terça-feira, 3 de novembro de 2020

Somos tão Jovens


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Eu não acompanhei os jovens da minha geração, eu passei um tempo vivendo há dez anos atrás dela, a década de 60, depois passei do Bob Dylan para a MPB, e passei a desprezar rock and roll. A minha geração cresceu nos ecos do punk rock que eu nunca ouvi nem tenho vontade, mas a minha geração no Brasil fez sua história doméstica incrível.
Que pena não ter embarcado nesse barco juvenil e repleto de energia, que pena! Talvez tivesse descolado um lugar ao sol nesse mundo difícil da música. Passei a década de 80 desprezando a minha geração, morei um tempo, com a minha namorada da época, essa super cantora que trouxe do Uruguai agora, na casa da mãe do Branco Mello dos Titãs; eles estavam lançando o "Cabeça Dinossauro".
Puta cara legal e generoso o Branco, aliás, todos eles, que vim a conhecer depois. Eu e a Márcia, músicos de boteco, como a maioria da minha geração de MPB, ainda esnobávamos o Branco com sua música de três acordes que marcou a história da minha geração com talento vigor e criatividade.
Ainda no final da década de 80, após a morte do meu pai e uma decaída socioeconômica brutal da família, chegou às minhas mãos o LP "Ideologia" do Cazuza, o efeito foi fulminante. Desempregado, deprimido, ex aluno de teatro da Myriam Muniz, sem coragem e atitude, trancado num apartamento barulhento ao lado da Vinte e Três de Maio, Cazuza entrou na minha veia produzindo a reação química da rebeldia nunca manifestada na minha juventude de banquinho e violão.
Enfim saiu o primeiro show autoral, o repertório ainda era um esboço do esboço do rascunho de ameaça de um compositor, mas continha umas duas canções que até hoje fazem parte do repertório, sem saber, também, aquelas canções fracas já continham a minha marca, uma linha confusa entre Bossa, MPB e rock and roll.
Pra meu espanto deu certo, eu ainda era jovem e levei a maior turma para uma casa chique de Sampa, o Espaço Raísa, lugar onde se apresentavam Arrigo, Itamar, Alzira. A casa lotou, 200 pessoas, a dona ficou com um sorriso aqui, e eu apesar da crueza, tinha a "craqueza" de palco de quem passou 4 anos com a Myriam Muniz (acho que era o que segurava a onda). Ali comecei a acreditar que podia ser compositor.
Anos se passaram e voltei aos bares para pagar aluguel, feijão, pasta de dente e outras coisas tão importantes na vida, incorporei ao meu repertório várias canções do rock da minha geração, menos Legião que não curtia, não tinha paciência para decorar aquelas letras longas, melancólicas com estruturas musicais irregulares.
Há dez anos Legião virou uma paixão, um vício, Renato um guia com sua melancolia guerreira e energética, e seu vozeirão grave e gutural, tudo a ver comigo, passei a cantar várias músicas e a sentir que falta uma pessoa como ele faz nesses tempos de rock tão reaça de direita.
Enfim me encontrei com a minha geração, antes tarde do que nunca, vendo o filme sobre Renato nesse domingo de manhã do dia 02/11/2020 me vi tentando ressuscitar o cara, rezando pra meu celular não ter morrido com a tela quebrada que contém um rascunho que não me lembrarei, se o telefone se for, que fiz pra um casal querido aqui de Santa Isabel que tem uma história ímpar de amor e me levou a fazer a minha "Eduardo e Mônica" versão Digo e Yara.
O tempo passou e eu não peguei o bonde da minha geração, mas não foi tempo perdido, me esgueirei sob esse teatro de vampiros dessa vida que mais parece uma festa estranha com gente esquisita, por enquanto, quase sem querer, sigo na luta ainda sem saber que país é esse, fazendo as pazes com a minha geração coca-cola que de coca-cola não teve nada, fosse Cazuza, Renato, Humberto, Arnaldo, Leoni, Cassia, não teríamos essa moçadinha tão careta e reaça que vemos nesses dias, teríamos outra legião: a urbana e não a miliciana.
Teju Franco 02/11/2020








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