sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Passeio






Ando pela rua de mãos dadas com um garoto e um senhor
O garoto me puxa pelas mãos
O senhor me segura
A paisagem permanece intacta
O mesmo parque
O milk shake na lanchonete
A motocicleta veloz
A vida é um quadro congelado
O garoto se excita com a chegada da noite
O senhor pensa em ir para casa ler um livro
Paramos no meio fio
Na ilha das avenidas
Mil setas nos desorientam
Deixa de ser velhaco diz o garoto
Nada acabou, tudo é possível
-Você não cresce nunca
 me diz o senhor
Me sinto a corda de um cabo de força
Um dia o garoto me leva
Outro o senhor me guarda
Na ilha, no meio fio
Às vezes, sempre, tudo parece uma ilusão passageira
Ontem tive certeza que é
Com a partida da imortal Cris
Nos achamos tão imprescindíveis
Únicos
Mas somos breves como um acaso
Tudo pode acabar num piscar de olhos
Num tropeço
Num atravessar a rua
Se pensar em bilhões de anos luz
Não somos nem réstia
Um sopro
Que um corpo confere identidade
Mais precisamente a língua
Só por isso existimos
Nos reconhecemos por palavras
Atribuídas a nós mesmos
Por isso em dúvidas
Eternamente nessa ilha entre o trânsito aflito
E o quadro congelado
Recorro a poesia
Que desde garoto escrevia
Na ânsia de apaziguar esse senhor

                                                                              Teju 24/01/2020






segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

O Poeta não tem cabimento


O poeta não cabe numa repartição pública
Na academia
No dia a dia
Não cabe na família
Na igreja
O poeta
Não cabe
Não cabe no facebook
No Twitter
No instagram
Não cabe nas etiquetas
Nas boas maneiras
Nas ideologias
O poeta não cabe no amor
No ódio
Na fé e na descrença
O poeta não cabe no que pensa
Por isso faz poesia
Grita quando não podia
Vai aonde não devia
Fala o que ninguém falaria
Por isso se expõe assim
Sem pudor
Sem vergonha
Estrebucha em praça pública
Engole o sapo do mundo calado
Não se incomoda de parecer excêntrico
Destoado
De incomodar
De ser ridicularizado
O poeta não tem cabimento e sabe disso
É a única coisa que sabe
Que não cabe no pensamento
E por isso cria a terceira via
A poesia
Mas nem nela cabe o poeta
Sem cabimento



Teju 06/01/2020

domingo, 5 de janeiro de 2020

Vem me buscar












Vem me buscar
Me leva aí uma noite que eu tiver dormindo
Pra onde você tá
Vem
Você sempre apareceu do nada
Me fisga com suas mãos de fada
Pro ventre da noite
Vamos namorar por entre as estrelas
Ouvindo boleros
E aquelas músicas que só a gente gostava
Vamos cantar no karaokê da outra galaxia
Hum...
Que acha?
¨Pisar nos astros distraídos¨1
Como sempre fizemos
Feito dois meninos
Incandescentes
Vamo , Cris
Como sua mana Lu me disse hoje
Com aquela voz dela que é idêntica a sua
¨A maior delicia era esse “Vamo” dela...¨
Vamo, vem
Eu to pronto
Já deu aqui mesmo
Isso tá um saco
Tá chato
Já vivi, amei, gozei, sofri, me dei bem, me fudi
Consegui muita coisa que eu queria
Mas isso não resolveu a vida
Ela tá incerta, dura, difícil, tensa
Pra uma pessoa da minha idade
E agora sem você
como disse a Lu
¨Sem a exuberância¨
Vem me buscar
Vamo
É começo de ano
Enfim seremos
Dessa vez não vai haver desengano
Teremos nosso conto de fadas
Mais nada
Sobre a vida subjugada
Ultrapassada
Caretona lá embaixo
Ninguém merece
Vem me buscar, meu amor
Entra no meu sonho como você sempre fez
Pela ultima vez
Traz um vinho
Me mostra o caminho que eu encontro você
Seja lá onde for
Na Lua cris
Nos espaços das suas arquiteturas
Imerecidas a mim
Agora vai rolar
Eu juro
A gente pula esse muro da vida
E vamos sair de férias por outras praias
Tropicais
Galaxiais
Vem me buscar Cris
Eu fiz uma música nova
Um poema
Você vai adorar
Eu vou cantar só pra você
Vamos escorregar na dobra do tempo no espaço
Vamos ser aqueles namorados
Que sempre quisemos ser
Apaixonados
A zombar da eternidade
Intensamente
Plenamente
Exuberantemente
Vem me buscar Cris
Você sempre veio

Teju Franco 06/01/2020





sábado, 4 de janeiro de 2020

Cris, meu amor de dez em dez anos























Ela era intensa, vibrante
Cheia de vida, exuberante
Com seu rosto grande e lindo
Talhado em porcelana
Sua pele imperecível
Seu olhar aceso, expresso
Indescritível
 Escutava a mesma música cinco mil vezes e não era o bastante
O tempo com ela era um espumante
Transbordando da taça
Não tinha tempo sem graça ao lado da Cris
Precisávamos de um instante, um triz
Para voltar ao começo e continuar de onde paramos
E assim nos atamos por toda a vida
Nos reencontrando do nada
De dez em dez anos
Ela surgia
De um vão do tempo qualquer
Me achava na lista telefônica, na internet
 Com uma garrafa de vinho
Um encontro em uma livraria
Um filme, um show, um café
Que roteiro de filme isso daria
E a paixão insana reacendia o baseado no carro
Com o som nas alturas
Lucho Gatica
Pasion Vega
Sabor a Mi
A vagar pela cidade
A paixão louca sem GPS
A noite se infindava
Sobre a dança das pernas
Conversas
Sexo
Garrafas
Tristesses
Boemias
A melhor do mundo
A que tem par
Fomos o que nunca foi e mesmo assim nunca deixou de ser
Nunca nos materializamos em relação nenhuma
E nunca desistimos da gente
Eramos uma loucura escondida na penumbra
Nunca quebramos a corrente
Não vingávamos
Às vezes a culpa era dela
Às vezes minha
A ultima foi minha
Mais essa pra carregar
Ela chegou a dizer - não será a hora de ser
Agora ela se foi
Eu tentei falar antes que ela se fosse, eu sabia
Estar perto
Mesmo que fosse no leito da morte
Não foi possível
Não terei mais dez anos
Não verei mais Cris
Não consigo comer a morte, eu a vomito pelos olhos
Não sei como será viver sem o perigo de vê-la surgindo do nada
Do vão do tempo, do limbo que ela chegava sem eu nunca esperar
Ela que me achava
Com seu Malbec indefectível
E o seu conversível com o som nas alturas
Esperando na porta da minha casa errante cada hora num canto
Seja lá aonde estivesse
Me convidando pra dar uma volta na cidade
Mesmo que de dez em dez anos
Que mulher
Inesquecível
Vontade de largar essa porra toda
E estar aí com vc, meu amor

                                               Teju enlagrimado Franco 05/01/2020






sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Palco

 Limite
Cada um tem o seu
Ou não
Como diriam os baianos


Tem o limite da força
E da fraqueza
Do amor e do ódio
Tem limite pra tudo nessa vida
Simplista e repleta de pódios
Ela é vigarista
Meritocracia é teu cu
E não se engane com bobagens motivacionais
Somos perfeitamente vencíveis
Mortais
Comida de urubu


Tem pessoas que tem limites mais estendidos
Elas vão mais longe que outras, que a maioria
¨Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é¨1
Eu sempre me soube assim
Um testador de limites
Sou herói das situações extremas
Das que demandam muita energia
Coragem, atitude suprema
É o tipo de situação em que me dou bem, me supero


Meu calcanhar de Aquiles é o dia a dia
A rotina de construir o certo no meio do mundo errado
É aí que me lassssco
Dentro do quadrado
Meu mundo é redondo
Não à toa me fiz tonto
Giratório
Desatento
Perdido num mundo
Sem senso
Sensações, palavras
 Emoções querendo ser palavra
Decifrada, cantada, versejada.



Não à toa me cerquei de circo
De palhaços e fadas
Trapezistas, atiradores de facas
Absintos
E esse picadeiro bendito, fudido e mal pago
Em que pago meus pecados
Todos os preços e tratados
Que não minto


Na passagem de ano eu estava cantando
Num desses raros momentos
Em que o limite levanta as cortinas
Todo estresse do ano
Toda a energia demandada
Toda a barra da vida vivida
Que esbarra no banheiro do boteco
E
Eu me vi assim num show em que a única pessoa na plateia era eu
Eu e minha vida bailarina
Não escolhida

Não interessa o dia,
O álcool
A voz
O antes
A mina
Não interessa o corpo
A gripe
O astral
O morto
A sina
Sei o quanto voei nesse ano que jaz
Voaste ¨Manoel Audaz¨
Voaste
Como nunca vi
Mesmo assim, estou onde estou
Aqui
¨Nesse mesmo lugar¨2
Com a faca no pescoço
Sentado ali, sozinho
Aplaudindo meu grande show
Sorrindo
Anônimo
Eu e meu pseudônimo
Querendo sumir
E só voltar no próximo palco.
Por mim só haveria palco.

Teju 04/01/2020

1 Verso de Música de Caetano Veloso
2-Verso de Música de Dolores Duran

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Pressão




 Difícil descrever a pressão desse ano
O governo fascista soprou seu bafo podre dia após dia
Um ter que falar de pessoas deploráveis que entraram em nossas vidas de maneira desonesta
A mão covarde intermitente no coldre
Mas comigo não foi só isso, foi uma série de coisas boas e más
Gozosas e difíceis


Um ano intenso em todos os sentidos
Muita música
Nem sei dizer onde começa e onde termina
Em que música começa
 Em que música termina
A morte e a vida em cada esquina Severina
Fazendo michê


Eu me desfazendo em cinco
A sobreviver
E fazendo música
Que depois de 1200 encarnações vividas
Foi o que de bom sobrou:


Na música equilibro a batalha
Tiro proveito e prazer
Não jogo,  mas me enxugo com a toalha
Me ocupo de algo emocionante a fazer
Viver

A música

Pode ser uma viagem solitária

Tem dia que sinto – hoje o show é pra mim
Tem dia que é troca
Olho no olho
Boca no coração alheio.

E o sentir-se esgotado
O cansaço de quem é sozinho com seu fado
Um vazio em busca do cheio
Dedilha a viola


E é mais um samba que eu faço


Enquanto morre a célula mater.
A orfandade desse mundo uiva em volta feito matilha
- estás sozinho nesse mundo enfim, minha filha


Lari...lari...


A solidão existencial dedilha a viola
Ela não tem filha, mas é mãe de todos


E é mais um samba que eu faço
Para todos que eu não fui

Mas é também
Pensando bem

- o que mais eu posso fazer?
                                                                            Teju                    01/01/2020

¨E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar pra alegrar a cidade ¨ (Vinicius de Morais/ Carlos Lyra)