sexta-feira, 30 de abril de 2021

A cantora






Já bem dizia o artista mais pop de todos os tempos, William

Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha

nossa vã filosofia".



Foi a primeira sensação que me assaltou quando a vi cantar, a sensação de mistério, parecia um evento extraordinário, incompreensível, que vinha de outra esfera além da nossa compreensão. Assim fui detido em meu caminho, na porta daquele bar do Bexiga, em uma noite chuvosa. Fui fisgado por aquela voz sublime, celestial ... Parei à porta do bar e comecei a escutar aquilo, que de tão belo parecia mentira, parecia dublagem. Cheguei a pensar, que aquela bela mulher de cabelos longos estava ali dublando Barbra Streisand em “Evergreen”, tema de um filme que marcou os adolescentes de minha geração.

Após o primeiro choque, consegui prestar atenção no que realmente acontecia. Havia músicos que a acompanhavam. Era realmente uma apresentação. Eu me vi absorto, hipnotizado, esqueci da vida, pra onde ia, fazer o que não sei onde. Simplesmente segui a voz e entrei naquele bar. E o que vi era difícil de acreditar, uma moça linda, alta, de cabelos longos, cantando divinamente, com uma interpretação vigorosa, uma afinação impecável, uma voz poderosa que ela manobrava com maestria e com técnica sofisticada. Acompanhando essa voz linda e exuberante, seu corpo balançava na mesma sintonia, seus cabelos eram jogados de um lado pro outro, como se fizessem parte da música. Tudo parecia uma coisa só, e tudo era muito, muito lindo, muito.



Entrei no bar, sentei em uma mesa bem em frente ao palco e me senti dentro do filme, que tantas vezes assisti em minha adolescência. Meu Deus, quem é essa moça, de onde vem tanta emoção, vida, intensidade?! E essa voz que parece subtrair o chão dos meus pés. Olhei em volta e todos pareciam assim, levitando, seguros apenas por aqueles cabos que impedem os astronautas de se perderem para sempre no espaço . Como se a mesma voz que nos fazia levitar, nos mantivesse presos ali, enquanto soasse a música.



Voltei na semana seguinte e na outra, até que me fiz namorado da dona da voz. Ficamos um tempo juntos. Se a voz era fácil de sair e resolver a beleza do mundo, a dona não era nem perto disso; instável e frágil fora do palco, com as coisas da vida, infiel e dissimulada no amor. Nosso caso sobreviveu mais do que era suposto, éramos duas crianças sedutoras, acho que empatávamos, mas a vida, infelizmente, não é um belo canto. Nos separamos.



Com todas as armadilhas que armava pra si mesma, a grande cantora, mesmo assim, decolou rapidamente, e foi até aonde suas opções permitiam, ela não cantava em português nessa época, não gostava e nem conhecia música brasileira, isso restringiu seu talento incomum a ser cantora da noite. Do bar do Bexiga foi descoberta e alçada às melhores casas noturnas de São Paulo, cantava para alta sociedade e em clubes de jazz.

A grande cantora sempre foi um paradoxo da própria natureza, como se agraciada por um dom supremo e uma maldição, uma aura extremamente sedutora, em uma alma refém dos próprios misticismos infantis, que necessitava de proteção o tempo todo. Assim escolhia seus amores, como quem escolhe falsos protetores. E assim desenhava seus roteiros de romances desastrados, acompanhados de traições e finais trágicos, assim completava a própria armadilha existencial, a que sabotava esse dom tão raro e precioso dela, sua mágica vocal Até que um certo dia, a derradeira escolha que silenciou seu bem mais precioso nessa vida, seu dom, sua única chance – seu canto - sua voz.

A voz que vinha do alto do céu de sei lá onde, a voz que era a escolhida do dom divino, foi sendo sabotada para dentro de sua alma conturbada,  inexistindo, obsessores ajudavam-na nesse infortúnio. E ela, a voz, razão única de sua existência, foi se calando, esquecendo seu canto único num canto úmido da casa do desencanto. Cantora, que cantora? A cantora morreu, desapareceu anônima, ninguém viu, a dona da voz ainda sobrevive, perambula sem alma por uma vida de necessidades e apuros, pois ao abrir mão de algo tão especial, só lhe restou o vazio de caminhar sem alma, sem o viço da prórpia essência.



De vez em quando ainda a escuto bem no fundo, cantando nas profundezas da minha alma, seu soprano aspirado e místico, inconfundível. Deus deu, e sabe lá quem é deus, o ser humano que vive dentro e fora dela tirou, ela assim deixou, assim ficou, e sabe-se lá quem é ela agora, nem ela sabe, virou um zumbi do sopro de vida que foi um dia e desperdiçou.



Ela fechou a boca das melodias mágicas e saiu como chegou, incógnita. Apagaram-se as luzes, desceram as cortinas, se existiu, “ninguém sabe, ninguém viu”, só eu, que a guardei por tantos anos cantando nos meus silêncios, testemunha única, auricular da história.



Até tentei salvá-la, mas era tarde demais. Devolvo-a então à caixinha de música do meu silêncio, lá ela sobreviverá eternamente. De vez em quando abro a tampa espelhada, dou corda na memória, e escuto a sua voz balsâmica, que um dia me tirou da chuva e me atraiu indefeso, como um marujo enfeitiçado caminhando feliz para o seu fim. Pobre menina, que até Deus, distraído, levaria em seu canto incomparável de belezas, que até Deus cairia, como qualquer mortal, inebriado em seu canto de sereia. O canto que Deus cria quando sente inveja dos mortais, quando daria todos os seus poderes, só para poder morrer de amor...



Teju Franco 30/04/2021

 




segunda-feira, 5 de abril de 2021

O anjo do medo


  
Desde muito cedo sabia do medo e do fascínio que as mulheres causavam em mim, tive grandes amores em idade que os meninos não pensam nisso. Começou no primeiro ano primário, eu não fiz pré; uma loirinha da classe chamada Ana. Era uma escolinha pequena de bairro no último tobogã da avenida Pompéia, Ginásio das Nações, a primeira professora de música Cecilia Gorini é minha amiga aqui, ela não vai lembrar da Ana, mas eu lembro.

A Ana tinha um ramster do qual não se separava nunca, então deixaram o ramster frequentar uma semana de aula até ela se acostumar com o fato de que ratos não vão à escola.

Fiquei louco por ela assim que a vi, o ramster chamava-se Frederico, era gente boa, o ramster, ela também era, andava pela classe durante a aula roubando–nos a atenção vez ou outra, o ramster, ela ficava estática em sua carteira de fada. Todos queriam o bichinho embaixo de sua carteira, eu queria a Ana. Nasci me sentindo bem no precipício da paixão, é a única altura que não me paralisa, ao contrário, me lança ao abismo em que caio sorrindo sem saber aonde, mas não gosto da pressa, sou fascinado pelas sutilezas da conquista.

Bom, meu problema virou conquistar aquele ramster, a paixão é um jogo e, aos seis anos, ele é meio diferente, não precisamos impressionar a família de ninguém, e sim um ratinho chamado Frederico. Depois de dias de dúvidas eu tive uma luz, perguntei ao meu pai o que aquele bicho comia, comprei um banquete ratazânico e o joguei “despretensiosamente” embaixo da minha carteira. O Frederico atraído pelo cheiro do rango começou a frequentar a minha carteira, e assim nos tornamos amigos, irmãos, parceiros, companheiros de copo e seresta, e a musa ficou intrigada com essa nossa “afinidade espontanea”. Conversas sobre bichos, desenhos animados e coisas assim e descobrimos que morávamos perto, algumas ruas pra lá ficava o mistério que me inebriava, e eu nem sonhava.

O anjo do medo se tornou ótimo, apesar do medo, e marcamos um dia para brincar e depois outro, e outro. Depois ela foi embora, mudou-se de estado. Falava-se algo na escola que o pai dela, que era jornalista, estava sendo procurado pela direita militar, e eles saíram às pressas.

Passei alguns dias indo à praça em que a gente brincava, mas o parquinho parecia não brincar, perdera a graça, o balanço não balançava, apenas eu, a gangorra não subia, só eu caía, o carrossel não girava mas eu me perdia num céu cor de rosa giratório.

O anjo do medo escorregou pelo escorrega e nunca mais voltou e eu descobri que era um tocador de flauta, que amava tocá-la quando algum anjo, que me apavorasse, cruzasse o caminho, e me deixasse assim como um menino que nada soubesse e tudo quisesse, um eterno estreante.

Teju Franco