o nudes"


First América, foda-se o mundo
Mas vocês vão junto 

                                                                    Teju Franco 04/04/2020

segunda-feira, 9 de março de 2020

Guarda Belo




E quando vc não tem vontade de escrever você

É muito trabalho

Pra um vc que não tá valendo muito no mercado

E quando vc não quer mais fazer poesia

Nem melodias

Nem porra nenhuma

Só ir pra um lugar

Que não fosse premente existir

Ficar num lugar neutro

Uma sala de cinema

Vazia

Um desses aquários subterrâneos

Em que se vê os predadores

E seus seres humanos

Peixes sem head-fone

Como quando eu olhava pro mundo

Enquanto corria com a Chiquinha

Minha cachorrinha

Passávamos lépidos e caninos

Por toda insanidade urbana

Indiferentes

Ouvindo "Logo Eu"

O cara escolhido

Para o que mesmo?

E quando você não tem vontade de nada

Nem de morrer

Nem pra suicida se tem talento

Minha filha leu uns versos outro dia

Botou tênis pra me ver

Preocupada

Antes fosse, filha

Não tenho esse impulso

Pior é conviver com essa alma

Desalojada

Nesse mundo bélico

Sem nada

com um violão nas mãos

Inútil

Parabélico festim

Sem balas, cordas, público

Só o guarda Belo

Cobrando o aluguel

Da lata de lixo

Do que fiz de mim.

Teju 10/03/2020

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

As Minhocas da Miriam Muniz, a missão



Por melhores que sejam os amigos do momento
A vida é um apartamento de um dormitório
Quando o bicho da existência pega
Esta-se sozinho
No mictório
É lá que mijamos nossa alma liquefeita
Da porra e do óvulo

Por melhores que sejam os amigos
O destino te faz cérvulo
De chifres ressentidos
Ou aguerridos
Não tem porta de saída desse tapete de bitucas
E copos derrubados
Arrependidos
Perversos

Retrô
Escavadeira
Não rompe o piquete
Que fazemos conosco mesmos
Não tem ponte Rio Niterói pra fora do quadrado
É tudo ali mesmo
O octódromo
O insensato
O UFC
O sucesso
E o fracasso
Um soco
Uma chave de braço
Um Falsete

Da amiga rica que jogou seus trinta mil por mês pra me fazer um bosta
À intensidade e brilho da aventura que só se encontra no desprendimento
Na empatia, no amor, na poesia e na bossa
Dos loucos e desavisados
Em sua vã aposta
Uma vida luxuosa, confortável, previsível
Uma vida precária, intensa, experimental
Foi assim que virei artista de feira mendigando trocados
No quintal
À margem do mercado
Do capital
Apagarei a minha vida quase anônima
Na senha de um desktop ultrapassado
Todas as canções e poesias
Irão intocáveis ao mundo da fantasia
Comigo
Como uma bíblia embaixo do braço
Dos crentes de porra nenhuma
Irão comigo
Num buraco de minhoca
Como bem dizia minha bruxa mais amada Miriam Muniz
Somos só minhocas angustiadas
Lembrar de mim não me fará atriz
Nem feliz
Mas hei de fazer bem pra quem ficou aí
Mesmo sendo, eu, um infeliz
                                                                 Teju Franco 21/02/2020




sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Passeio






Ando pela rua de mãos dadas com um garoto e um senhor
O garoto me puxa pelas mãos
O senhor me segura
A paisagem permanece intacta
O mesmo parque
O milk shake na lanchonete
A motocicleta veloz
A vida é um quadro congelado
O garoto se excita com a chegada da noite
O senhor pensa em ir para casa ler um livro
Paramos no meio fio
Na ilha das avenidas
Mil setas nos desorientam
Deixa de ser velhaco diz o garoto
Nada acabou, tudo é possível
-Você não cresce nunca
 me diz o senhor
Me sinto a corda de um cabo de força
Um dia o garoto me leva
Outro o senhor me guarda
Na ilha, no meio fio
Às vezes, sempre, tudo parece uma ilusão passageira
Ontem tive certeza que é
Com a partida da imortal Cris
Nos achamos tão imprescindíveis
Únicos
Mas somos breves como um acaso
Tudo pode acabar num piscar de olhos
Num tropeço
Num atravessar a rua
Se pensar em bilhões de anos luz
Não somos nem réstia
Um sopro
Que um corpo confere identidade
Mais precisamente a língua
Só por isso existimos
Nos reconhecemos por palavras
Atribuídas a nós mesmos
Por isso em dúvidas
Eternamente nessa ilha entre o trânsito aflito
E o quadro congelado
Recorro a poesia
Que desde garoto escrevia
Na ânsia de apaziguar esse senhor

                                                                              Teju 24/01/2020






segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

O Poeta não tem cabimento


O poeta não cabe numa repartição pública
Na academia
No dia a dia
Não cabe na família
Na igreja
O poeta
Não cabe
Não cabe no facebook
No Twitter
No instagram
Não cabe nas etiquetas
Nas boas maneiras
Nas ideologias
O poeta não cabe no amor
No ódio
Na fé e na descrença
O poeta não cabe no que pensa
Por isso faz poesia
Grita quando não podia
Vai aonde não devia
Fala o que ninguém falaria
Por isso se expõe assim
Sem pudor
Sem vergonha
Estrebucha em praça pública
Engole o sapo do mundo calado
Não se incomoda de parecer excêntrico
Destoado
De incomodar
De ser ridicularizado
O poeta não tem cabimento e sabe disso
É a única coisa que sabe
Que não cabe no pensamento
E por isso cria a terceira via
A poesia
Mas nem nela cabe o poeta
Sem cabimento



Teju 06/01/2020

domingo, 5 de janeiro de 2020

Vem me buscar












Vem me buscar
Me leva aí uma noite que eu tiver dormindo
Pra onde você tá
Vem
Você sempre apareceu do nada
Me fisga com suas mãos de fada
Pro ventre da noite
Vamos namorar por entre as estrelas
Ouvindo boleros
E aquelas músicas que só a gente gostava
Vamos cantar no karaokê da outra galaxia
Hum...
Que acha?
¨Pisar nos astros distraídos¨1
Como sempre fizemos
Feito dois meninos
Incandescentes
Vamo , Cris
Como sua mana Lu me disse hoje
Com aquela voz dela que é idêntica a sua
¨A maior delicia era esse “Vamo” dela...¨
Vamo, vem
Eu to pronto
Já deu aqui mesmo
Isso tá um saco
Tá chato
Já vivi, amei, gozei, sofri, me dei bem, me fudi
Consegui muita coisa que eu queria
Mas isso não resolveu a vida
Ela tá incerta, dura, difícil, tensa
Pra uma pessoa da minha idade
E agora sem você
como disse a Lu
¨Sem a exuberância¨
Vem me buscar
Vamo
É começo de ano
Enfim seremos
Dessa vez não vai haver desengano
Teremos nosso conto de fadas
Mais nada
Sobre a vida subjugada
Ultrapassada
Caretona lá embaixo
Ninguém merece
Vem me buscar, meu amor
Entra no meu sonho como você sempre fez
Pela ultima vez
Traz um vinho
Me mostra o caminho que eu encontro você
Seja lá onde for
Na Lua cris
Nos espaços das suas arquiteturas
Imerecidas a mim
Agora vai rolar
Eu juro
A gente pula esse muro da vida
E vamos sair de férias por outras praias
Tropicais
Galaxiais
Vem me buscar Cris
Eu fiz uma música nova
Um poema
Você vai adorar
Eu vou cantar só pra você
Vamos escorregar na dobra do tempo no espaço
Vamos ser aqueles namorados
Que sempre quisemos ser
Apaixonados
A zombar da eternidade
Intensamente
Plenamente
Exuberantemente
Vem me buscar Cris
Você sempre veio

Teju Franco 06/01/2020





sábado, 4 de janeiro de 2020

Cris, meu amor de dez em dez anos























Ela era intensa, vibrante
Cheia de vida, exuberante
Com seu rosto grande e lindo
Talhado em porcelana
Sua pele imperecível
Seu olhar aceso, expresso
Indescritível
 Escutava a mesma música cinco mil vezes e não era o bastante
O tempo com ela era um espumante
Transbordando da taça
Não tinha tempo sem graça ao lado da Cris
Precisávamos de um instante, um triz
Para voltar ao começo e continuar de onde paramos
E assim nos atamos por toda a vida
Nos reencontrando do nada
De dez em dez anos
Ela surgia
De um vão do tempo qualquer
Me achava na lista telefônica, na internet
 Com uma garrafa de vinho
Um encontro em uma livraria
Um filme, um show, um café
Que roteiro de filme isso daria
E a paixão insana reacendia o baseado no carro
Com o som nas alturas
Lucho Gatica
Pasion Vega
Sabor a Mi
A vagar pela cidade
A paixão louca sem GPS
A noite se infindava
Sobre a dança das pernas
Conversas
Sexo
Garrafas
Tristesses
Boemias
A melhor do mundo
A que tem par
Fomos o que nunca foi e mesmo assim nunca deixou de ser
Nunca nos materializamos em relação nenhuma
E nunca desistimos da gente
Eramos uma loucura escondida na penumbra
Nunca quebramos a corrente
Não vingávamos
Às vezes a culpa era dela
Às vezes minha
A ultima foi minha
Mais essa pra carregar
Ela chegou a dizer - não será a hora de ser
Agora ela se foi
Eu tentei falar antes que ela se fosse, eu sabia
Estar perto
Mesmo que fosse no leito da morte
Não foi possível
Não terei mais dez anos
Não verei mais Cris
Não consigo comer a morte, eu a vomito pelos olhos
Não sei como será viver sem o perigo de vê-la surgindo do nada
Do vão do tempo, do limbo que ela chegava sem eu nunca esperar
Ela que me achava
Com seu Malbec indefectível
E o seu conversível com o som nas alturas
Esperando na porta da minha casa errante cada hora num canto
Seja lá aonde estivesse
Me convidando pra dar uma volta na cidade
Mesmo que de dez em dez anos
Que mulher
Inesquecível
Vontade de largar essa porra toda
E estar aí com vc, meu amor

                                               Teju enlagrimado Franco 05/01/2020