terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Vamos, meu amor, viver de poesia?




Vamos, meu amor, viver de poesia?
O dono do mundo rasgou o dinheiro
Deus perdeu o emprego
Nada que se conhecia tem mais valia

Vamos, meu amor, que a noite está linda e tudo é de graça
As estrelas no céu, os bancos da praça, o vinho na tina
As ondas espumam sonhos prateados de lua
Por costas infindas...
Guitarras tocam apaixonadas por iluminadas ilhas...

Vamos, meu amor, viver de poesia
Que a noite é uma lira que o amor dedilha
E o tempo perdeu a hora, o trem
A chave do cofre das notas
Vamos dançando, bailando...
Existe uma festa, uma fresta entre as palavras mágicas
Uma orquestra de neon e baile em que tudo se valsa

Vamos, meu bem, viver de poesia?
Encher a barriga da alma de luz e dançar ao meio-dia
Vamos sambar lá no alto, acima do medo,
Da cólera do mundo
E triscar a noite como um astro reluzente

Um cantar vagabundo
Uma menina contente

O mundo é uma farsa
Nada é real além da palavra que a tudo nomeia
Só a poesia é concreta

Vamos, meu amor, viver de poesia
A vida tem esperança e ela dança criança de conto e magia
Por calçadas e jogos de amarelinha
Vamos namorar, brincar, bailar, beber, comer, transar
O mundo é assim mesmo: um belo poema
E quem fez de outro jeito foi um deus com defeito
Foi um homem sem jeito que não sabia amar, nem viver

Vamos, meu amor, viver de poesia?
A partir de hoje, ninguém mais morrerá
Seremos eternos em nossa própria grandeza
Que se traveste em palavras
Uma palavra pode qualquer coisa
Nossa arte de sonhar além foi quem disse a que vem
E nos trouxe até aqui.
Nossa arte de sonhar além...
Vamos, meu amor, viver de poesia
Que coisa melhor não tem!            

Teju Franco 09/07/2011