segunda-feira, 27 de abril de 2020

Quarentena




Eu to ficando maluuuuco aqui sozinho
Eu e o meu livro de poesias, minha vida num filminho em câmera lenta todo dia

Há dez dias atrás pensei que tinha acabado meu livro, comecei outra revisão e já se foram mais dez dias de turnos malucos, e ainda nem cheguei à metade

Como essa pandemia que nem chegou à metade, e a gente já assim, meio valente, às vezes, meio covarde, outras, pregando a solidão do isolamento que a gente não aguenta mais

Seres neuróticos, sempre ocupados e apressados
Não estávamos preparados para isso
Para tanto tempo consigo mesmo
Para tanto tempo em frente ao espelho

Instinto de sobrevivência estranho esse que para sobreviver te manda não se mexer, não fazer nada
Só meditar a vida e esperar

Isso não faz parte da "cultura"

A nossa existência industrial não estava preparada
Que será de nós sem a linha de produção?
Que será de nós?, consumidores sem shoppings.
Como respirar numa cidade tão despoluída?
Como encarar esses pores do sol tão lindos
Que esfregam em nossa cara nosso triste destino
Nossa trágica escolha

Seria tão bom acreditar que o mundo ficaria maluco também
E sairia dessa para outra forma mais evoluída
Priorizando a vida, a qualidade dela, as pessoas

Ligo a TV e vejo o dono do mundo querendo desinfetar a pobreza
O gado bolsonarista clamando pela presença da periferia para o abate
Cristãos oferecendo vidas em sacrifício para salvaguardar suas riquezas, dízimos, às custas do sangue do capital escarlate

Empregadas contaminam patrões
Patrões contaminam empregadas
O mercado late
A renda emergencial vira estelionato
O presidente reza e luta pelo colapso

A TV Globo que conduziu o país ao genocida, com seu herói de mentira, tenta salvar o juiz infeliz
Mais sujos dessa merda que qualquer um
O juiz que negociou cargo em troca de prisão de inocente, Abraçou o demente, protegeu seus parentes
Agora quer sair limpo do esgoto fascista em que se esmerdeou
A TV já começa nova etapa em sua guerra
Insaciável por merda
Maldita família Marinho
Eles e os Bolsonaros se merecem

E eu aqui sozinho
Saindo da cama tarde
Sentindo falta dos meus amigos
Toureando a depressão
Que me invade
Ficando louco
Louco
Louco
Distraindo a própria loucura
Sonhando com um mundo maluco beleza de belezas
Em um minuto o desejo de morrer
Depois o sorriso
- que é isso, meu?
Pensando bem, sempre foi assim
A única diferença é a solidão
Somos um bicho social
Que pena que o ser humano só lembra disso nessas horas...


Teju Franco 27/04/2020





domingo, 12 de abril de 2020

O vírus do Espelho



E veio uma solidão e comeu a primeira
E veio uma maior
E comeu a segunda
E outra
E outra
E outra veio e trancou a casa
Ninguém entra
Ninguém sai

Longe de todos
Perto de mim
Só os meus lobos
Em volta de mim
A noite chega
Nada no ar
Só a certeza
Que ninguém vai chegar

Como se esconder
De tantos espelhos
Como fugir de si mesmo assim
Sem ninguém ou nada para se distrair

Vejo aquele garoto que morreu aos nove anos
Junto com sua autoconfiança
Vejo aquele rapaz assustado vendo seu pai desaparecer junto com um lar
Vejo a insanidade da juventude com suas escolhas
Vejo o adulto viciado na dança dos próprios erros
Vejo os amores que decepcionei
O senhor dos sonhos mais vulnerável que um bebe
Uma mãe morrendo no quarto ao lado
De tristeza e escuridão

Na parede encostada, a guitarra mágica, malfadada
Sola sua fuga sem som
Pensando bem
Não é tão diferente
A arte é uma espécie de isolamento
Ser artista é viver só
Não é esse o problema

O problema é estar em uma idade
Em que não existe mais o desejo de mentir para si mesmo
Nem musicar a banda dos homens sós
Se enganar contando para si mesmo aquele outro que você sempre achou que deveria ser
E nunca foi, e não é

O problema é ver quem você é
Parece bom, mas dessa maneira, com as portas trancadas
“sem pódio de chegada ou beijo de namorada”
É um estado de choque e tanto
Um choque de realidade consigo mesmo quase letal
Socorro, grita um pensamento afônico
Entre a sala e o banheiro o mundo se parte ao meio
Ser adulto e não ser um caso crônico
O vírus da solidão é um velho conhecido
Já o vírus do espelho ...

                                              Teju Franco 13/04/2020

sábado, 4 de abril de 2020

Covid19, o vírus Fotógrafo


Ninguém sabe o que está por vir
Nem o filósofo
Nem o economista
Nem o estadista
Nem os genocidas
Pastores guiam seus rebanhos para o encontro do senhor
"À morte", com a grande salvação cristã,
não é de graça
A glória do senhor é cara
A eternidade um crediário a perder de vista
A juros módicos se erguem templos de Salomão

Enquanto tombam cristãos às porta dos hospitais superlotados
O cenário é apocalíptico mas
Os dízimos não podem parar 
Dizem as bestas do apocalipse
Ou o genocida Anchieta
Vendo a gripe dizimar nações indígenas
"Essas viroses estão rendendo muitas almas ao senhor,
Aqui ele terá um bom lucro"
Dois mil anos depois continuamos escolhendo os ladrões e os genocidas, os Malafaias e Bolsonaros


A grande nação dos mocinhos de cinema assumiu publicamente sua identidade
De piratas, ladrões, saqueadores
Interceptam navios e aviões de medicamentos comprados por outros países e simplesmente tomam os medicamentos para si
A nação mais rica do mundo
Assumiu o latrocínio como política de estado
Fizeram isso em toda a sua história de camuflagem de falsos valores
Agora é na cara
O Covid revelou

America first
Foda-se o mundo


O Covid19 é o grande fotografo da atualidade
Revelou o fracasso da falácia neoliberal
Sua total incapacidade de abrigar a humanidade
Revelou
A verdade desumana dos operadores do capital
A lógica genocida das bolsas de valores e seus profetas
Revelou a máscara do bandido por trás do capitão América
A humanidade à merce de um império de piratas, ladrões, saqueadores, assassinos, genocidas


A vida reage, a natureza reage de maneira inesperada, imprevisível
Nossa raça, acuada, desorientada, abandonada pelo estado
Desarticulada pela múltipla informação
A vagar solitária pelas redes sociais
Impotente ao poderio das grandes corporações econômicas
Assiste o mundo se colapsar
Incrédula, atônita, sem ter feito nada
Vegetando na frente da tela
Prostada
A realidade se desfaz numa geleia de plasma
Uma gripezinha como diz o assassino, uma crise de asma

Nossa raça indefesa assistindo inerte e passiva
Ao apocalipse sistêmico e gradual da lógica do capital
Nossa pessoa solitária atrás de sua tela individual
Agora procura por amigos, clama por abraços, compaixão
Vasculha as ruas vazias da cidade fantasma
A cidade assiste a própria solidão ser comida por outra maior
Mas se já estávamos tão sozinhos, o que será de nós agora


A grande solidão comeu a solidão de todos os IPs do planeta
E isso se deu
Quando o Covid19 fotografou a nossa miséria existencial
São os EUA
Roubando medicamentos comprados por outros países
Bloqueando ajuda humanitária à pequena Cuba que nesse momento presta socorro ao mundo todo
Aproveitando pandemia mundial para roubar o petróleo da Venezuela
Os EUA são o negativo da fotografia da raça humana 
Tirada pelo Covid 19 em uma pilha de medicamentos roubados


O vírus fotografo revelou o capitalismo
O avesso de seus falsos mitos
Sua lógica destrutiva e imediatista
Seu profundo desprezo pela vida humana
Dos velhos da Havan, Maderos "Injustus" a Donalds Trumps
A ambição desmedida em sua marcha inexorável para a extinção
Vão queimar dinheiro pra se aquecer quando as geleiras derreterem
Mas pouco importa


O vírus não tem nada a ver com cobras e morcegos
O vírus é a resposta aos macacos
O Planeta tem suas próprias defesas
Ao ver-nos tão indefesos e incapazes de reagir
A tanto poderio
À superpotência e seu arsenal bélico
A natureza manda um micro-organismo que nem célula tem
E põe o topete genocida e seu estacionamento de mísseis em casa
Como um nada que é
Recluso em seu quarto
Como qualquer um desses que ele e sua CIA matam todos os dias
Todos as bestas do capital
Condenados ao próprio espelho
A contemplar a própria degeneração moral
Assistindo a solidão do universo
A comer as suas solidões mesquinhas


"O mundo está nú"
O Covid19 fez a foto e viralizou o nudes"


First América, foda-se o mundo
Mas vocês vão junto 

                                                                    Teju Franco 04/04/2020