O Sonho
Faz trinta e sete anos que não a
vejo, éramos muito meninos então. Foi uma loucura dessas que parecem vir de
outras vidas, um se apaixonar de costas e esperar o rosto se virar para
confirmar. Como dizia Nelson Rodrigues ‘o que uma mulher tem que as outras não
têm?’. Falta de ar, falta de chão, falta que pletora, medo que empurra, certeza
incognoscível. Foi uma confusão, uma revolução, um parar o mundo para
despedaçar outro, tudo o que eu tinha, e recomeçar. Não sei como, mas eu sabia,
sabia que teria que terminar um namoro de sete anos que veio desde a
adolescência, sabia que ia quebrar o coração de alguém, sabia que eu faria
isso, que eu faria o que fosse preciso, que faria tudo, e sabia tudo em trinta
segundos, até ela se virar sobre o corpo e me encontrar, olhos nos olhos. Suar
frio com o coração pulsando quente. Ela sorriu com um cigarro na mão, e falou (meu
Deus!, ela fala), com a irmã fumando ao lado, ela falou:
- Tem fogo?
- Tenho
Começou um caminho tortuoso entre
as mesas em minha direção, eu podia sentir a terra tremendo sob meus pés, olhei
para fora do bar e a cidade se desmanchava, virava contornos impressionistas,
incompreensíveis. Eu pensava – e agora? Depois de um conto de Shakespeare, a
juventude e a imaturidade fizeram tudo se partir em pedaços, insanamente, como
diz a música do Skank “um dia ela já vai, achar alguém pra vida inteira, como
você não quis fazer”. “Ganhei, perdi meu dia”. Perdi meu grande amor, joguei
fora, inadvertidamente, com a estupidez e a volúpia da juventude. Perdi pra
sempre, adeus Jujuba, ela se foi, cheia de ressentimentos com razões infinitas.
Quem joga fora um amor assim?
O amor eterno transmutou-se em ódio
eterno, e assim a vida correu, anos, décadas se passaram, nunca mais vi, nunca
mais soube, nunca, nunca, nunca e mais nunca.
Ontem ela voltou, da terra do
nunca, voltou em um sonho, meus sonhos sempre tão caóticos e infernais, em que
sempre perco alguma coisa, dessa vez me fizeram achar, pararam de me
enlouquecer pra ela voltar. E ela voltou, assim do nada, sem mágoa, sem
passado, sem ressentimento, voltou como quando chegou a primeira vez. E a gente
andava, distraídos, como no conto de Clarice, pela cidade, e ríamos muito, e
ríamos de admiração, havia um gosto nos olhos, passávamos por transeuntes sem
rostos, e ruas sem nomes, e lugares sem endereços, sem geografia, dobrando a
Paulista, encontrando Ipanema, sem nem um resquício de medo ou dúvida, sem nada
que atrapalhasse aquele dia, não mais que um dia, infinito, eterno, mas nada
disso importava, apenar estar ali, sem fim, sem começo, sem resto..
Que delícia!, e tudo era tão real,
tinha cheiro, tinha tato, tinha um caminhão amarelo de alegrias sem motivos, uma
multidão de sorvetes de morango. Não sabíamos pra onde caminhávamos, nem que
horas eram, nem onde estávamos, não tinha tempo, nem pressa, nem culpa, nem
nada. Nada importava além de estar ali, andando pra lugar nenhum, estar ali,
juntos de novo. Era como pisar a eternidade que existe em cada momento, mas
dessa vez sabendo dela, plenamente consciente, sim, consciente de que tínhamos
tudo o que precisávamos. Um mundo sem comida, sem fome, sem dinheiro, sem
tempo, sem lugar, sem destino, sem cansaço, sem matéria. Éramos nós ali,
antimatéria, nós nos corpos de sonho, éramos só isso, um sonho, o sonho que
nunca deveríamos ter deixado de ser, finalmente encontramo-nos, e nós éramos o nosso
próprio lugar. E basta.
Só lembro da alegria que corria
como criança, a felicidade existe e tem nome – Júnia.
Depois acordei, mas não me frustrei,
acordei assim leve, bêbado de felicidade. Eu sabia o tempo todo que era um
sonho, eu que pensei que nunca mais a veria, te vi, e dessa vez não perdi. E
basta. Depois de tudo, basta: um sonho, não mais que um sonho. Que sonho! Nos perdemos aqui, não ali, nesse
lugar sem tempo, nem endereço, nem destino, nem nada, naquela praça na terra do
nunca, ali, logo ali, no cinema Paradiso interestelar, ali onde ninguém se
perde, esse lugar feito de desejo e éter: o sonho.
Teju 05/07/2024
