segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Aquário


Aquário

 

Entre ali

Ali onde não tem ninguém

Ali aonde ninguém vai

Nem os verdadeiros, nem os falsos amigos

Nem Deus com sua tábua de salvação

Ou muro de lamentações

Ali onde não cabe ninguém, além de você

Dispa-se, tire a roupa da vaidade, da culpa, dispa-se

Prepare um Drink

Retire a maquiagem

Aprecie o aquário

Olhando de fora é meio ridículo né...

É bom estar fora, sair um pouco

Daqui de fora tudo parece um sonho

Pessoas vem e vão, nascem e morrem, tudo passa...

A eternidade é um conto de fadas da covardia humana

Somos mais breves que uma brisa

Um sopro em uma imensidão de vazios, multiversos paralelos invisíveis

Permita-se

Fique ali onde tudo é nada

Êxitos, fracassos, tudo nada

Loteria estúpida do carbono 14

Relaxe, não tenha medo

“ Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti."( Nietzsche)

Deixe o abismo olhar dentro de ti, discordando do autor, tu não te transformarás no abismo

“Além do bem e do mal” tudo é uma invenção incognoscível

Real mesmo é o tempo da tua carne

O monstro é você que não aceita a própria existência, e não o abismo

Aceite o monstro se quiser dominá-lo para além do medo

Fico com “O ser e o nada” (Sartre)

No Aquário 

das facticidades

São a elas que respondo, que tu respondes

Portanto não leve tão a sério assim o filme do aquário

Para além do abismo, do bem e do mal, da tentativa heroica e mal sucedida da filosofia de teorizar o que não é passível de teoria: a vida

Fico, fique com a poesia

Tente se divertir

Ria, é um circo

Depois, olhe mais uma vez para o aquário

A solidão é só um camarim

Tem outro você dentro do espelho e não um monstro

Sorria para ele e ele sorrirá para você

Retoque a maquiagem

Componha-se

Será sempre você com você mesmo até o ultimo pulsar

Você morrerá como as estrelas

Talvez sua luz ainda perdure por um tempo

Assim como vemos as estrelas que já morreram

Talvez não, mas isso já não terá a menor importância

Termine seu drink

Volte para o aquário

Mesmo que se sinta um peixe fora d'água

Continue nadando

Enquanto puder se divertir



Teju Franco 13/11/2023


domingo, 15 de outubro de 2023

Chacoalho da Bosta



A vida inteira pra curtir: Gal, Caetano, Gil e Bethânia

(Parafraseando Augusto de Campos em seu “Balanço da Bossa”, meu “Chacoalho da Bosta”)

 

A vida inteira pra curtir Gal, Caetano, Gil e Bethânia. Que sorte a nossa! Mais sorte a deles. Que bom deve ser a vida dando certo quando você tem 20 e poucos anos, tudo pela frente, com a energia da juventude pra fazer o que bem quiser e a vida material bem resolvida. Que delícia!

 

Foi assim que esses meninos e muitos outros de sua geração começaram suas vidas de artista. Uma tamanha constelação de talentos, no céu do Brasil, ao mesmo tempo, acontecendo no maior e mais vibrante momento histórico do século 20: os anos 60. Tempo de profundas transformações, turbulências, revoluções comportamentais, políticas, existenciais, em que a juventude era colocada no centro de tudo, ao mesmo tempo que colocava tudo, absolutamente tudo, em xeque.

 

Essa conjugação de talentos tão variados e diferentes, e originais, combinados ao frescor de uma época em que não se confiava em ninguém com mais de trinta anos, colocou a bola da história nos pés da juventude. Isso gerou um frescor criativo no mundo inigualável, criar com o vento da história a favor é uma benção na vida de um artista.

 

E ninguém, no Brasil, aproveitou, usufruiu, gozou, se esbaldou dessa liberdade como esses quatro meninos. Com muita coragem, personalidade, liberdade e principalmente: com o talento nato, extraordinário deles. E o mais incrível de tudo, o tempo passou, a história passou por vários momentos, inclusive antagônicos a esse período, e eles continuaram com o mesmo frescor desafiante, intrigante, criativo, sempre vivendo de desafiar o mercado e assobiar no presente os ventos do futuro, ora contra o vento, ora a favor, os baianos e a ideia tropicalista de certa maneira continuaram pairando sobre tudo. Se a Bossa Nova dividiu a história na maneira de tocar, cantar, arranjar, o tropicalismo dividiu a história na maneira de criar, incorporar, se apropriar, se libertar, se atualizar o tempo todo. O saudosismo na tropicália é feito de um passado que não congela o tempo, querendo-o cativo a uma tradição, ao contrário, leva-o a novos rumos a todo momento, a cada passo da história.

 

Os baianos parecem que vieram predestinados a isso, lembro de Caetano falando da revolução cultural que um tal reitor Edgar Santos promoveu na Universidade Federal da da Bahia, trazendo para ela ícones internacionais do teatro, da música, da dança, da arquitetura e urbanismo. “ Não à toa, a universidade, em seus tempos áureos, interagia com a cidade de forma tão natural.brilhantismo O que se queria afinal? Quem definiu bem foi Glauber Rocha (1939-1981), um tanto mais à frente desse tempo: a questão era “derrotar a província na própria província”. Assim, Edgard Santos reuniu um time de excelência, que poderia contribuir na prática para a tal reinvenção da Bahia, entre eles os seminais Koellreutter  (1915-2005), Martim Gonçalves (1919-1973), Yanka Rudzka (1916-2008) e  Lina Bo Bardi (1914-1992), que tocaram, respectivamente, as escolas de Música, de Teatro e Dança da Ufba, e o Museu de Arte Moderna (MAM-BA).

Outras feras meteram o dedo naquele rico caldo, é claro, e também deixaram sua marca: Ernst Widmer (1927-1990), Carybé (1911-1997), Pierre Verger (1902-1996), Mario Cravo Jr., Milton Santos (1926-2001), Walter da Silveira (1915-1970), Anton Smetak (1913-1984), Clarival do Prado Valladares (1918-1983) e Vivaldo Costa Lima (1925-2010).

Todos preparando terreno para a geração posterior, que transformaria para sempre o cenário vigente, composta por Rubem Valentim (1922-1991), Elsimar Coutinho, Glauber Rocha (1939-1981), Tom Zé, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Wally Salomão (1943-2003), João Ubaldo Ribeiro, Rogério Duarte e Capinan. A intenção era clara: educar culturalmente a população. “ (* Doris Miranda)

 

Acho que Caetano é muito resultado desse caldo, e da visão cosmopolita que o reitor Edgar teve, e que até hoje é traço marcante dos soteropolitanos e da Bahia em geral. Eu sei o que é isso, pois já morei em várias cidades, sob o pretexto de valorizar o que é do bairro ou da cidade, transformam esses lugares em sítios trancados culturalmente. Com argumento de “vamos valorizar quem é daqui”, nada se transforma ou evolui, aí fica lá o mesmo diretor de teatro, desatualizado, acomodado, fazendo a mesma coisa, ano após anos, só para dar um exemplo. Isso é o que mais acontece nos interiores do Brasil, nas secretárias de cultura municipais, até nos botecos musicais em que sempre trabalhei. Sem ventos vindos de fora, a tendência é a estagnação, a preguiça, o acomodamento, e o efeito é o contrário do que se pretende, ao invés de fortalecer a cultura local, o resultado é o enfraquecimento da mesma, em seu próprio provincianismo no que tem de pior.

 

Caetano é uma força criativa oriunda desse “o mundo cabe aqui na minha aldeia”, seu Tejo criativo corre aonde bem quiser na geografia do planeta. Ele e sua turma usufruíram disso e tiveram uma vida próspera artisticamente, emocionante, prazerosa.

 

Sempre que fazia um contraponto dessa geração com a minha, o resultado era uma profunda depressão, pois ao contrário deles, minha geração pegou todos os ventos históricos contra. Hoje não me deprimo mais, pego carona na felicidade deles para continuar criando e ainda me inspiro muito nesse caldo tropicalista, e olha, sempre me dando ao direito de questionar, discordar, romper com esse ou aquele ponto de vista.

Ao contrário do séquito que segue Caetano, em que parece que ficam todos esperando o que ele vai dizer, ou para aonde vai, para depois se posicionar, coisa chata, deve ser muito chato isso, inclusive para o próprio, eu me dou ao direito sempre de dissentir.

Eu sou de outra época, vivi outra realidade, a maior parte da minha geração não conseguiu trazer à luz a sua produção, passei a década de noventa inteira no perrengue, sem trabalho, vendo os bares elencados pela “Bunda Music”, então na dava para eu bater palmas para “É o Tchan”, achava aquilo horrível esteticamente, musicalmente, as roupas, a dança, a ostentação, tudo. Depois viemos a saber que os caras batiam nas dançarinas, entre outras barbaridades e sacanagens comerciais que faziam rotineiramente. Não consigo, diferentemente dos baianos, bater palma para tudo que é popular, só por ser popular e vir de lugares de poucos recursos e bla e bla e bla, enfim, eu vivo com poucos recursos, e pago um preço caro por isso. Também, quem gosta de vaca de presépio é carola de igreja, grandes artistas gostam de ser desafiados, vide João Gilberto reagindo tão bem ao tropicalismo que era muito, muito, muito diferente da estética da Bossa.

 

Sem “choramingação” de leite vencido estamos aqui, sou parte de um grupo de compositores muito ativos e motivados. A tal linha evolutiva segue muito bem-obrigado, e se ela sempre vai além, deve-se muito a esses Doces Bárbaros, a sua alegria, ousadia, coragem, e liberdade criativa. Diferente deles, não tivemos a vida inteira pra curtir, mas tudo ficou mais divertido, no sentido criativo, depois deles, a boa sensação de que tudo é possível. Sigamos, e se o “Balanço da Bossa” não vira mais, a gente chacoalha nossa bosta do jeito que dá.

E viva Macalé, vi um show dele há poucos anos e está tudo ali, vivo e atuante, o mesmo frescor dos anos sessenta, em toda a sua liberdade criativa que não se congela no tempo, ao contrário, o desafia a todo momento.

 

Chacoalho da Bosta – Teju Franco 15/10/2023

 

 




 

domingo, 8 de outubro de 2023

Sobrepasso



            Sobrepasso

 

 

     Sobrepasso o amor inatingível

              Como as linhas do rejunte da calçada

              Para além do que se tem e não se tem

             Toda posse na verdade não tem nada

 

             Um fantasma com prazo de validade

    Sobrepasso a vaidade vã e fútil

                      Rouba o tempo o que nos há mais precioso

Tão real e irreal se jaz inútil

 

     Sobrepasso as vontades e desejos

 Realejos sorteando nossa sorte

                  Tem a morte, mas também tem doce beijo

          Tem o queijo, tem o vinho, tem resort

 

      Ansiedades "rivotrizão"nossos vícios

        Levar malas dessa grife Schopenhauer

 Qual a carta que se tira do destino

            Sofrer  Beckett ou dançar de black power

 

 Para a vida desprovida de esperança

Eu espero no quiosque a caipirinha

          Um velho calção de banho, invés da rinha

 Vadiar pelo seu corpo e suas tranças

 

 Sou loucura sem a droga controlada

Carnaval de cinzas quentes reluzentes

 Samba Baden na Clínica São Vicente

     Liga o foda-seque a vida é uma roubada

 

 Sobrepasso

livre

Ou

     Dodecassílabo

              A tristeza mestre-sala dos meus ais

             Se do gozo sou discípulo cativo

             Vou vivendo assim

             Vinícius De Morais...

 

              Teju Franco 08/10/2023




sexta-feira, 29 de setembro de 2023

O Noveleiro







O Noveleiro


Eu sou da época que as novelas monopolizavam o país, não escapava ninguém: pai, mãe, vô, vó, filho, filha, empregada, cachorro, papagaio, se bobear até os peixinhos do aquário grudavam no vidro pra não perder o último capítulo.

Nós, os garotos, fingíamos que não gostávamos – novela é coisa de mulher! É, mas na hora que entrava a vinheta, a gente “tava” lá como quem não quer nada. Sofríamos com aquelas historietas clichês pra saber quem era o pai ou a mãe verdadeira dos mocinhos da trama. A minha vó era daquelas que se encontrasse a vilã no supermercado, voaria no pescoço dela sem pestanejar, assistia os capítulos xingando os vilões o tempo todo, era uma novela a parte ver minha vó assistindo novela.

Certa vez, no meu curso de teatro com a grande atriz, professora e diretora Myrian Muniz, ela nos passou como tarefa um exercício chamado porão, que consistia em levantar todas as memórias sonoras musicais desde os primórdios da vida que a gente pudesse lembrar. Lembrei de canções da infância, a maioria temas de novela, comerciais antigos de TV, duas músicas que me faziam chorar quando neném que eram “Adeus Belém do Pará” de Dorival Caymmi ( acho que era por causa da frase “adeus meu pai, minha mãe, adeus Belém do Pará) e outra que era um baião de Paulo Santoro e que chegou às rádios na voz de Carmélia Alves ( acho que era porque o bichinho abandonava a menina que gostava dele). Fora isso, fora as músicas das novelas, lembrei apenas do comercial de Natal da Varig, lindo, aquele que começava “Estrela brasileira no céu azul ...”, outro jingle que lembrei era do mingau Avecrem que sempre fazia eu me levantar daqueles quadrados em que trancavam os bebes, lembrei a música do Biotônico Fontoura também, que eu adorava. Não consegui me aprofundar com detalhes nos remotos anos do meu passado.

Anos depois, com o advento do Youtube, eu pensei – nossa!, agora dá pra fazer um porão perfeito da minha vida, ano a ano, escrevi num caderno todos os anos da minha gloriosa existência, foi quando esbarrei sem querer num pedaço de uma novela antiga chamada “Anjo Mau”; após assistir um pedaço, lembrei em segundos de tudo que vivi naquele ano: meu inimigo da escola, a moça que eu amava secretamente, meus amigos de bairro. A vida ressurgia em flashes, o primeiro porre no camping, os sorvetes ao domingo na Brunella, os sanduiches do Chico Hamburguer sábados à noite, o beijo no bailinho de garagem do Zé Orlando, o dia em que pedi a fulana em namoro, a troca de sopapos com o insuportável Douglas na escola, tudo ali. Que ano era esse? Fui lá ver: 1976. Pronto, descobri a chave do túnel do tempo: as novelas. Dei uma geral nas novelas disponíveis, em suas trilhas musicais, e com as novelas e as músicas pude identificar, com detalhes, ano a ano, as passagens da minha vida.

Em 1977, fui salvo pela poderosa e exuberante Kiki Blush (Eva Tordor) e suas filhas maravilhosas: Fernanda (Lucélia Santos com 19 anos), Milena (Aracy Balabanian), Renata (Thais de Andrade), Regininha, a caçula (Gisela Rocha) e o irmão Paulo (João Carlos Barroso). Daí pra frente fui remontando os anos da minha vida, pautados pelos anos de cada novela. Gabriela foi uma explosão de hormônios adolescentes, Dancin’Days foi quando comecei a pensar na vida criticamente, e por aí vai ...

A gente se apaixonava pelas atrizes, odiava os vilões, chorava copiosamente nas cenas de amor, nos sentíamos vingados e redimidos em cada final feliz. Quanta banalidade, mas era uma forma de se abstrair das nossas vidinhas sem emoção. As produções eram bem mais pobres e precárias, e pareciam mais com a vida da gente, não eram como agora que mais parecem seriados americanos. As músicas sorteadas para as trilhas sonoras das novelas viravam hits e tocavam dia e noite por meses, às vezes anos. Quem não se lembra de “Meu Mundo e Nada Mais” de Guilherme Arantes lançada na novela “Anjo Mau” em 1976, ou “Rock and Roll Lullaby” cantada por BJ Thomas na novela “Selva de Pedra” em 1972, ou “I Loved You” cantada por Fred Cole em Dancin’Days, “Filho Único” de Erasmo e Roberto Carlos (tema divertido do Netinho de Locomotivas), “Coleção” de Cassiano, também na “Locomotivas”? Hein!? Quem não se lembra?

Era outra época, memórias analógicas, as coisas não tinham menos lógica e mais emoção, tesão, paixão, sei lá. As pessoas se envolviam organicamente nas tramas. Antes dos robozinhos dos games, as pessoas queriam se apaixonar, viver grandes paixões como os protagonistas das novelas, queriam uma saga heroica para as suas vidas repetitivas de rotinas imutáveis. Na verdade, é compreensível, a vida industrial da época e cibernética da atualidade nos nega tantas coisas.

Então era melhor chorar com a Julia Matos (Sonia Braga) se encontrando com a filha Marisa (Glória Pires), ficar pensando em quem matou Odete Roitman ou Salomão Hayala, vibrar com a Onça Juma Marruá (Cristiana Oliveira) se entregando ao playboy Joventino (Marcos Winter).

Na verdade, o que se quer é emoção e, como o mundinho capitalista selvagem tira tudo das pessoas, pra essa falta de emoção se inventam esses remédios como compensação, é uma espécie de projeção. De Janete Clair a Shakespeare, o que o ser humano precisa é emoção, amor, paixão, desafios. Sinto uma profunda ternura pelos atores da TV que de uma certa maneira acompanharam a minha vida, o meu desenvolvimento como pessoa. Alguns são escanteados após envelhecerem, principalmente as mulheres, vítimas preferenciais da ditadura da beleza, aposentadas à força depois de tantas glórias e fama. Fico pensando como ficam as cabeças dessas pessoas, em suas casas, depois de tudo que viveram. Sigo algumas atrizes nas redes sociais, algumas na ativa ainda, outras não, algumas são minhas amigas no Face, como Wanda Stefânia, Sandra Barsotti, Bete Faria, Sonia Braga, Paula Burlamaqui, Maria Zilda, outras viraram amigas pessoais como Tássia Camargo. Essa gente faz parte da vida da gente.

Atualmente dei de assistir novelas antigas, sei lá por quê. Acho que sei, é pelo mesmo motivo de antes, pra abstrair um pouco dessa vida besta.



Teju Franco (24/09/2013)


 

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Ao Lado


 Ao Lado

 
As coisas sempre estiveram ao lado
Trabalhamos silentes ao lado das máquinas
Das caixas registradoras
Dos boletos
Dos extratos
Vivemos assim relapsos
Sobreviventes ao colapso das palavras
Passamos entre atônitos e indiferentes
À margem do trânsito das cidades
Trabalhamos por nada além do testemunho do caos engarrafado
Ninguém nos paga, nem nunca hão de pagar
Não viemos pra ganhar
Assim gastamos o dia
Na poesia...
Ao relento esperamos à noite
ávidos por algumas gotas de luar
Atravessamos o serão das horas a beber e cantar
Aqui desse lado, fora dos lados
Nesse espaço de ninguém
Como peixes livres, fora do aquário
Embasbacados voyers
Do apocalipse capitalista
Vivemos e acordamos em tempos curvados no cosmos
Fora da pista
Como se não fizéssemos parte
Desse universo
Cego de arte
À parte de tudo
As coisas estão ao lado
O poeta nunca sabe onde está
Nesse ludo
As coisas estão ao lado
O poeta...
Teju Franco 12/09/2023

Plenas



Plenas


As flores não envelhecem
Elas estavam na Belle Epoque, em Woodstock
Em Tara
Na "Primeira noite de um Homem"
Elas estavam no porão de Anne Frank
Na primavera de Praga
No Jardim de Julieta
Na "Beleza Roubada"
Estavam lá as mesmas flores
Eternas margaridas
Rosas iludidas
Orquídeas Selvagens
As flores ficam
A gente passa
As flores nunca murcham, nem morrem
Belezas não morrem
Seu único infortúnio é não serem colhidas por quem não as sabem ver
Mas nem por isso morrem
Ficam lá indiferentes
Espalhando belezas e aromas
Pois a sua existência exuberante lhe basta
Poderíamos ser assim
Pois pra isso nascemos
E fingimos que não sabemos
E inventamos o que não temos
Tivéssemos a sabedoria vegetal
A vida se bastaria em si
Único tesouro
Ar, terra, água e sol
Real caminho
Mas com tantas flores
Tulipas, crisântemos, girassóis, Dálias, flores do campo, Damas da noite
Escolhemos os espinhos
E vivemos assim mesquinhos
A criar Deuses fakes
Pra sermos eternos como as flores
Que nada sabem
Além de serem plenas de vida Teju Franco 12/09/2023

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Começo


Começo


Aprendi a colher detalhes
Frações de magia imperceptíveis
Olhar atrás do vidro das aparências
Das máscaras
Identificar o par certo no baile fugaz da existência
A vida é um sopro
Disse alguém que viveu distraído
Guardo no sorriso a testemunha do que fui
De cada vão momento
Venci, perdi, venci
Perdi, venci
Hoje nada disso importa
Bem ou mal atravessei as portas
Sem mágoas, sem rancor
Experimento insólita felicidade
Podia ser melhor, mas não foi
Foi só verdade
Como um dia que amanhece na praia
Sem ontem, nem amanhã
Porque enfim o tempo é isso
Só um nome
Uma matemática assassina
Passamos por ele e real mesmo são só as águas que molham os pés
As rugas que talham a pele
Aprendi a ser indiferente
Como um bicho
Vivo de presente
Vivo o que posso
O que não posso, desapego
Sem remorso, sem culpa, sem trauma
Olho no espelho da alma e me sinto no mesmo lugar
Esse lugar estranho, repleto de novidades
Sou o que mereço
Aqui nesse lugar
Nesse mesmo lugar
Chamado começo
Teju Franco

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Samba Erudito 2


Vi o que não havia
Fui
Até aonde não devia
Ali onde fartam castelos de areia
Arco-íris entornam caminhos
Sonhos
Fiz a valsa, o blues, o rock
Gritei ao vento
Girei moinhos
Triturei ansiedades
Verdade
Decorei a casa para a festa
Chamei os amigos
Contratei violinos
Várias vezes
Noites em vão
Ao soar as primeiras notas
Uma chuva não convidada
Congelava o circo
Os convidados fugiam
Os violinos desafinavam
Castelos se iam no vento
Um velho ancião chamado destino
Me devolvia ao começo
Ao nada
- Faça tudo de novo, não foi dessa vez
Não foi dessa vez
Como um sonhador obstinado
Começava tudo de novo
Lá estava eu no princípio de tudo novamente
Mais um rock, outra bossa, novo blues
Mais uma vez um riso sem graça no fim
Uma ausência que a tudo cancelava
Então olhei para o velho ancião
Trocamos olhares com muitas palavras
Entendi a mensagem
Devolvi as chaves da casa
Dispensei o quarteto de cordas
Travei a hélice do moinho
Joguei solvente no arco-íris
Avisei os convidados
Uma alcoviteira dessas de janela do messenger
Me repetiu argumentos indigestos
Sem fazer gesto ou alarde
Sai com aquela cara de quem já foi tarde
O ancião me sorriu assertivamente
Quando um não quer
Dois não sonham
Teju Franco 09/09/2021

O Cinema


 

A vida é cheia de voltas e caminhos
Tem gente e tem sozinho
Tem palavra que gosta da outra
Tem alma que reconhece a roupa
E se veste com a outra
O cinema da vida é como a cidade da janela
Lá vem ela
Inteira, íntegra
Como sabê-la sem tê-la
Como não fazê-la estrela
Entre o sonho e o real
Me detenho confuso
Rodopio nos seus cachos
Onde será que me encaixo
A difícil arte de se segurar
Esperar o oráculo desembaralhar seus futuros
Não deixar o louco pular o muro
A história é feminina
Suas palavras são mais concisas
Mais seguras
Não carecem de autoafirmação
É como correr por um parque
O mundo é pequeno
E aquilo que não se esperava
Pode vir como chuva de verão
Carnaval de Fevereiro
Ela vive de cuidar de vidas
Assim como a chuva
A água cura minha ansiedade
Saio de casa e entro no cinema da cidade
Teju Franco 28/08/2023

O Parque


 E assim escorrego pela vida
A vida é um escorrega
Depois do frio na barriga o prazer
Depois do prazer subir a escada novamente
Somos Sísifos
Todos
Só não percebemos
Ocupados demais que estamos
Mudamos de planos
De amores
Mudamos o rumo
Sofremos
Gozamos
Choramos
E torna subir a escada
Por uns momentos de prazer
Às vezes há sorte
A tarefa parece descomplicada
A namorada sorri
A vida te ama
Outras, vira as costas
A estrada bifurca
O labirinto te enforca
Nesse abre-fecha porta
O que importa é seguir
Amor
Trepa-trepa
De nada vale o leite derramado
Eu sei que é difícil
Falar é fácil
A coisa é mais que falar
Viver não é brincar
Infelizmente
Dou a volta na areia
Tento crer que é um parque
Que é diversão
Que só depende da gente
Cair e levantar é só gangorra
E viva o gira-gira
Tudo pode ser um infinito de carroceis
Os elétrons
Os planetas
As galáxias
Gira-gira gira gira
Doce, amarga vertigem
O homem no alto da escada
Olhando pro nada
Pegue seu bilhete
Pague o preço
Boa sorte
Tente se divertir
Não há outro jeito
A vida é o caos disfarçado de parque
Teju Franco 11/12/2021 14:26

A mentira, uma conversa depois de 20 anos




- Oi tudo bem, que surpresa!
- Pois é, um dia teria...
- Achei que não haveria mais esse dia, tentei tantas vezes
- É difícil explicar a conta, mas a distância cria mais distância que se multiplica para além da mágoa que se ancorou lá atrás
- Vc está bem?
- Estou sim e vc?
- Também
- Vi sua filha, linda
- E os seus, cadê?
- Pois é, esqueceram de aparecer em meio a tantos descaminhos
- Uma vez te vi no Rio
- é mesmo, por que não me abordou
- eu ia, por uns segundos me preparei, aí vi chegar alguém, não quis parecer um fantasma inoportuno
- ah, bobagem, devia ter dado um alô
- Sei lá, foi tanta raiva e ressentimento
- Passou, tudo se amaina com o tempo
- se eu soubesse
- e vc, se apaixonou casou, separou
- sim, tudo isso
- vc está com alguém agora?
- sim, estou há uns oito anos
- e você, está com aquele Beto?
- não, não, estou com o Gilmar, pai da minha filha, e vc com a Rosana ainda?
- Não, faz tempo, depois vieram outras, estou com a Bete
- se eu te conheço foram muitas, vc nem lembrava mais de mim
- Todo dia
- Ah, para
- Tantos dias de todo dia que mesmo distraído esperava pela vertigem
- vertigem?
- é, alguém passando na faixa de pedestres, um perfume atrás, uma música, uma vertigem com nome, todo dia
- vc sempre foi um mago com as palavras, isso foi bonito
- e vc, está segura com a sua vida, essa idade é estranha né
- to sim, super segura, não tenho do que reclamar, Gilmar é maravilhoso, nossa vida é harmônica, e vc
- também, a Bete é uma super parceira, uma pessoa bacana, já passamos por várias situações, ela é do bem total
- sei o que vc fala, vc sente, quer dizer, vc não sente falta de nada na sua vida?
- Nnnnão, não sinto falta de nada, está tudo bem, em paz; e vc?
- Eu o quê?
- Não sente falta de nada, está completa?
- Ssssssim, claro, também, tenho tudo o que preciso, sou feliz, uma filha maravilhosa, um marido carinhoso
- Que bom, que bom saber disso
- O que?
- Que vc está feliz, que não há mais mágoas, nem ressentimentos entre nós
-Verdade, tão bom isso
- Nem dá pra falar tudo numa conversa tão rápida
- Verdade, e por whatsaap né, vc vai estar ocupada amanhã?
- Amanhã? Nnnnão, por quê?
- Sei lá, pensei que a gente podia tomar uma cerveja no Amarelinho
- No amarelinho? Ainda existe o Amarelinho?
- Existe, tá lá, mais amarelo do que nunca
- Tá, acho que vai ser legal, mas olha, sem interesse tá, eu estou super feliz com meu casamento, tudo o que eu não quero é problema e estresse
- Claro, amigos, sem interesse, também sinto a mesma coisa, tudo o que eu não quero é estresse nessa fase da vida tão estável, pelos velhos tempos
- Então até amanhã amiga
- Até amigo, as 15h, pode ser
- Ótimo, às 15:00
- Boa noite
- Boa noite não, bons sonhos, esqueceu
- Bons sonhos
E depois de muito tempo, os dois voltaram a sonhar
Teju Franco 27/03/2022


 

A mentira, uma conversa depois de 20 anos
- Oi tudo bem, que surpresa!
- Pois é, um dia teria...
- Achei que não haveria mais esse dia, tentei tantas vezes
- É difícil explicar a conta, mas a distância cria mais distância que se multiplica para além da mágoa que se ancorou lá atrás
- Vc está bem?
- Estou sim e vc?
- Também
- Vi sua filha, linda
- E os seus, cadê?
- Pois é, esqueceram de aparecer em meio a tantos descaminhos
- Uma vez te vi no Rio
- é mesmo, por que não me abordou
- eu ia, por uns segundos me preparei, aí vi chegar alguém, não quis parecer um fantasma inoportuno
- ah, bobagem, devia ter dado um alô
- Sei lá, foi tanta raiva e ressentimento
- Passou, tudo se amaina com o tempo
- se eu soubesse
- e vc, se apaixonou casou, separou
- sim, tudo isso
- vc está com alguém agora?
- sim, estou há uns oito anos
- e você, está com aquele Beto?
- não, não, estou com o Gilmar, pai da minha filha, e vc com a Rosana ainda?
- Não, faz tempo, depois vieram outras, estou com a Bete
- se eu te conheço foram muitas, vc nem lembrava mais de mim
- Todo dia
- Ah, para
- Tantos dias de todo dia que mesmo distraído esperava pela vertigem
- vertigem?
- é, alguém passando na faixa de pedestres, um perfume atrás, uma música, uma vertigem com nome, todo dia
- vc sempre foi um mago com as palavras, isso foi bonito
- e vc, está segura com a sua vida, essa idade é estranha né
- to sim, super segura, não tenho do que reclamar, Gilmar é maravilhoso, nossa vida é harmônica, e vc
- também, a Bete é uma super parceira, uma pessoa bacana, já passamos por várias situações, ela é do bem total
- sei o que vc fala, vc sente, quer dizer, vc não sente falta de nada na sua vida?
- Nnnnão, não sinto falta de nada, está tudo bem, em paz; e vc?
- Eu o quê?
- Não sente falta de nada, está completa?
- Ssssssim, claro, também, tenho tudo o que preciso, sou feliz, uma filha maravilhosa, um marido carinhoso
- Que bom, que bom saber disso
- O que?
- Que vc está feliz, que não há mais mágoas, nem ressentimentos entre nós
-Verdade, tão bom isso
- Nem dá pra falar tudo numa conversa tão rápida
- Verdade, e por whatsaap né, vc vai estar ocupada amanhã?
- Amanhã? Nnnnão, por quê?
- Sei lá, pensei que a gente podia tomar uma cerveja n

Abcesso




Abcesso


Apareceu no meu peito
Ficou lá quieto assistindo tudo
Só olhando, guardando coisas
Medos, angústias, ansiedades, frustrações
Amores recolhidos
Tensão, alta tensão
Incerteza
Afora dele o corpo lhe alimentando por dentro
Infeccionando tanta coisa indevida dessa vida
Será pus, gordura, sangue pisado de coração
Quem sabe, só cortando pra ver
Até pensei nisso
A solução rápida do punhal
Cortando caminho da vida
Às “veiz” a vida
Então um belo dia, ele se cansou
Explodiu no meu peito
Um grande caroço dolorido
É câncer diziam os alaridos
É não, dizia esse cidadão
É só a vida reagindo pelos poros
É tudo que não tem foro
Sendo expelido pro raio que o parta
Não existe antibiótico para sentimentos feridos
Existem anticorpos que nem a gente sabe que tem
E que aparecem quando são precisos
Toma uma cefalexina monoidratada
Qual o quê
Hidratação só malte
Toma um anti-inflamatório
Nimesulida
Que nada, deixa ele ai sozinho
Secar toda água
Da vida
Não vai ser a primeira, nem a última
Ferida
Teju Franco 12/04/2022

Canoa

 


Canoa

À primeira vista parece tímida
Dez segundos depois não parece mais
Frações de segundos perceptíveis ao estranhamento do outro
E depois a aceitação da realidade
Ela é diferente de tudo o que conheci
Uma força que não carece exibir
Suavidade, firmeza
Palavras claras são bálsamos em um mundo cifrado
Se conhecer o outro é um labirinto de incertezas
Ela é água corrente
Vê-se aonde vai
Não carece mapa, nem ler estrelas
Pra saber o destino basta a margem do rio
Eu que só acreditava nas águas revoltas
Experimento a paz da lagoa
Sem pensar muito
Entrego à deriva a canoa
Teju Franco 17/04/2022

Uai!

 



Uai


Eita rapaz
Tá pensando o que da vida?
Que ela é duas?
A vida é só essa mesma, filho
Não tem rascunho
Do jeito que faz, vai
Como dia que cada dia vai
Até se pode
Mas não adianta olhar pra trás
Muda nada, resolve nada, recupera nada
É sempre daqui pra frente
E a moça lá, distraída na janela
Pensando que a vida é eterna
Pra sempre
Já sofri, pelejei, me lasquei, me fartei, me arrependi
E “ó” eu aqui
Parece que nem sai do lugar, nem comecei
E já me cansei
Cansei de esperar, cansei de tentar
Cansei de sonhar
Se a vida vale ouro
O coração é um bolso furado
Me atentei mesmo que fosse tarde
Me embrenhei na noite escura
Atrás da figura, do sentido, do destino
E “ó” eu aqui
Parece que nem cresci, nem pus tamanho
Queria cuspir esse gosto de estanho
Morder as frutas
Me enfeitiçar de flores
Me amanhecer de cores
Lapso delírio
Meu lírio perdido
Fato martírio
Atravesso o dia “oficinando” as dores
Que não tem conserto
A certeza de Deus é o desacerto
Ta certo, diz o compadre mentindo mais uma vez
Tá certo, eu respondo
-Vamu trabalha
- O que?
-Vive
Uai
Teju Franco 22/05/2022

Demorei a namorar as tardes


  

Sempre fui amante das noites
E guerreiro das manhãs
A tarde parecia-me um entreposto
Um backstage
Lembro da volta da escola, a sessão da tarde
Tarde – trabalhar – estudar – correr pra casa no meio do trânsito
Nunca me detive
Até que um dia ela entrou estranha pela janela de vidro da cozinha
Entrou com luz e penumbra esverdeante
Atrás da vidraça havia uma vida se pondo
No meu coração outra vida iniciava falando com ela no celular
Então percebi que as tardes são Julietas
Seios em cima do balcão para que Romeos escalem árvores depois
As tardes são shaquespearianas
Interlúdios entre o que estamos e somos e os sonhos da noite
Hora de esperar e pensar entre os vãos do crepúsculo
Buscar uma vereda
Deixar a luz magenta acalmar a fúria
Depois tomar um banho
Secar os poemas com a toalha da noite
E se vestir para a próxima Lua
Teju Franco 29/03/2023

Serenidade

 

     


Serenidade


Não é fácil não
Não são fáceis
As coisas aqui desse lado
Ninguém disse isso, nem há de dizer
A terra do olho no olho
Em que ao espelho não cabe escape
Embrolho
Aqui não se escolhem caminhos fáceis
Aqui não há caixa de disfarces
A verdade não vem em gotas
A virtude não depende de cálculos
Não é preciso jogo de adivinhação
Nas coisas do coração
Aqui amigo não corre passar perna em amigo
E há que se entender o limite das coisas com serenidade
Inclusive a mediocridade alheia
Não espere gratidão na terra da realidade
Faça por você mesmo, por convicção, por vontade
E deixe o barco da vida levar
Com a serenidade de quem sabe não conter entre os dedos a correnteza do rio
Aqui faz frio e calor
A solidão não tem cara, nem vive a dois, ela é transparente
Não tem parentes, nem falsos amantes
Aqui se encara o invisível
Se cala a seco o inevitável preço
E se segue sem reclamar
Ainda assim aqui se pode gozar e amar
Em noites de Lua tem viola pra tocar
A incerteza da circunstância viva
Se acalenta em tratos e afetos
Se ninguém vence o frio das torres capitalistas impessoais
Fazemos uma fogueira
Aconchegamos pessoas
Cantamos em volta
Desafiamos os capitais
Aqui no meu mundo
Entre meu olho e o seu
O olhar dura o tempo da confiança
No breve espaço em que oxigênios e hidrogênios combinam a vida
No meio do caos em que nada se controla
À revelia da morte
Aqui à cada dia um mote
Que componho entre olhares
Cúmplices ou não
Aqui estou, como se diz: na mão
Por minha conta e razão
Por meu canto e paixão
Não vendo milagres, não adoço a boca com falsos confeitos
Não busco mãos em minha cabeça, mas sentido nas coisas
Sei que um dia vou partir com certeza
Única
Mas aqui, comigo
Não poderia ser outra coisa
A vida como ela é não busca complacência
Nem falsos ombros
Entre meu olho e a existência
Só existe a coragem e a covardia
Que se escolhe a cada dia
Com perplexidade e paciência
Na minha reza sem Deus tudo que peço
É serenidade
Teju 25/05/2023

Inteiro



Não é tempo de meios amores

Nunca foi

Nem de meias batalhas

O confronto é diário

Aqui não é terra de sombra e água fresca

Ha que se comer léguas de cacimba nas costas

Para matar a sede na água metafísica das encostas

Escrever mil liras, plantar mil lírios

Escorregar em limbos e limbos e delírios

Utopias de apostar vidas em desertos

Não é tempo de meia sorte, meia morte, meia vida, meio azar

Nada é certo, nunca haverá partes atenuantes por perto

Aqui o destino joga tudo a todo tempo num piscar ...

Não é tempo de meio dia, meia noite

Meia hora pra adiar

Nem atrás, nem à frente

Corremos com o tempo

Atrás de uma linha “que siempre está más allá”

Não é tempo de baixar a guarda, a cabeça, nunca foi

Não há férias, nem inverno, nem outono, nem verão, nunca houve

Nunca foi

Nada além de inventar primaveras

De fazer brotarem flores da pedra

Jardins de quartzo verde

Levanto, lavo o rosto, olho a estrada

Quem há de ter-te

Pergunto à areia do tempo

Deixo a meia vida para quem é de meios e metades

E sigo assim no vento

Inteiro assim...

Sem nada



Teju Franco 28/08/2023





segunda-feira, 5 de junho de 2023

É!



É!

 

Tá, é só passar as paredes de vidro

Andar vitrificado nas camadas da própria transparência

É só inexistir

Qualquer reflexo de vaidade

Deixar

Esvair..

 

 

Entre

Invada os jardins de invernos verdes

Sinta o solo mudar sob os pés

Terra, pedra, areia, água, asfalto, paralelepípedo

Pare!

Esqueça os ponteiros

Os metrônomos do apocalipse

Entre no útero

No laboratório em que foste criado

Descanse

Veja o que está errado

Fume um cigarro do que quiser

Nunca paramos de nascer nem de morrer

Nasça

Faça diferente

Depois se vê

Se conserta de novo

Se nasce

Nascer e morrer é o destino inexorável

De ser gente

E a gente é

Gente

Isso não se discute

Melhor diferente então

A cada sempre

Esqueça aquela pessoa

Ame àquela outra

Vá pra Bahia

Pra Boemia

Mude de emprego

Nasça

Nascer e morrer é o destino de ser gente

E a gente é o agente pra ser gente

Né, gente?

Uai!

É!

 

Teju Franco 06/06/2023


 

terça-feira, 4 de abril de 2023

Diversão e Arte

 



Diversão e Arte

 

Quanto mais a gente amadurece

Menos inimigos temos, além de nós mesmos

Escrevi isso há poucos dias

Como nasci há dez mil anos atrás

Meus outros “eus” inimigos são íntimos

Meus monstros de estimação

Conheço bem

Já bebi com eles

Já sofri com eles

Já menti por eles

Já os venci inúmeras vezes

Já fui ferido no meio da rua

Já morri

Já nasci

Eles estão ali

Talvez estarão sempre ali

E eu também

Um dia de cada vez

Como dizem os ex-viciados

Cada dia uma guerra

Na selva, na Polis, Na PQP

Aqui

Eu também

Na melhor versão “hoje”

Do que ontem

Meus monstros se humanizaram

Já não são tão feios

Continuam cruéis

Como o mundo que os pariu

E eu cada vez mais indiferente

À medida que melhoro, não me cobro tanto assim

Se me deterioro de tempo

Porque as coisas são mesmo assim

Já não tenho pena de mim

Nem vejo o futuro de maneira trágica

No mais é mais do mesmo

Um dia de cada vez

Cada dia uma guerra

Meus inimigos íntimos estão ali

Na sala de estar

Eu estou na cozinha fazendo um drink

Ou tocando guitarra na madrugada

Ninguém vence ninguém

Estamos todos, são todos personagens da mesma jornada

Não há vencedores

Somos todos perdedores

Não do jogo, mas da vida

Em cada dia de guerra

De um dia de cada vez

Um dia se vai

Um dia a menos

A juventude não tem o valor do tempo

A maturidade sim

Meus inimigos íntimos estão ficando mais fofos

A coisa descambou pro humor

Ainda bem

Porque a única vitória mesmo sobre a grande incompreensão das coisas

É rir

Se divertir

É uma questão de escolha

E há de haver inteligência nisso

Senão quem se fode é você

O tolo do desperdício

O torturado do precipício

O palhaço do absurdo

O Dionísio transformando tudo em ludo

Pode escolher?

Melhor rir

Do que se fechar num hospício

Melhor rir

E, depois de tudo, além de tudo

Além do mundo

Se divertir

 

Para Samael, com carinho

 

                                                           Teju Franco 04/04/2023