E veio uma solidão e comeu a primeira
E veio uma maior
E comeu a segunda
E outra
E outra
E outra veio e trancou a casa
Ninguém entra
Ninguém sai
Longe de todos
Perto de mim
Só os meus lobos
Em volta de mim
A noite chega
Nada no ar
Só a certeza
Que ninguém vai chegar
Como se esconder
De tantos espelhos
Como fugir de si mesmo assim
Sem ninguém ou nada para se distrair
Vejo aquele garoto que morreu aos nove anos
Junto com sua autoconfiança
Vejo aquele rapaz assustado vendo seu pai desaparecer junto
com um lar
Vejo a insanidade da juventude com suas escolhas
Vejo o adulto viciado na dança dos próprios erros
Vejo os amores que decepcionei
O senhor dos sonhos mais vulnerável que um bebe
Uma mãe morrendo no quarto ao lado
De tristeza e escuridão
Na parede encostada, a guitarra mágica, malfadada
Sola sua fuga sem som
Pensando bem
Não é tão diferente
A arte é uma espécie de isolamento
Ser artista é viver só
Não é esse o problema
O problema é estar em uma idade
Em que não existe mais o desejo de mentir para si mesmo
Nem musicar a banda dos homens sós
Se enganar contando para si mesmo aquele outro que você
sempre achou que deveria ser
E nunca foi, e não é
O problema é ver quem você é
Parece bom, mas dessa maneira, com as portas trancadas
“sem pódio de chegada ou beijo de namorada”
É um estado de choque e tanto
Um choque de realidade consigo mesmo quase letal
Socorro, grita um pensamento afônico
Entre a sala e o banheiro o mundo se parte ao meio
Ser adulto e não ser um caso crônico
O vírus da solidão é um velho conhecido
Já o vírus do espelho ...
Teju Franco 13/04/2020

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