Quando eu tinha vinte anos a vida era bem mais engraçada, e eu bem mais burro, eu era um chato, engraçado sempre, mas chato, era mais careta, conservador, limitado, mas o tipo de vida era mais legal, não havia essas telinhas e esses teclados, a gente tinha que telefonar pro amigo pra saber das coisas e perguntar - tudo bem? Aí começava a conversa que acabava gerando um encontro; encontro, essa coisa mais rara que existe hoje em dia e que era trivial há uns vinte anos atrás.
E eram vários amigos, e quase todo dia a gente arranjava um jeito de ser ver, amizade presencial, ou era à tarde, ou depois do trabalho, facu, ou tinha um bar que a gente batia cartão. Era tão bom, divertido; é bom ver as pessoas, eu adoro gente perto, gosto de gente, muita gente em volta, sempre gostei de turmas, sou um bom e leal amigo, antes tinha mais amigos leais, essa época narcisa e individualista tirou um pouco isso, ninguém torce pelo outro, todo mundo só pensa em si, em ser o tal, chato pacarai isso, eu sou gregário, gosto de turma, sou mais conciliador que competitivo, detesto gente competitiva, competição é legal no esporte que é uma brincadeira disso, na vida e nas relações é chato, é o mundo atual, ninguém tem muito amigo, tem concorrentes, puta coisa chata, eu sou da época que a gente dava a vida pelo amigo, ia na casa da namorada dele pedir pra ela voltar pra ele, hoje o cara vai lá e dá em cima dela, mundo estranho, solitário, individualista, superficial e com pouco tempo para tudo.
Acho que to ficando velho na saudade, velhaco nunca, mas eu gostava de ficar horas no telefone trocando confidencias com um amigo irmão, ah é, tinha isso, amigo irmão, aquele que você falava inevitavelmente todo dia, alguém ligava pra alguém pra saber a coisa mais importante da vida - oi tudo bem? Isso morreu né, vamos combinar? Alguém liga pra você pra saber se tá tudo bem?
Lembrei do Edu Lobo de olhos marejados falando que o Vinicius ligava só pra perguntar se ele estava bem. Coisa mais linda de carinhosa e bonitinha isso né, sem plateia, sem câmera de TV, não eram lágrimas e amor de aplausos de programa do Huck, essa demagogia de precisar de uma câmera pra lembrar que você é humano e depois voltar pro mundo dos interesses, era coisa do dia a dia, a gente queria saber do outro porque estava com ele, amizade.
Era bem mais divertido ser amigo antes da internet, perdemos o hábito, até eu, às vezes me vejo trocando mensagens de voz no whats App por mais de 30 minutos, porra é só ligar pelo whats mesmo, nem paga, mas perdemos o hábito, perdemos o hábito de ter amigos de verdade, perdemos os amigos em tempo real, não sabemos o cheiro da maioria dos nossos amigos, não sabemos a voz, é só essa telinha, esse teclado, e uma lembrança vaga, uma saudade impotente, a mensagem de voz e não a voz em tempo real, perdemos o tempo real dos afetos.





