terça-feira, 31 de janeiro de 2023

The Great Pretender



The Great Pretender

 

Você é maravilhosa

Eu nunca duvidei disso

Desde a primeira redação quando alternava canetas coloridas

Pra escrever o cabeçalho do caderno escolar

Eu queria cores

Ah! Eu sempre te achei maravilhosa

Um milagre que sempre me encantava

Por trás da depressão da minha mãe cinza

A cultivar meu jardim secreto de flores noturnas

Mesmo nos piores momentos quem há de dizer que eu...

No dia da chuva negra

Ventando a noite nos meus cabelos

Fugindo do que um dia eu chamei de felicidade

Mesmo quando você virou um fantasma no retrovisor

Pela janela do carro

Ou no desembrulhar dos anos

Como balas repetidas sem sabor

Eu tive e tenho a idade do momento

A arte de nascer e morrer em frações de segundos

Ah! Eu sempre fui louco por você

Nos cantos de sol e sombra

Nunca me neguei a experiência

Mesmo quando me negavas tudo

Com pouco ou quase nada

Voltei à mesma estrada

Tateando as cordas de magias e maldições

De onde tirava as canções

Traído pela própria força de superar a sombra

Criei o palco iluminado

Acordei palhaço

Perdido entre perdidas ilusões

Brincando de jogar estrelas

E depois bebe-las até ficar azul

Não há espaço nem tempo no corredor do tempo

Para arrependimentos

Somos o que somos nesse momento

Depois que a TV sai do ar

The great pretender

Vivo entre minhas únicas duas vontades:

Viver e morrer

Não há tédio, nem rotina

Meu coração não tem passa tempo

Só a canção que nunca termina

Até eu terminar

Minha vida incompleta

Ainda assim alguma canção ainda há de soar

Metáfora da metafísica que chamamos de eternidade

 

Teju Franco 31/01/2023


 

sábado, 21 de janeiro de 2023

Sábados





Sábados

 

Eu vivo num eterno sábado

É

Não sei onde começa, nem termina

Não importa

O que me importa é saber que atrás daquela porta

Uma tarde verde viceja

Vai ter festa logo mais

Uma bicicleta amarela passa veloz

O florista entrega flores pra vizinha

É sábado, todos se arrumam

Dona Carmem rega o jardim

Seu Honório lava o carro

Eu escuto música alta no quarto

A moça se estende na piscina

Até a vida, essa distraída

Quer ficar mais bonita

Tem quem que goste de rotina, de marmita

Não no sábado

No sábado à noite todos são loucos

No sábado à tarde é preparar a festa espumante

No sábado de manhã minguém se lembra

Sábado as flores noturnas cheiram aromas, sexo, fragrâncias 

As moças se maquiam falando de amores

Os moços se embriagam de coragens vespertinas

Delirantes

Vai ter um show, vai ter um beijo, um som, um vinho, um queijo

Um festival

As luzes da ribalta dançarão com as sombras da cidade

No carnaval

Fumarei um cigarro imaginário

Me derreterei de letras e neons

Dormirei com um saxofone soprado de alguma chaminé bêbada de fumaça e alcool

Adormecerei nos braços de uma mulher

Ou sozinho no banco de uma praça encantada

Sem culpa, sem pressa, sem hora, sem frio, sem nada

Sem troll

Porque meu sábado nunca começa, nem termina

Ele fica ali na esquina

Esperando eu acordar

Porque sabe que

Eu só vivo no sábado

Eu viro o lado do disco

Espio à tarde na janela

Penso na roupa que vou usar

No sorvete que vou tomar

Na boca que vou beijar

E grito saúde Vinícius

Saúde meus vícios

Porque hoje é sábado

E a vida vem em ondas

E ondas são eternas em vir e vir e vir

Como os sábados do meu calendário de existir

Existir

Só aos sábados


Teju Franco, sábado, 21/01/2023


 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Whatsapp, o lugar de fala do Coração Frio



E assim fomos nos acostumando

Esfriando tecnologicamente

As distâncias foram sendo preenchidas com palavras pensadas

Ensaiadas sob autocensura

Mundo sintético e rápido

Os sentimentos se camuflam em frases feitas

Poemas emprestados

Emoções emojis

O riso e o humor pessoal

Virou um meme comprado em supermercado virtual

Já não é a velha piada dos tempos de faculdade

Já não é o estar de verdade

Somos ideias sem sons

Sem respiração

Sem nossas fraquezas a nos trair

Seria como fazer uma declaração de amor sem olhar nos olhos

Sem o grito insubstituível de “eu te amo”

E assim fomos nos calando

Aprendendo a viver de outro jeito

Parindo filhos sem sexo, sem tesão, sem turmas, sem gêneros

E assim fomos virando siglas

Confusos de quem somos, de quem sou eu, quem é ele

Qual minha imagem?

Como é meu rosto sem filtro?

Qual é minha vida de fato?

A que escovas os dentes, ou a do retrato?

E assim desacostumamos-nos da presença

Pra falar ao outro coração há que se pedir licença

- Oi, posso, posso fazer uma chamada de voz?

- Hoje não, amanhã, depois das dezesseis

- Mas amanhã não se se estarei mais sentindo o que sinto agora

- Amanhã, depois das dezesseis

E assim inventamos outros tipos de solidão

A solidão dos cinco mil amigos que não emitem sons

Nem passam na sua casa sem avisar

Nem tomam cerveja na mesa de bar

Somos robôs?

- não, não temos respostas automáticas

Ainda...

E assim fiquei um ano sem ouvir a tua voz

Linda...

Mas quem escuta quem nesse mundo de telas e ninguéns

Ainda podemos mandar áudios

É a única maneira de amar e dar vexame

De lembrar um pouco da época dos corações quentes

Minha filha riu lá no quarto de cima com uma tela à frente

Faziam seis meses que não a via rir

Ainda podemos mandar áudios

Mas ela sempre foi mais de digitar

Ela que sempre foi péssima digitadora

O amor vinha dela em semibreves

Os fins também

Não há muito tempo nessa vida breve dos teclados sem música

Não há baladas, ou adágios pra nos embalar

Ainda podemos mandar áudios

Mas ela sempre foi mais de digitar

Então fui, acho que esqueci sua voz

Quem bom né, uma nova maneira de deixar de amar

Dói menos, ama-se menos, abraça-se menos, beija-se menos, trepa-se menos

-Oi, tudo bem

-Nossa, dois dias sem falar com você

-Quando você voltou?

-Ontem, te mandei foto no insta, não viu?

-Vou ver

-Pois é, acho que não sei mais viver sem você, preciso de vc todos os dias

Digitam duas pessoas que não se vêem há sete anos

 

Teju Franco 06/01/2023