terça-feira, 29 de agosto de 2017

A Net e o tempo real que perdemos dos amigos, saudades do telefone.



Quando eu tinha vinte anos a vida era bem mais engraçada, e eu bem mais burro, eu era um chato, engraçado sempre, mas chato, era mais careta, conservador, limitado, mas o tipo de vida era mais legal, não havia essas telinhas e esses teclados, a gente tinha que telefonar pro amigo pra saber das coisas e perguntar - tudo bem? Aí começava a conversa que acabava gerando um encontro; encontro, essa coisa mais rara que existe hoje em dia e que era trivial há uns vinte anos atrás.

E eram vários amigos, e quase todo dia a gente arranjava um jeito de ser ver, amizade presencial, ou era à tarde, ou depois do trabalho, facu, ou tinha um bar que a gente batia cartão. Era tão bom, divertido; é bom ver as pessoas, eu adoro gente perto, gosto de gente, muita gente em volta, sempre gostei de turmas, sou um bom e leal amigo, antes tinha mais amigos leais, essa época narcisa e individualista tirou um pouco isso, ninguém torce pelo outro, todo mundo só pensa em si, em ser o tal, chato pacarai isso, eu sou gregário, gosto de turma, sou mais conciliador que competitivo, detesto gente competitiva, competição é legal no esporte que é uma brincadeira disso, na vida e nas relações é chato, é o mundo atual, ninguém tem muito amigo, tem concorrentes, puta coisa chata, eu sou da época que a gente dava a vida pelo amigo, ia na casa da namorada dele pedir pra ela voltar pra ele, hoje o cara vai lá e dá em cima dela, mundo estranho, solitário, individualista, superficial e com pouco tempo para tudo.


Acho que to ficando velho na saudade, velhaco nunca, mas eu gostava de ficar horas no telefone trocando confidencias com um amigo irmão, ah é, tinha isso, amigo irmão, aquele que você falava inevitavelmente todo dia, alguém ligava pra alguém pra saber a coisa mais importante da vida - oi tudo bem? Isso morreu né, vamos combinar? Alguém liga pra você pra saber se tá tudo bem?


Lembrei do Edu Lobo de olhos marejados falando que o Vinicius ligava só pra perguntar se ele estava bem. Coisa mais linda de carinhosa e bonitinha isso né, sem plateia, sem câmera de TV, não eram lágrimas e amor de aplausos de programa do Huck, essa demagogia de precisar de uma câmera pra lembrar que você é humano e depois voltar pro mundo dos interesses, era coisa do dia a dia, a gente queria saber do outro porque estava com ele, amizade.


Era bem mais divertido ser amigo antes da internet, perdemos o hábito, até eu, às vezes me vejo trocando mensagens de voz no whats App por mais de 30 minutos, porra é só ligar pelo whats mesmo, nem paga, mas perdemos o hábito, perdemos o hábito de ter amigos de verdade, perdemos os amigos em tempo real, não sabemos o cheiro da maioria dos nossos amigos, não sabemos a voz, é só essa telinha, esse teclado, e uma lembrança vaga, uma saudade impotente, a mensagem de voz e não a voz em tempo real, perdemos o tempo real dos afetos.

sábado, 26 de agosto de 2017

Do exame da veiaria ao Elvis em início de carreira em trinta minutos



Hoje fui em consulta pra ver resultados de exames. Exame da veiaria como se diz na roça. Eu nunca fiz esses "exames tiozão", Ó Positivo Porra Louca, jamé; devo confessar que fui com o cu na mão, como dizia aquela loira sábia - "Eu nunca fui santo".

Hemograma completo, Ultrasom de próstata e bexiga, vou operar o septo, tirar um cisto de gordura da cabeça, xo vê que mais, oftalmo, tinha mais coisa que o hemograma dispensou, tem mais um badulaque ae...

Vira a jovem e bela médica chamada Jéssica, gracinha a Jéssica, não vou dizer que pegava, porque isso nesses tempos de feminismo radical politicamente correto poderia me render consequências jurídicas e midiáticas, então digo que contrairia laços de matrimônio com ela, se assim ela quisesse, enfim, a bela Jéssica é ótima médica e parece uma pessoa bacana, bom papo, estilo médico cubano, ela usava um batom meio bolivariano (eu reparei). Jéssica, muito bonitinha, naquele momento era a criatura mais temida do planeta Terra, mais temida que o Deus dos cristãos, aquele cara legal amigo do Jó, já ouviu falar?, gente fina, argentino gente boa, era Jéssica em posse do meu hemograma, do meu ultrasom, aquele que não é musical.

Aquele momento que você pensa em todas as biritas que tomou na vida e outras cositas mais, todas contrações de matrimônios passageiras, picanha, torresmo, noites mal dormidas, todas as merdas que você fez na vida.

Você que não acredita em nenhuma porra de deus tá lá, rezando e orando como um bravo que é:

- Ave Maria cheia de Graça, o senhor e convosco, bendito o fruto entre as mulheres, não, pera, bendito o que, porra, isso não é hora de errar a Ave Maria, porra meu,

A Jéssica lê a primeira página, a segunda, a terceira, é quando você, ateu formidável, atinge aquele estágio da promessa

- fica sussa Deus, eu vou parar de beber, se meu fígado tiver bele eu não tomo mais uma gota de álcool, quer dizer, só de fim de semana, sexta, sábado, domingo se tiver algum evento esportivo, sexo casual só se alguma amiguinha for discutir o folclore brasileiro comigo, canja de galinha, camisinha, complexo B12, academia sem exagero, vou dormir mais cedo, e olha não vou em missa porque eu não gosto de padre, eu não gosto de madre, eu não gosto de bispo, mas eu dou umas rezadas de vez em quando, bele?, ah, eu juro que não vou continuar pensando que sou um garotão, eu juro, vou pegar leve, firmeza deus?

- Seu Eduardo

Ela parou pra tomar um gole d'agua, por que ela fez isso?

- Seus exames são o que pode se chamar de saúde de ferro

(Sonoplastia)

Fogos e mais fogos, rojões, show pirotécnico, Copacabana essa semana o mar sou eu, revellon de

Copacabana, aleleuia de Handel, eu bebo sim, estou vivendo, malandro é malandro, mané é mané

- Eritrograma, Leucograma, Plaquetas, tiroxina livre, hormônio tireoestimulante (será que é sexo?) , Antígeno Prostático Especifico (mui específico), Glicose, HBA1C, Uréia, Creatina, Colesterol, Triglicérides, HDL Colesterol (e o medo do HIV?) LDL Colesterol, LDL colesterol. VLDL colesterol, TGO AST, TGP alt, Gama Glutamil, Fosfatase Alcalina,

- tá tudo ótimo Eduardo

(ela tirou o senhor)

- ah é, mas e o HIV

- negativo

- e o exame de próstata?

- normal

(Deus, sou teu filho)

- Olha isso aqui quer dizer que o rim tá bom, isso aqui que o fígado tá bom

- o fígado? Tem certeza?

- sim, tá tudo muito bom, inacreditável pra sua idade

- tem certeza né doutora, eu gosto de comer tudo o que não pode, sou músico, troco dia pela noite, bebo mais do que devia, o figado tá bom mesmo?

- tá ótimo, tá tudo ótimo

- que alegria doutora, eu amo você, você é uma pessoa boa

Sai de lá me sentindo o Elvis em início da carreira, sentei na motocicleta e pensei

 - this is my way

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Eu Que...





Eu Que...

Eu queria um verso encantado
para uma noite que há muito tempo não tenho,
um drink porto-riquenho,
uma volta ao mundo de moto
sem controle remoto;


Minh’ alma humanista anda em estado de choque,
a reboque do meu desencanto,
e eu que pensava que era um Loki,
um rebelde do rock,
que a vida cabia num canto.

Andei sempre à beira do abismo,
de beco sem saída em beco sem saída,
entre a sinceridade extrema e o cinismo,
entre a ironia existencial e a paixão suicida.
Da viola quebrada à gota serena,
a tudo eu enfrentava,
só não me preparei para o tédio,
só não contei a solidão
no roteiro que menino escrevinhava.

A mulher mais linda dessa aventura, a vida,
essa se esgueirava, brincando de mal me quer bem me quer,
tanto usou e abusou essa mulher que assim me deixou,
testemunha ocular do que não devia nem queria,
o dono do olhar indiscreto,
e cansaço de pressupor a luta vã ao lado
na mesma rinha
do meu desejo secreto.

Dados, tudo parece um jogar de dados,
um tabuleiro encantado,
um mapa do tesouro que ninguém sabe se existe,
é como deus, é como o fado, o grande amor,
esse que não vistes.

Fardo,
ilusão, confete, serpentina,
o carnaval, o baile de máscaras a cada esquina.

Eu que sonhava tantas magias,
todo dia de manhã em que tardo
a minha juventude temporã,
que nunca vai me deixar,
me alucina.

domingo, 20 de agosto de 2017

Não é fácil ser Rivelino




Tenho que confessar uma coisa:
quando tinha 14 anos eu fiz permanente no cabelo, eu queria parecer com o Rivelino, aquele craque do Corinthians com cabelo encaracolado; foi num salão de beleza que ficava em frente a rua que a gente jogava bola; e o medão de algum garoto da rua me ver saindo de lá, segurei a japa dona do salão até umas dez da noite, mas não foi escova progressiva rsrsr. Sou geminiano taurino, desgraça pouca é bobagem.

Não sei qual era a tecnologia do "permanente', mas acho que eles punham uns bobes na cabeça da gente com um produto radioativo e depois deixavam no micro-ondas por umas três horas e meia, era terrível aquilo, tinha que ser macho kkkkkkkk, e com um cheiro medonho, como disse minha miga Sheila Grecco, o negócio fedia um produto químico estragado, um cheiro de pum de chaminé da fábrica de Durepoxi, mas virei o Rivelino kkkkk

sábado, 12 de agosto de 2017

Deia




O Karmanguia Lilás da minha tia. Meu tio milionário, muito gente boa, pessoa esquisita, mandou fazer dois dessa cor, um pra esposa e outro pra amante, o da minha tia foi entregue embrulhado em celofane em cima de um caminhão, coisas dos anos 50 ou 60, minha tia, a melhor cantora que conheci no mundo e que tive a sorte de virar várias madrugadas na seresta, encontrou com o outro Karmanguia Lilás no centro de São Paulo, foi um barraco high Society, minha tia foi uma cantora dos anos 50, uma mulher fora dos padrões do seu tempo, foi criada pelo meu avô coronel do café, um homem severo.

Tia Deia fazia gato e sapato do coronel e namorava a cidade inteira nas barbas do velho. Leila Diniz dos anos 30, foi pra Sampa sozinha , convenceu meu avô, o coronel. Com um violão no estojo começou a ganhar dinheiro na viagem, cantando no trem. A Deia era uma cantora hipnótica, uma Diva, quando ela cantava algo sagrado acontecia e ela conseguia a atenção de todo mundo, bom gosto, afinação, timbre, swing, venceu a Hebe Camargo num concurso de cantoras. Queria tentar recuperar alguns áudios da tia Deia e digitalizar, queria ir atrás desses áudios, são precários, mas é uma cantora de uma musicalidade absolutamente fora do comum, ela entrava num coral com cinco vozes e fazia a próxima já em primeira audição, os vocais dela desafiavam o ouvido humano.

Viveram a loucura dessa paixão fatal a vida toda, separados, ele fez outra família, em toda seresta tinha uma hora que ela contava as histórias dos encontros e desencontros com o marido, ela era muito engraçada, bonita, charmosa, classuda, carismática; meu fascínio pela música veio dela e das festas que promovia, o repertório era basicamente samba canção, música de dor de cotovelo como se chamava, Maysa, Dolores, Lupicínio, mais boleros, tangos, música caipira e guarânias paraguaias com violão e harpas, até hoje ouço aquelas harpas dentro do meu silencio.

Meu tio havia comprando uma fazenda paradisíaca para essas serestas chamada “Bom Viver”, um dos lugares mais lindos que conheci: ficava em Itu, tinha uma casa de fazenda grande com uns cinco quartos em cada extremidade da vasta sala, uma cozinha de fazenda e outra moderna, um salão de jogos de vidro, um salão de boliche, um lago lindo em frente à casa com patos , gansos, cisnes e circundando por flores, uma piscina de água natural dinamitada em uma grande pedra, uma coisa linda esse lugar, vastos pomares de frutas, havia uma frota de automóveis Cinca que servia apenas para levar os convidados para as serestas, o motorista vinha nos buscar em casa, a cantoria ia noite adentro, as crianças eram postas em um quarto para dormir, mas eu pulava a janela e penetrava na festa, de tanto insistir ganhei um passaporte especial para virar a noite com eles, e cantava duas canções no repertório deles que acabei aprendendo, eu tinha minha hora no show.

A minha tinha teve uma vida boa e turbulenta com esse homem, cuja faculdade ela pagou com o salário de funcionária pública, ela bancou os estudos dele e ele enriqueceu no ramo de construção civil, era um homem serio, circunspecto, muito culto que gostava de boemia, whisky e serestas.

Ela, quando já era uma senhora velha de idade, tinha um namorado suíço, um médico importante, ele a visitava no mesmo horário todos os dias. Um dia, inesperadamente, meu tio, milionário falido, velho, trabalhando de empregado, o tio Henrique que fez fortuna meteórica e que faliu junto com o milagre brasileiro, chegou na casa dela após uns vinte anos sem ve-la, o namorado médico estava lá, mas nessa idade a gente torce mais pela emoção do outro do que pela vitória, ele sabia o que significava aquele homem na vida da minha tia, o suíço foi embora assim que tio meu Henrique chegou se despedindo educadamente, e ele, meu tio, apenas pediu - posso dormir hoje com você, amanhã vou morar em uma cidade na Amazônia, um trabalho novo, a vida do tio Henrique sempre foi assim, uma sucessão de aventuras, até garimpeiro ele foi, ela disse - claro que pode, ele dormiu na cama dela, foi para a Amazônia e morreu no dia seguinte e ela enlouqueceu, nunca mais se interessou pela vida, perdeu a vontade de cantar, a graça que tinha, ela era muito divertida, engraçada, sabia contar causos como ninguém, tinha uma veia cômica maravilhosa, várias festas de malucos em casa terminavam com todos rindo alto com as histórias das viagens dela com o meu tio pelo mundo, mas a graça se foi com a vontade de viver.

Ainda cantou um bocado comigo quando meu pai estava com câncer, mas era só por mim, tipo ultima missão de cantora dela, fazer duo com a minha dor, eu chegava dirigindo de carro embriagado de outra cidade e ela me esperava com o violão na mão, ficou em casa durante todo o câncer do meu pai, que mulher, eu chegava bêbado, não suportava aquilo sóbrio, bebia para entrar e quando saia do hospital, bebia mais, depois de enfrentar uma serra cheia de curvas eu dirijo bem em qualquer estado que esteja, ela abria a porta com o violão na mão dizendo para eu comer e depois cantar com ela no quintal.

 Eu tenho a tia Deia cantando com a minha prima Analém, outro amor da minha vida, em MP3, é uma loucura, são gravações daqueles gravadores cassetes da década de 70, minha tia viveu da paixão por meu tio a vida toda, uma paixão fatal e imortal. Era uma bolerista de primeira, meio bossa nova, tinha uma vozeirão de mezzo soprano, mas cantava de maneira dosada, com dinâmica e sutilezas, depois que ele foi dormir com ela antes de morrer, foi uma mística derradeira em sua vida, ela foi ficando introspectiva, foi entrando dentro de um fim programado, ela morreu por opção, que amor lindo esses dois tiveram, ela já se acostumara a viver sem ele, mas precisava dele vivo, ele morrera, ela deveria também fazer isso, e assim a cantora da minha vida se foi dessa vida, mas continuou cantando eternamente em minha alma estrelada de noites de serestas na fazenda e canções com aroma de gardênia, “La puerta se cerró detrás de ti....

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Era um garoto que como eu tinha desvio de Septo



Contemplei a ponte e o abismo que o Léo escreveu aqui "
http://oxdopoema.blogspot.com.br/2017/07/ape26-ponte.html?view=classic "

várias vezes na vida. Quem viveu de cruzar fronteiras a contrabandear pelas pontes, meio sem casa sem onde, quem nasceu fora de lugar sempre vai invejar a paz do abismo, da ignorância, temos a inveja e o personagem, só não temos a alma, a alma pequena que o abismo limita, é só até aqui.


Eu nasci desviado como meu nariz, um desvio de septo me tirou do caminho, nunca mais me encontrei, fui meter o nariz onde não era chamado e passei a viver assim, um ser desviado. O texto do Léo me pegou porque ele usa diversos artifícios para falar do que há entre um ser humano e outro mas isso é só um jogo, um jogo de enganar, o outros estão no meio da ponte, são fonte de prazer e agonia, são a travessia e não o fim, a ponte de fato não leva ao outro, leva a outro, sim, de si mesmo, de novo agonia e prazer se jogam, princípio da angústia e do prazer, é tio Freud, quem come, quem passa fome entre eu e mim..


O Léo é um desses anti-heróis charmosos e sedutores como Woody Allen que nos convidam a andar em sua esquizofrenia conversível, e você aceita como se fosse uma carona num Cadillac de domingo, mas não é um passeio de domingo no parque, é uma volta na montanha-russa, no trem fantasma, na roda-gigante, na esquadrilha da fumaça, dar a cara a tapa à graça e à desgraça de ser o ser que não se enquadra.


Só eu vejo o jogo porque eu sou igual, eu também vim de onde não haveria de ter herói, o pré-roteiro não ajudava, o porteiro dos sonhos fazia não com a cabeça, a rosa dos ventos, a mais filha da puta de todas as rosas, a que decide em caprichos para quem vão os ventos contra e a favor. E, se a roda da fortuna não te escolheu, se a roleta não trouxe a sorte, e se o lar que te pariu não era doce, se a tempestade veio sem a bonança, se a namorada não te esperava do lado de lá, terás que sentir o vento contra e caminhar sem rancor contra a sorte, tudo e todos, sem lenço, documento, dinheiro na carteira, recompensa na algibeira, soldos, e não terá casa de fim de semana, praia, Copacabana, rede para gozar uma existência bacana. Como pega mal reclamar, lamentar, choramingar, nada como uma crônica para repartir o fardo de maneira dissimulada e se livrar da agonia também crônica.


Nasci com dez anos de atraso real, minha mãe não podia ter filhos, após longo tratamento vim com dez anos de atraso, esses dez anos me tiraram dos anos sessenta para o bem e para o mal, houvesse nascido nos anos cinquenta a minha geração musical teria tido outra sorte, mas talvez alguns de nós morreríamos nos cárceres da ditadura, mas ninguém morreria anônimo, nem de tédio, nem de fome. Em meu caso esses dez anos se tornaram um karma, não devia ser artista, não reunia as condições psicológicas em minha formação de pessoa para sê-lo, a autoconfiança que se precisa para pisar num palco, mas não consegui, tão pouco pude evitar, e assim subi no palco dez anos depois de todos que conhecia, sai assustado da coxia e fui como inseto para as luzes, também dez anos depois começaram a chegar as canções de verdade, dez anos depois iniciei uma carreira temporã e assim fui, e assim foi, nasci com o bonde perdido correndo atrás da própria história por uma ponte etérea sobre um abismo maciço de pouca glória; talvez um dia me encontre do lado de lá num largo sorriso, talvez seja um ajuste de contas, talvez os dez anos de atraso me jogue da ponte antes da hora no precipício, talvez nunca acerte o relógio da minha vida e ande por essa ponte como se esteira, sem nunca sair do lugar, só canseira.


Só sei que nada me foi fácil nessa ponte sobre o abismo de quem sempre nutriu vertigem de altura, mesmo assim vou operar o septo, fazer um corte na voz difícil e me livrar das zombarias dos amigos, mudar de nome, de sacrifício, consertar as vogais do desencanto consoante ao bel canto que sempre busquei, mesmo que nunca chegue o canto ao encanto, à sorte que nunca andei, que nunca acerte os ponteiros dos malditos dez anos, passarei a vida sonhando encontrar comigo do outro lado da ponte para fazer aquele samba de fato, aquele que vale uma vida sobre a ponte, aquele que será eternamente lembrado e depois, só depois, me calar como cheguei, sem fardo, e me jogar pacificado.