Ando pela rua de mãos dadas com um garoto e um senhor
O garoto me puxa pelas mãos
O senhor me segura
A paisagem permanece intacta
O mesmo parque
O milk shake na lanchonete
A motocicleta veloz
A vida é um quadro congelado
O garoto se excita com a chegada da noite
O senhor pensa em ir para casa ler um livro
Paramos no meio fio
Na ilha das avenidas
Mil setas nos desorientam
Deixa de ser velhaco diz o garoto
Nada acabou, tudo é possível
-Você não cresce nunca
me diz o senhor
Me sinto a corda de um cabo de força
Um dia o garoto me leva
Outro o senhor me guarda
Na ilha, no meio fio
Às vezes, sempre, tudo parece uma ilusão passageira
Ontem tive certeza que é
Com a partida da imortal Cris
Nos achamos tão imprescindíveis
Únicos
Mas somos breves como um acaso
Tudo pode acabar num piscar de olhos
Num tropeço
Num atravessar a rua
Se pensar em bilhões de anos luz
Não somos nem réstia
Um sopro
Que um corpo confere identidade
Mais precisamente a língua
Só por isso existimos
Nos reconhecemos por palavras
Atribuídas a nós mesmos
Por isso em dúvidas
Eternamente nessa ilha entre o trânsito aflito
E o quadro congelado
Recorro a poesia
Que desde garoto escrevia
Na ânsia de apaziguar esse senhor
Teju 24/01/2020
























