terça-feira, 29 de outubro de 2019

Merda, seu Milton!




Foi o show do Marcio Policastro no projeto “Tapete Mágico” do Max Gonzaga e da Lea Paioti; um show para 50 pessoas na sala da casa deles.


A casa do Max e da Lea tem abrigado dois eventos que se alternam: um mês é o Max Sarau, outro é o “Tapete Mágico”, os dois são um fenômeno.
Um Tapete que fará história na MPB. A gente chega a uma idade em que aprendemos a separar pretensão, ego trip, presunção e outras tolices mais, de realidade, da mais pura realidade.

Realidade é a bagagem que o Marcio Policastro, não se trata da realidade em oposição ao lúdico, não, a música dele é por vezes lúdica, lírica, mística, mas realidade no aspecto de não usar de nenhum truque, seja de interpretação, seja da feitura das suas músicas, letra, melodia, violão, ao contrario, é uma afirmação de autenticidade, o tempo todo, a espontaneidade rege a orquestra. Sabe a história do “poeta fingidor” do Pessoa, pois é, não é, Pessoa engana vocês, diversas vezes, o poeta não finge, ele lembra de algo que remete àquilo; é o show do Poli, as músicas vem do fundo da alma, as melodias e palavras são isopores que vem à tona e te lembram de algo, não podem ser contidas, como o ar mais leve que a água, elas emergem, não existe a necessidade do ator, do mergulhador, a cena já vem pronta, já fala por si só.

Quando eu vejo um grande show, o show fica em mim alguns dias, não acaba, fica rodando um videoclipe moto-contínuo na minha cabeça. “Merda, seu Milton!” irá fazer uma temporada na minha radio cabeça. Sim, eu poderia ser suspeito para fazer uma critica desse show, o cara é um dos meus melhores amigos, mas eu não sou suspeito, eu conheço a obra dele de trás pra frente, e, seu eu fiquei tão arrebatado é porque foi foda mesmo. Um artista chega a um momento da carreira que não precisa mais provar nada, fazer malabarismo nenhum, micaretas, apelações, e é esse descompromisso com a forma e esse compromisso com o conteúdo que dão essa densidade a obra do Poli.
Mas nada a ver com desleixo, ele é um cantor extremamente afinado, tem um timbre que pode ser doce e drive, uma “chorosidade” natural, não apelativa. O violão é peculiar também, meio Nelson Cavaquinho, meio sujo, estalado.

Tem outros artistas atuais que coloco no mesmo hangar, mas o Poli é um gigante do mesmo planeta dos Chicos, Caetanos, Toms, Miltons e por aí vai. Se tudo isso é feito sem muita estrutura, nossos shows são a força de trabalho da gente, imaginem com a “Tal estrutura”.

Uma frase que poderia resumir a canção do Poli seria “ você é convencido na primeira frase”, depois é só continuar ouvindo.

Acompanho nos últimos anos o trabalho dele, as criações, sou parceiro em algumas canções, e acho que ele está no ápice da sua carreira. É muito bom acompanhar isso, e o trabalho de outros amigos, não vou entrar em nomes senão seguiria uma lista extensa, mas criamos uma cena, para o bem e para o mal, existe uma espécie de confraria, um grupo grande de artistas bem diversos, diferentes, peculiares que se frequentam assiduamente. Não temos um nome, mas existimos; dentro desse espectro Marcio Policastro é um astro que divide sua orbita com público e artistas, ambos de muita sorte. Assistir um grande artista é sempre uma grande sorte na vida.

 Merda, seu Milton, que pena que você não pode ouvir “Marcio Policastro”, que há tanta distancia entre os mesmos, você diria a merda que se usa dizer no teatro, desejar boas coisas – merda, e não a merda, que também é real, de constatar o mal gosto que manda no mercado de música atual e que te levou a essa palavra merda, mas volto às saudações e votos dos espetáculos – merda para você e para nós, merdas ao Marcio Policastro, é dessa merda que precisamos e se mais houvesse não estaríamos nessa merda.
Teju 28/10/2019

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Que nunca vou abrir




Vou viver entre uma colcheia e outra
Em compasso de “um por dois”
Vou amar-nos por nós dois
Vou à festa de ação de graças
Vou à Páscoa dos Judeus
Vou sair na Mangueira
Vou viver feliz no silêncio
Como um pardal
Sem talento pra cantar
Vou disfarçar
Assobiar
Esconder o jogo
Embaixo da mesa da franqueza
Vou olhar as cartas
Não enviadas do meu amor
Meu amor não tem CEP
Nem logradouro
Estado, país, planeta
É como Deus
Só existe porque eu acredito
Em volta orbito
Com meu violino
Cheio de liras
E mentiras
Semibreves ao relento
Semicolcheias
Encantamento
Semínimas
Ínfimas
Semifusas
Com
Fusas
Sôfregas
Máximas
Maravilhas
Todas escondidas
Em uma Lira de Nero
Apagada
Em uma caixa de joias
Que nunca vou abrir
Ai de mim
                                                                                   Teju 23/10/2019

domingo, 20 de outubro de 2019

A poesia se quebra



 A Poesia é quebrável
Ela se quebra a uma palavra desastrosa
A um olhar desatento
A uma balada errada
A poesia sabe de tudo
Mas não suporta os insensíveis
Os elefantes em loja de louças
A poesia que faz e desfaz a moça
As mascaradas da música do Zé Keti
Existem exterminadores de poesia
A poesia não usa máscara
É olho no olho
Cuidado
Delicadeza
A poesia se quebra com desamor
Com macheza
O que era
 Deixa de ser
Pra nunca mais ser
Pois quando se quebra
É como uma noite de enganos
Sem conserto
Depois de quebrada a poesia não cola
Seus pedaços não se juntam
Ardem
Se repelem
Mudos
É a morte do verbo
É o fim da palavra
Rasga-se a página
Joga-se ao lixo
E busca-se o texto
Seu tecido
Em outro lugar    
                                                                            Teju           20/10/2019

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Éramos jovens e não sabíamos



 Ninguém sabe que é jovem
A gente só sabe da velhice
Outro dia, num show no ECLA
Uma jovem seduzida pelos meus encantos de cantar
E enganar a idade
Me disse da plateia que eu podia tudo
Eu respondi brincando em tom de ameaça
Não fala isso pra mim
Mas
Eu sei que não posso
Vinicius de Moraes podia tudo
Porque ele era Vinicius de Morais
Eu não sou Vinicius
Mas eu lembro de quando éramos jovens
E andávamos pelas ruas como no conto de Clarice

“Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.” Clarice Lispector

E andávamos pela cidade sem a pressa dos homens de negócios
Os jovens não tem pressa
Nem negócios
Eles têm todo o tempo do mundo como disse Renato
Andávamos lado a lado
E as ruas eram arcos de promessas de grandes luares a porvir
Mas as tardes eram infindas
Ruas que se entrelaçavam em ruas
E a gente sem pressa
Indo de nenhum lugar pra lugar nenhum
Só vivendo sem saber do tempo
                                                                     Teju 18/10/2019

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A violência do bem vai nos salvar do amor do Mal





 Quem precisa de amor
Esqueçam essa bobagem
O mundo precisa de disciplina
Regras
Moral de fachada
Militar
Quem precisa de amor pra ser feliz
O mundo precisa de autoridade de pai
Ditador
 Pastor
Os homens são tão felizes assim né
Construíram um mundo tão justo
Harmônico
Realizado
Você anda por aí e só vê felicidade
Nesse mundo edificado às regras do conservadorismo
Amor é um desvio que só traz pessoas frustradas
Agressivas
Autoritárias
Não é mesmo?
Vejam esses gays agredindo e matando héteros pelas ruas
Pessoas que amam indiscriminadamente
Não precisamos de John Lennon
Vinicius de Morais
Paulo Freire
Papa Francisco
Lula
Mandela
Chico Buarque
Leila Diniz
Precisamos de Jair Messias Bolsonaro
Malafaia
Edir Macedo
Sergio Moro
Donald Trump
Damares
Weintraub
Olavo de Carvalho
Não é verdade?
Notem como estamos mais prósperos
Nesse governo
Com mais esperanças e perspectivas
Leves
Felizes
“Cristãos”
A abençoada desigualdade social
Joga pessoas nas ruas todos os dias
Para deus poder cuidar delas
A cristandade mata índios
Pobres agricultores
Jovens negros
Com a graça de Deus, nosso senhor
Muitas almas indo para o Senhor
Precisamos de ministros Barrosos
Deltantans dinheirois
Regras radicais para conter essa doença do amor

O sexo
A felicidade orgânica e social de amar
Não é nada perto
De um soldado bem disciplinado
Um Brilhante Ustra
Um Major Olimpio
Um Mourão
Um Villas Boas
Uma arma de fogo na mão
Vamos acabar com os imorais
Do amor indiscriminado
Devíamos marcar as pessoas adeptas desse desvio chamado amor
Marcar como marcamos os judeus
Tatuar um coração para que esses monstros sejam identificados nas ruas
E a humanidade possa dar sequencia a esse mundo maravilhoso
Que construiu para seus descendentes
O problema do mundo é o amor
Mas a violência vai resolver tudo
Assim esperam os homens de bem
Desse mundo maravilhoso.


Teju 16/10/2019

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Cine Metro



Baixa essa bola seu louco desavisado
Tá pensando o que
Que a vida é um circo místico
Que tem trapézio o tempo todo
Plateia
Bailarina pra se amar
Baixa essa bola
Esses tambores são fakes
Vá pra rua ganhar (perder) a vida
Leve teu circo no bolso
Quem sabe na folga do almoço
Ou no fim da tarde
Quando as cores dos mundos se misturam
E o céu aquarela a cidade de maravilhas incertas
Andando pela avenida central
O circo de bolso
Te convide para um filme
A cinelândia se acenda
E ali naquele hiato de tempo e lugar
Talvez até ela possa estar
Te esperando com um saquinho de pipoca
E um sorriso que envolve tudo
A mão que segura e puxa do vácuo
É difícil viver entre os mundos
Onde ela aprendeu a fazer isso
Criar a casa onde não existe nada
A cidade se atropela
Me despeço da namorada
E volto pro nada em que se ganha a vida
Saio do meu Cine Metro encantando
Para o alarme da porta do metrô.

Teju 14/10/2019

sábado, 12 de outubro de 2019

O Furto



 Roubaram todos os corrimãos do mundo
Não tem onde se segurar
Sabe o louco do Piazzolla
Então...
“Parece que solo yo lo veo
Porque él pasa entre la gente y los maniquíes le guiñan
Los semáforos le dan tres luces celestes
Y las naranjas del frutero de la esquina
Le tiran azahares”
Só eu o vejo
Mas a tarde é uma moça com duas bandeiritas verdes em cada mão
Lhe dando passagem
E Tudo em volta parece insano
A realidade é insana perante a loucura
A realidade não tem jeito
Por isso vivo preocupado com outras coisas
Imprevisíveis como os guardanapos do Zé Edu
Haveremos de escrever em meio à catarse
Que fizemos de nós
Louco, louco
Quando anoitece em minha portenha solidão


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Quase




 Quase é uma palavra escorregadia
Entre o que pode e o que poderia
Entre a ação e o arrependimento
Por ela se esvai uma chance
Uma historia
Uma vida
Um amor
Um beijo
Quase
É uma frase reticente no vento
Deixa as pessoas no vácuo
Do tempo
Ou mortas de culpa
O que se devia fazer
Ou deixar de fazer
A todo momento
A vida é tão implacável
Quanto a palavra “quase”
Não tem choro
Para quem nela escorrega
Não tem gozo
Para quem não escorrega
Não tem tempo, nem pausa
Nem descanso após o round
Cafuné na rede
A todo momento o tiro dispara
A corrida recomeça
A boca diz e desdiz
O corpo salta esguio, sem jeito
Por um triz
As mãos estendidas em busca dos aros
Nos ares
Quase
Por pouco
Ganhaste o troféu?
Quase
Morreste na praia?
Quase roubaste o beijo
Quase falhaste
Foste feliz
Infeliz?
De quase em quase
Se segue a vida
Sonhando
Ou amargando
Quase 
Te define
Quase
Caberá em tudo
Só não cabe no fim
No fim não tem quase
Nem palavra
O fim é mudo

Teju 09/10/2019