quarta-feira, 25 de junho de 2025

Ney e sua incrível metamorfose

 Ney e sua incrível metamorfose


Achei o filme do Ney Matogrosso incrível, tudo é bem filmado, dirigido e montado, os atores estão incríveis, mas o que me pegou mesmo é a metamorfose de onde ele tirou a sua arte e seu artista: uma aula em todos os aspectos daquilo que é necessário para criar, acreditar, fazer vir à tona, brilhar, e buscar a própria verdade, o melhor de si.
Como muita coisa em minha vida veio na hora certa, em um momento de crise com a profissão, momentos limiares. Passei por isso algumas vezes, aliás, meu primeiro show de compositor em São Paulo ao final da década de oitenta veio também em situações limiares. Nesse sentido, a vida de Ney é uma ode ao processo de criação, de onde tiramos nossa marca, nossa arte, nossa digital.
Convivi durante quatro anos, no grupo de teatro da Funarte em São Paulo, com a atriz e diretora Myrian Muniz, uma das lendas da nossa dramaturgia, e também muito ligada à música. Myriam me salvou, me destravou, me abriu, me tirou da rigidez em que via e colocava o que entendia por arte. E ela era fhoda, não era para os fracos, seu estilo agressivo, meio terapia de choque, era também uma espécie de psicanalise a cada um que sobrevivesse ao punk rock que era sua pedagogia, mas para quem queria era uma oportunidade e tanto.


Convivi com a diretora e a professora, e testemunhei a atriz em sua volta aos palcos, quando Gianfrancesco Guarnieri a resgatou após dez anos sabáticos em que ela se afastou dos palcos, do cinema e da TV, ele escreveu uma peça sobre essa espécie de exílio a que ela se impôs e ela teve que voltar, e na estreia, quando entrei em seu camarim levando flores, eu vi aquela monstra tão frágil como a gente nas estreias de teatro amador em que ela nos dirigia:
- nossa!, Myriam, você está diferente

- claro, querido, estou com o cu na mão como todo mundo

Vi aquela mulher nos destruir por um ano para tirar a fera de dentro da gente, era choro, desânimo, vontade de enforcar aquela pessoa, prazer, gozo, vaidade, tudo junto e misturado.


Fiz a relação com o processo do Ney instantaneamente vendo o filme. Lembrei das histórias que o Marcelo, seu assistente me contou de quando a Elis a procurou, Elis destruída, travada, a primeira faze da Elis de cabelo curto, quando o marido, que acabara de abandoná-la, a tinha domesticado em cantora de bossa nova. Uma versão cool da Elis, cantando baixinho, voz presa, corpo preso, sentada no banquinho, nada contra nada disso, para Nara, por exemplo, mas Elis não era isso, não era assim. Eis que alguém a mandou procurar a Myriam, ela queria montar um show diferente, queria se soltar

.
- Myriam, eu tô travada, não me encontro, não me solto, não me reconheço, me salva, estou disposta a tudo
- Nega, você tem uma personalidade do cão, eu também, nós vamos nos matar, nega, isso não vai dar boa coisa
- Myriam, eu tô no chão, eu não voo mais, eu quero voar
- Eu sou louca por você nega, e não quero ganhar uma inimiga, você não vai querer receber ordens de uma velha louca te pedindo para fazer coisas absurdas
- eu vou te obedecer Myriam, eu juro


Assim começou o show que viria a ser, o maior show de todos os tempos da história do show business brasileiro, o aclamado “Falso Brilhante”; E já começou na base do – você está no chão? Então você vai ensaiar esse show no chão até me odiar tanto que vai querer ficar de pé pra me dar um soco na cara. Elis ficou uma semana cantando se arrastando pelo chão. Myriam fez o que fazia com a gente, foi buscar o hino da escola primária da Elis, foi buscar a ira do rock and roll em “Como nossos pais”, foi levantar aquela giganta destemperada e poderosa chamada Elis Regina.


Foi algo assim que reconheci na metamorfose que resultou em Ney Matogrosso, e que ele operou sozinho, instintivamente. Que mágica a cena quando do nada no camarim ele começa a pintar seu rosto, fazer aquele figurino louco meio bicho, meio gente. A vida de Ney foi regida em ordem militar pelo seu pai, sargento da aeronáutica, um homem rígido cobrando uma masculinidade exacerbada de um garoto que não a tinha. Não era ser fácil ser homossexual naquela época, não é atualmente, naquela época era um massacre, um sofrimento que se expunha ao bullying, ou se escondia a sete chaves, levando a conflitos, amores reprimidos, culpas; e foi daí que Ney tirou seu bicho, seu pássaro homem-mulher, seu enigma. Eu não posso ser o que sou, amar quem eu quiser, então entrego algo que ninguém saberá dizer o que é. Eu me lembro bem da confusão mental que o surgimento dos Secos e Molhados e do Ney causaram no país, em plena fase chumbo da ditadura militar e sua masculinidade tóxica, violenta. Eu era criança, as crianças amavam os Secos e Molhados por conta do “Vira” e creio que também pelos figurinos exóticos, mesmo com aqueles poemas eruditos da literatura.


E a metamorfose assim e ali se deu, com aquela máscara de maquiagem, aquelas plumas e penas de aves, aquele tapa sexo desbundando e desnudando a caretice vigente. Que pessoa corajosa!, que homem inquebrável em sua vontade, personalidade e opinião, Ney venceu a ditadura, a TV, os Secos e Molhados. Alguns críticos bobocas, em minha nunca humilde opinião escreveram que o filme transforma ou reduz a arte de Ney em uma espécie de voyerismo da sua vida íntima, que bobagem! Queriam o quê? Um filme sessão da tarde? Como se a luta pela sexualidade pudesse ser dissociada de sua arte, esta sexualidade de onde tira toda sua vitalidade, originalidade e verdade, tudo justamente do sexo, da busca dessa sexualidade. Quem viu assim, ou escreveu assim, como disse Caetano – não entendeu nada. Ney, na busca de sua arte, precisou se metamorfosear, virou bicho, virou ave, depois virou gente de novo, driblou todas as disciplinas moldes, lugares, esquadros, depois vieram os identitaristas querendo enquadrá-lo, qual o quê!, Ney não gosta, nem admite ser definido por outros, ele escreveu seu caminho com um profundo senso de liberdade e personalidade, venceu a todos, não tentem por essa ave humana em uma espécie da gaiola rotulada, estão perdendo seu tempo. Ney é dono das suas escolhas, da sua vida, muito bem sucedida por sinal. É fácil falar, difícil é fazer o que esse cara fez e continua fazendo. Filmaço!! E você, artista em percurso, aprenda, não escute muito a opinião dos outros, as críticas, os empresários e produtores, Beatles, Simon, Gaga e tantos outros seguiram seus instintos, se for necessário desagrade, contrarie parentes e amigos, pinte sua cara, mas siga seu instinto, não há outro caminho. Alguém não gostar faz parte do jogo do ofício, toda unanimidade é uma merda bem embalada, incomode, desagrade também. Viva Ney!
Teju Franco 25/06/2025
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sábado, 12 de outubro de 2024

Vinícius de Moraes e o homem que envelheceu criança





Vinícius de Moraes e o homem que envelheceu criança

 

Quanto mais eu vivo, mais Vinicius eu fico, um dia explico isso. Vinicius foi um jovem velho, se pegarmos a sua primeira safra poética ainda ligada à poesia católica francesa, percebemos um jovem velho, repleto de culpas, desiludido do mundo, cansado de tudo. Vinícius foi um homem que viveu de frente pra trás, ele nasceu velho e foi se rejuvenescendo ao longo da vida; terminou a vida como um hippie de cabelos compridos, aberto ao mundo e a tudo, um tirador de sarro, um garoto brincalhão que amava a boemia, as mulheres, as paixões das quais nunca desistiu, fosse o que fosse, a idade que tivesse, e principalmente marcou a história de um espírito desprendido.

 

Você pode perguntar – desprendido de quê? De tudo, absolutamente tudo, de dinheiro, da idade que tinha, do compromisso com esse ou aquele estilo. Vinicius nasceu preso ao conservadorismo católico e seu caminho foi um destino rumo à liberdade, à experimentação em todos os níveis. Aposentou sua vida careta de diplomata jogando aquele terno Armani a que era submetido em suas primeiras apresentações e, como se diz, ‘caiu na esbórnia’, e viveu plenamente, como queria, a sua maneira foi feliz dentro das possibilidades em que um homem complexo e inteligente como ele poderia ser.

 

Pode-se escrever um livro sobre a personalidade fascinante de Vinicius de Morais, mas o que pretendo me ater nesse texto é essa regressão cronológica que foi sua vida, como ele foi se libertando e rejuvenescendo ano após ano, cada vez mais infantil no sentido profundo da palavra, era um adulto que trabalhava duro, pagava suas contas, casava, descasava, fazia filhos, mas seu espírito era o de uma criança que não se conformou com fato de que a vida não era uma aventura feita pra se divertir.

 

Isso pode parecer um papo furado, mas no caso deste personagem não é, é uma filosofia de vida, buscada com coragem, renúncias, perdas e ganhos, alegria e sofrimento, que ele cumpriu sem concessões de nenhuma maneira. Como bem disse Edu Lobo no documentário de Miguel Faria Junior - Vinicius ajudou a criar a Bossa Nova, esta conquistou o mundo como nenhum outro gênero da música brasileira, ele largou-a, depois mergulhou de cabeça na africanidade que era raiz, mas sempre tratada de ladinho como disse Maria Bethânia, desse mergulho criou os afro-sambas que abriu portas para tantos outros artistas que vieram depois, a partir daí fez o que quis, o que lhe dava na telha, na tonga da mironga do cabuletê: sambas populares, samba rock, boleros, enfim: se encontrou no desencontro. Virou um homem do seu tempo, deixou os cabelos crescerem, enveredou por temas sociais e políticos, virou um homem de esquerda, mudou-se pra Bahia, casou na Umbanda, casou-se com uma baiana, montou uma casa à beira mar repleta de bichos. Toquinho disse que certa vez Vinicius lhe disse à janela olhando seus bichos no quintal, era uma comunidade exótica, não me lembro ao certo, mas tinha um cachorro, um pavão, um gato e sei lá mais quê, e Vinicius me sai com essa:

- Toco, tá vendo esses bichos aí no quintal, eles desenvolveram um jeito de conviver. Sabe, Toco, eu aprendi muito mais de diplomacia olhando esses bichos aí no quintal que em todos os anos de Itamaraty. E acreditem, ele falou sério.

 

Vinícius nunca desistiu da vida, nem da paixão, da necessidade que quase todos perdem ou abandonam na maturidade de viverem apaixonados, coisa de adolescente? Talvez. Essa paixão era feita da mesma coragem e desprendimento que norteou ou desnorteou sua vida. Hoje as pessoas mais intensas que querem se apaixonar condicionam isso à várias condições que nada tem a ver com o espírito rebelde e inconsequentemente desprendido que move as paixões. A pessoa ao querer tudo fica sem nada de verdade, não é assim? Eu quero alguém que me enlouqueça, que me entenda, que me faça rir, gozar, sonhar, mas...Tem que ser alguém bem sucedido, vencedor, do meu padrão ou classe social, outras coisas que nada tem a ver com a coisa de olho e de pele (como dizia Leila Diniz), e de sintonia, comunicação, fascínio; aí os moderninhos ficam esperando esse pacote completo, esse príncipe ou princesa encantada que nunca aparece, e que quando aparece não fala a mesma língua, não ri da mesma coisa, não é, porque a paixão não tem regras, tabelas, bulas, extrato bancário.

 

A paixão de Vinicius era movida pelas suas senhas secretas – o que uma mulher tem que as outras não têm? (Nelson Rodrigues). Essa mulher de Vinicius podia ser tanto uma aristocrata feminista como Tati, quanto uma baiana do candomblé como Gessy Gesse. Paixão não tinha freio nem condições pra Vinícius, muito menos idade, classe social, sucesso ou fracasso. Por isso se apaixonou várias vezes e viveu essas paixões intensamente, uma a uma, uma de cada vez, plenamente, imensamente. Coisa de jovem? Coisa da juventude? Coisa de criança? Talvez, adultos não vivem assim, adultos querem segurança, estabilidade, conforto, dinheiro, coisas que pra Vinícius não tinham o menor valor.

 

Para fechar essa crônica, a coisa mais linda da alma desse poeta imenso conhecido como ‘poetinha’, alcunha que ele adorava, pois também tinha o hábito de chamar a todos acrescentando um diminutivo ao nome: Tonzinho, Toquinho, Narinha, Joãozinho, os diminutivos pra ele eram uma forma de carinho e Vinícius era um homem do afeto como bem observou Gilberto Gil, a poesia e a música dele trabalhavam no cerne, no vértice, na intersecção em que se entrelaçam os afetos, fossem mulheres, amigos, parceiros, era um agregador, um polo magnético em que todos circundavam de alguma maneira. Lançou muita gente na música, gente que ninguém imagina, Belchior, por exemplo, João Bosco, Francis Hime, Baden, Edu Lobo, Carlos Lyra e tantos outros.

 

A prova de que Vinicius morreu criança foi uma fala emocionada de Edu Lobo “Vinicius era uma pessoa que ligava fora de hora pra gente, independente de trabalho, motivo, assunto a tratar, ele ligava só pra saber como a gente estava – oi parceirinho, você está bem?

 

Nessa época em que vivemos a solidão em todas as suas perspectivas, em que as pessoas pouco se encontram, vivem isoladas em suas telas com cinco mil amigos que mal conhecem, tempo em que pra ligar pra um amigo é necessário agendar, como alguém poderia ligar pra alguém, sem motivo, pra saber como está? Jamais! Tempo que mesmo percebendo que algo não vai bem com alguém tratamos a pessoa protocolarmente com algumas frases motivacionais no whatsapp, ou mesmo ignoramos, pensando inconscientemente – se vira perdedor.

 

Quando você tinha quinze anos e sua paquera te ignorava na festa, você ia pra casa acabado e tinha ao menos meia dúzia de amigos pra te ajudarem nessa profunda crise existencial rs, com quarenta, cinquenta, sessenta anos, você não tem ninguém, Vinicius tinha, e seus amigos o tinham. Esse alguém deve ser coisa de criança? Talvez.

 

É, pode ser, mas Vinicius ligava pra saber como alguém estava, e se não estivesse bem, dispensaria toda sua atenção e sensibilidade, não se livraria da situação com algumas frases rápidas, pois ele sabia que o motivo que precisamos na vida são amigos, amores, paixões, boas gargalhadas e boas lágrimas, pois pra isso fomos feitos como diz o mesmo em um de seus poemas. Coisa de criança? Talvez. Por isso ele teve a vida plena e maravilhosa que teve, por isso ele é Vinicius de Moraes, o homem a que o passar do tempo foi talhando uma criança, enquanto você fica esperando seu príncipe, princesa, “princesis”, encantado, com conta cinco estrelas, cobertura não sei onde, férias na Toscana, se achando velho pra isso ou aquilo, à criança chamada Vinicius bastava apenas amor incondicional, afeto, amizade, paixão. Feliz dia da criança, amigos, feliz Vinícius de Moraes a todos.

Teju Franco 13/10/2024


domingo, 4 de agosto de 2024

O lugar dos sem lugar



O lugar dos sem lugar


Eu vivo de inventar alegria
Senão eu morria
Em poucos dias
Nasci em desacordo com o rei
Desgarrei
Sai pela porta dos fundos
No meio do caminho tinha um moinho
E um mundo inteiro
Moribundo

 
Que vida!, essa minha vida
Malabarista de palavras
Inventor de ritmos
Perdi o trem entre um verso e outro
Me refugiei no abandono
Da noite
Me fiz filho
O lugar dos sem lugar
O destino dos descarrilhos

 
Eu vivo de desinventar melancolia
Canto Hey Jude pra mim todo dia
Não sei se palhaço, mágico, repentista
Cômico da praça da alegria
Super-herói mal remunerado
Viver é tocar o barco
O show não pode parar
Fato


Enfrentar o sadismo do tempo
Ver o corpo piorar enquanto seu espírito melhora
Perdi a hora
Mas não lembro em que hora foi
O mosquito engoliu um boi
A banda começou a tocar
Eu entrei correndo atrasado no palco
Meio que extasiado e aterrorizado
Descobri que ali era o meu lugar
Justo ali
O lugar dos sem lugar
Lugar sem porta, parede, só luzes e cortinas
Atrás de cortinas
“Infinitas cortinas”

 
Não tem jeito
Não tive nem teria escolha
Dispenso o mágico, o palhaço
Pago hora extra para o super-herói
Entre estarrecido e cansado
Deslizo
Como Cecília 
“canto porque o instante existe”

O disco Vida do Chico me rodopia
“Arranca vida, estufa vela
E leva, leva, longe, longe, longe, leva mais"


Teju Franco 04/08/2024

 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

O sonho



O Sonho

 

Faz trinta e sete anos que não a vejo, éramos muito meninos então. Foi uma loucura dessas que parecem vir de outras vidas, um se apaixonar de costas e esperar o rosto se virar para confirmar. Como dizia Nelson Rodrigues ‘o que uma mulher tem que as outras não têm?’. Falta de ar, falta de chão, falta que pletora, medo que empurra, certeza incognoscível. Foi uma confusão, uma revolução, um parar o mundo para despedaçar outro, tudo o que eu tinha, e recomeçar. Não sei como, mas eu sabia, sabia que teria que terminar um namoro de sete anos que veio desde a adolescência, sabia que ia quebrar o coração de alguém, sabia que eu faria isso, que eu faria o que fosse preciso, que faria tudo, e sabia tudo em trinta segundos, até ela se virar sobre o corpo e me encontrar, olhos nos olhos. Suar frio com o coração pulsando quente. Ela sorriu com um cigarro na mão, e falou (meu Deus!, ela fala), com a irmã fumando ao lado, ela falou:

- Tem fogo?

- Tenho

Começou um caminho tortuoso entre as mesas em minha direção, eu podia sentir a terra tremendo sob meus pés, olhei para fora do bar e a cidade se desmanchava, virava contornos impressionistas, incompreensíveis. Eu pensava – e agora? Depois de um conto de Shakespeare, a juventude e a imaturidade fizeram tudo se partir em pedaços, insanamente, como diz a música do Skank “um dia ela já vai, achar alguém pra vida inteira, como você não quis fazer”. “Ganhei, perdi meu dia”. Perdi meu grande amor, joguei fora, inadvertidamente, com a estupidez e a volúpia da juventude. Perdi pra sempre, adeus Jujuba, ela se foi, cheia de ressentimentos com razões infinitas. Quem joga fora um amor assim?

O amor eterno transmutou-se em ódio eterno, e assim a vida correu, anos, décadas se passaram, nunca mais vi, nunca mais soube, nunca, nunca, nunca e mais nunca.

Ontem ela voltou, da terra do nunca, voltou em um sonho, meus sonhos sempre tão caóticos e infernais, em que sempre perco alguma coisa, dessa vez me fizeram achar, pararam de me enlouquecer pra ela voltar. E ela voltou, assim do nada, sem mágoa, sem passado, sem ressentimento, voltou como quando chegou a primeira vez. E a gente andava, distraídos, como no conto de Clarice, pela cidade, e ríamos muito, e ríamos de admiração, havia um gosto nos olhos, passávamos por transeuntes sem rostos, e ruas sem nomes, e lugares sem endereços, sem geografia, dobrando a Paulista, encontrando Ipanema, sem nem um resquício de medo ou dúvida, sem nada que atrapalhasse aquele dia, não mais que um dia, infinito, eterno, mas nada disso importava, apenar estar ali, sem fim, sem começo, sem resto..

Que delícia!, e tudo era tão real, tinha cheiro, tinha tato, tinha um caminhão amarelo de alegrias sem motivos, uma multidão de sorvetes de morango. Não sabíamos pra onde caminhávamos, nem que horas eram, nem onde estávamos, não tinha tempo, nem pressa, nem culpa, nem nada. Nada importava além de estar ali, andando pra lugar nenhum, estar ali, juntos de novo. Era como pisar a eternidade que existe em cada momento, mas dessa vez sabendo dela, plenamente consciente, sim, consciente de que tínhamos tudo o que precisávamos. Um mundo sem comida, sem fome, sem dinheiro, sem tempo, sem lugar, sem destino, sem cansaço, sem matéria. Éramos nós ali, antimatéria, nós nos corpos de sonho, éramos só isso, um sonho, o sonho que nunca deveríamos ter deixado de ser, finalmente encontramo-nos, e nós éramos o nosso próprio lugar. E basta.

Só lembro da alegria que corria como criança, a felicidade existe e tem nome – Júnia.

Depois acordei, mas não me frustrei, acordei assim leve, bêbado de felicidade. Eu sabia o tempo todo que era um sonho, eu que pensei que nunca mais a veria, te vi, e dessa vez não perdi. E basta. Depois de tudo, basta: um sonho, não mais que um sonho. Que sonho! Nos perdemos aqui, não ali, nesse lugar sem tempo, nem endereço, nem destino, nem nada, naquela praça na terra do nunca, ali, logo ali, no cinema Paradiso interestelar, ali onde ninguém se perde, esse lugar feito de desejo e éter: o sonho.

 

Teju 05/07/2024










 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Hora Estranha



Hora Estranha


A hora estranha
O tempo tem olhos
Mas eu leio todos os sinais
Tenho desapegado de tudo que me detia, ou que não tinha pra onde ir
O passado ficou como um filme mal feito de que não faço mais parte
Meu cinema é de um realismo assustador
Tenho virado o manche na latitude precisa
Talvez por isso estranha
A felicidade de não se reconhecer mais

 

Medidas extremas tomadas com calma e profunda lucidez
E lá vai o motociclista
Mergulho intenso e disciplinado
Derrotas são parte do jogo
Vitórias também
A vida como ela é
E eu já não sou quem fui
Troquei de nome, de roupa, cabelo, senha, RG
E o mais importante: digitais
Já não toco o piano com os mesmos dedos
Ainda sou construtor de castelos
Mas aprendi a soprá-los
Toda decisão é um ato de solidão
Não são os outros, as circunstâncias
As derrotas, vitórias, problemas
Não é um jogo de azar
É sempre você e o momento
Esse que quando você pensa
Por um segundo é futuro
Mais segundo é presente
Mais um é passado
A vida são três segundos de dízimas periódicas
Compostas a cada passo
Eis que aceitei tanto seu jogo
Que passei a amá-lo só por si
Sem depender dos resultados
A plateia do teatro que preciso está dentro de mim, pagou caro por isso
Quebrei a banca dos desesperados
Nada espero de mim além de uma boa e corajosa atitude
Estranha porta essa em que o tempo não importa mais
E me basta portar-me bem
E quando nem de felicidade precisava mais
A libélula translúcida dela pousou nos meus olhos
Hora estranha essa de três segundos

 

Teju Franco 15/05/2024


 

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Deixa o Barco






Deixa o barco

Sei lá

“É a funcionária e o bailarino”

O horário não combina

Quando ela tchum na cama, eu empino (rs brincadeira coma música do Chico)

Mas é um jeito de falar entre a senhora e a menina

Que me fascina

E essa calma irritante, desconcertante

De escutar, pensar, se colocar

Seus passeios pela biblioteca encantada

Sua escrita refinada de vida

Há que se entender a nobreza

Na qualidade positiva de caráter espiritual, moral, intelectual

Duas vidas absolutamente diferentes que se observam pacientes

Mas será possível?

Minha alma que sempre amou o impossível se excita

Minha idade de boêmio poeta hesita

Mas a sabedoria do que é bom não se limita, ninguém corajoso limita

Vai a prosa que conduz ao novo dia

Faça-se como o velho marinheiro observando a maresia

Deixa o barco

Deixa o barco

Seja o que for, ruim não será...

O que pode haver melhor que isso?

- Amor?

Mas esse, só o próprio saberá

Não adianta, nem eu, nem você, nem ninguém pensar

O amor não pergunta a que veio, a quem veio

Muito menos a gente que com qualquer resquício de certeza se rende.

Deixa o barco

O mar é sábio

Amar é confundir o mar



Teju Franco 01/02/2024



segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Maturidade



Maturidade


Ela fala
Eu falo
Há um tempo entre hiatos
Uma sabedoria
A vida não nasceu ontem
A vez não vai morrer amanhã

Não é preciso matar amanhã o maluco que morreu ontem
Há uma consciência do fluxo da vida
Já se sabe que as coisas são ou não são por mistérios incompreensíveis
O que tem de ser...será
O que não tem ...

Quando muito, patinar sem sair do lugar

Não temos todo o tempo do mundo
Mas não temos pressa nessa conversa
E há conversa abeça
Como se fôssemos garotos há décadas atrás
em uma tarde à toa, depois da sessão da tarde
A tagarelar num telefone de disquinho
Sobre o novo disco da Rita Lee
Sobre a festa de sábado à noite
Sobre àquela noite em Paraty

Saber o outro, com tanta vida
Sem pressa, é uma sabedoria
Qual o nome disso?
Os nomes já não são tão importantes nessa fase da vida
Temos pouco tempo
Mas vivemos como se tivéssemos todo tempo do mundo
Não somos tão jovens
Depois de ver tanta coisa, tantas vezes

Mas... por que não?
Quando a vez é, aparentemente, preciosa vez
O amor na maturidade é uma arte rebuscada
Um vinho raro
Há que se degustar sem pressa

Ninguém quer se enganar
Só se quer amar mesmo

Teju 30/01/2024