Vinícius de
Moraes e o homem que envelheceu criança
Quanto mais eu
vivo, mais Vinicius eu fico, um dia explico isso. Vinicius foi um jovem velho,
se pegarmos a sua primeira safra poética ainda ligada à poesia católica
francesa, percebemos um jovem velho, repleto de culpas, desiludido do mundo,
cansado de tudo. Vinícius foi um homem que viveu de frente pra trás, ele nasceu
velho e foi se rejuvenescendo ao longo da vida; terminou a vida como um hippie
de cabelos compridos, aberto ao mundo e a tudo, um tirador de sarro, um garoto
brincalhão que amava a boemia, as mulheres, as paixões das quais nunca desistiu,
fosse o que fosse, a idade que tivesse, e principalmente marcou a história de um
espírito desprendido.
Você pode
perguntar – desprendido de quê? De tudo, absolutamente tudo, de dinheiro, da
idade que tinha, do compromisso com esse ou aquele estilo. Vinicius nasceu
preso ao conservadorismo católico e seu caminho foi um destino rumo à liberdade,
à experimentação em todos os níveis. Aposentou sua vida careta de diplomata
jogando aquele terno Armani a que era submetido em suas primeiras apresentações
e, como se diz, ‘caiu na esbórnia’, e viveu plenamente, como queria, a sua
maneira foi feliz dentro das possibilidades em que um homem complexo e
inteligente como ele poderia ser.
Pode-se escrever
um livro sobre a personalidade fascinante de Vinicius de Morais, mas o que
pretendo me ater nesse texto é essa regressão cronológica que foi sua vida,
como ele foi se libertando e rejuvenescendo ano após ano, cada vez mais infantil
no sentido profundo da palavra, era um adulto que trabalhava duro, pagava suas
contas, casava, descasava, fazia filhos, mas seu espírito era o de uma criança
que não se conformou com fato de que a vida não era uma aventura feita pra se
divertir.
Isso pode
parecer um papo furado, mas no caso deste personagem não é, é uma filosofia de
vida, buscada com coragem, renúncias, perdas e ganhos, alegria e sofrimento, que
ele cumpriu sem concessões de nenhuma maneira. Como bem disse Edu Lobo no
documentário de Miguel Faria Junior - Vinicius ajudou a criar a Bossa Nova, esta
conquistou o mundo como nenhum outro gênero da música brasileira, ele largou-a,
depois mergulhou de cabeça na africanidade que era raiz, mas sempre tratada de
ladinho como disse Maria Bethânia, desse mergulho criou os afro-sambas que abriu
portas para tantos outros artistas que vieram depois, a partir daí fez o que
quis, o que lhe dava na telha, na tonga da mironga do cabuletê: sambas
populares, samba rock, boleros, enfim: se encontrou no desencontro. Virou um
homem do seu tempo, deixou os cabelos crescerem, enveredou por temas sociais e
políticos, virou um homem de esquerda, mudou-se pra Bahia, casou na Umbanda,
casou-se com uma baiana, montou uma casa à beira mar repleta de bichos. Toquinho
disse que certa vez Vinicius lhe disse à janela olhando seus bichos no quintal,
era uma comunidade exótica, não me lembro ao certo, mas tinha um cachorro, um
pavão, um gato e sei lá mais quê, e Vinicius me sai com essa:
- Toco, tá vendo
esses bichos aí no quintal, eles desenvolveram um jeito de conviver. Sabe,
Toco, eu aprendi muito mais de diplomacia olhando esses bichos aí no quintal que
em todos os anos de Itamaraty. E acreditem, ele falou sério.
Vinícius nunca
desistiu da vida, nem da paixão, da necessidade que quase todos perdem ou
abandonam na maturidade de viverem apaixonados, coisa de adolescente? Talvez. Essa
paixão era feita da mesma coragem e desprendimento que norteou ou desnorteou sua
vida. Hoje as pessoas mais intensas que querem se apaixonar condicionam isso à
várias condições que nada tem a ver com o espírito rebelde e inconsequentemente
desprendido que move as paixões. A pessoa ao querer tudo fica sem nada de
verdade, não é assim? Eu quero alguém que me enlouqueça, que me entenda, que me
faça rir, gozar, sonhar, mas...Tem que ser alguém bem sucedido, vencedor, do
meu padrão ou classe social, outras coisas que nada tem a ver com a coisa de
olho e de pele (como dizia Leila Diniz), e de sintonia, comunicação, fascínio;
aí os moderninhos ficam esperando esse pacote completo, esse príncipe ou
princesa encantada que nunca aparece, e que quando aparece não fala a mesma
língua, não ri da mesma coisa, não é, porque a paixão não tem regras, tabelas,
bulas, extrato bancário.
A paixão de
Vinicius era movida pelas suas senhas secretas – o que uma mulher tem que as
outras não têm? (Nelson Rodrigues). Essa mulher de Vinicius podia ser tanto uma
aristocrata feminista como Tati, quanto uma baiana do candomblé como Gessy
Gesse. Paixão não tinha freio nem condições pra Vinícius, muito menos idade,
classe social, sucesso ou fracasso. Por isso se apaixonou várias vezes e viveu
essas paixões intensamente, uma a uma, uma de cada vez, plenamente, imensamente.
Coisa de jovem? Coisa da juventude? Coisa de criança? Talvez, adultos não vivem
assim, adultos querem segurança, estabilidade, conforto, dinheiro, coisas que
pra Vinícius não tinham o menor valor.
Para fechar essa
crônica, a coisa mais linda da alma desse poeta imenso conhecido como ‘poetinha’,
alcunha que ele adorava, pois também tinha o hábito de chamar a todos
acrescentando um diminutivo ao nome: Tonzinho, Toquinho, Narinha, Joãozinho, os
diminutivos pra ele eram uma forma de carinho e Vinícius era um homem do afeto
como bem observou Gilberto Gil, a poesia e a música dele trabalhavam no cerne,
no vértice, na intersecção em que se entrelaçam os afetos, fossem mulheres,
amigos, parceiros, era um agregador, um polo magnético em que todos circundavam
de alguma maneira. Lançou muita gente na música, gente que ninguém imagina,
Belchior, por exemplo, João Bosco, Francis Hime, Baden, Edu Lobo, Carlos Lyra e
tantos outros.
A prova de que
Vinicius morreu criança foi uma fala emocionada de Edu Lobo “Vinicius era uma pessoa
que ligava fora de hora pra gente, independente de trabalho, motivo, assunto a
tratar, ele ligava só pra saber como a gente estava – oi parceirinho, você está
bem?
Nessa época em
que vivemos a solidão em todas as suas perspectivas, em que as pessoas pouco se
encontram, vivem isoladas em suas telas com cinco mil amigos que mal conhecem,
tempo em que pra ligar pra um amigo é necessário agendar, como alguém poderia
ligar pra alguém, sem motivo, pra saber como está? Jamais! Tempo que mesmo percebendo
que algo não vai bem com alguém tratamos a pessoa protocolarmente com algumas
frases motivacionais no whatsapp, ou mesmo ignoramos, pensando
inconscientemente – se vira perdedor.
Quando você
tinha quinze anos e sua paquera te ignorava na festa, você ia pra casa acabado
e tinha ao menos meia dúzia de amigos pra te ajudarem nessa profunda crise existencial
rs, com quarenta, cinquenta, sessenta anos, você não tem ninguém, Vinicius
tinha, e seus amigos o tinham. Esse alguém deve ser coisa de criança? Talvez.
É, pode ser, mas
Vinicius ligava pra saber como alguém estava, e se não estivesse bem,
dispensaria toda sua atenção e sensibilidade, não se livraria da situação com
algumas frases rápidas, pois ele sabia que o motivo que precisamos na vida são
amigos, amores, paixões, boas gargalhadas e boas lágrimas, pois pra isso fomos
feitos como diz o mesmo em um de seus poemas. Coisa de criança? Talvez. Por
isso ele teve a vida plena e maravilhosa que teve, por isso ele é Vinicius de
Moraes, o homem a que o passar do tempo foi talhando uma criança, enquanto você
fica esperando seu príncipe, princesa, “princesis”, encantado, com conta cinco
estrelas, cobertura não sei onde, férias na Toscana, se achando velho pra isso
ou aquilo, à criança chamada Vinicius bastava apenas amor incondicional, afeto,
amizade, paixão. Feliz dia da criança, amigos, feliz Vinícius de Moraes a
todos.
Teju Franco
13/10/2024





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