quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Paixão Tóxica



Ah alegria!
A felicidade da vida que não me possuía,
nem eu a ela;
passamos a vida nos enganando na passarela,
com esse meu jeito de palhaço manco,
chefe de bateria, incendiário de outrem, engolidor de fogo,
enganador do mundo.

Ah alegria!
A ria do oceano ausente que não me afogava, só erodia,
dia a dia em meu baile de carnaval fora de fuso.
O velho espelho do camarim,
o velho menino confuso,
pierrot de espalhar risos e esconder lágrimas,
passamos a vida de tango em tango assim
atrás do enredo do samba vindouro qual
eterno escambo
pra nada.

Ah alegria!
“Ah sorrir eu pretendo levar a vida” (Cartola)
Tirando coisas que eu não vejo da cartola.

Ah! alegria
lá no morro de areia,
um dia chega, um dia venta,
desinventa, espalha tudo,
outros tenta,
e tenta e tenta e tenta.

Ah! alegria!
É só álcool, ópio, erva, magia?
Um truque de enganar a vida,
um porre pra curar no outro dia?
Samba, morro, areia, tudo besteira;
manufaturemos assim essa cena,
essa cera mesmo que nunca forjemos o mel,
e voaremos assim pelo céu
de mentira e abnegação,
de tempestade e ilusão,
com nossos ferrões aflitos,
às vezes sim, às vezes não.

Ah! alegria, és matéria da vida,
Constas em algum calendário,
oráculo,
Tabela periódica?
És prenda de outro tipo de ser,
água de Marte,
ou apenas paixão tóxica?

VAMOS VIVER DE POESIA



Vamos, meu amor, viver de poesia?
O dono do mundo rasgou o dinheiro,
Deus perdeu o emprego,
nada que se conhecia tem mais valia.

Vamos, meu amor, que a noite está linda e tudo é de graça:
as estrelas no céu, os bancos da praça, o vinho na tina.
As ondas espumam sonhos prateados de lua
por costas infindas...
Guitarras tocam apaixonadas por iluminadas ilhas...

Vamos, meu amor, viver de poesia;
que a noite é uma lira que o amor dedilha
e o tempo perdeu a hora, o trem,
a chave do cofre das notas.
Vamos dançando... bailando...
Existe uma festa, uma fresta entre as palavras mágicas...
Uma orquestra de neon e baile em que tudo se valsa.

Vamos, meu bem, viver de poesia?
Encher a barriga da alma de luz e dançar ao meio-dia.
Vamos sambar lá no alto, acima do medo,
da cólera do mundo,
e triscar a noite como um astro reluzente,
um cantar vagabundo,
uma menina contente...

O mundo é uma farsa,
nada é real além da palavra que a tudo nomeia,
só a poesia é concreta.

Vamos, meu amor, viver de poesia.
A vida tem esperança e ela dança criança de conto e magia
por calçadas e jogos de amarelinha.
Vamos namorar, brincar, bailar, beber, comer, transar...
O mundo é assim mesmo: um belo poema.
E quem fez de outro jeito foi um deus com defeito,
foi um homem sem jeito que não sabia amar, nem viver.

Vamos, meu amor, viver de poesia?
A partir de hoje, ninguém mais morrerá.
Seremos eternos em nossa própria grandeza
que se traveste em palavras...
Uma palavra pode qualquer coisa.
Nossa arte de sonhar além foi quem disse a que vem
e nos trouxe até aqui.
Nossa arte de sonhar além...
Vamos, meu amor, viver de poesia.
Que coisa melhor não tem!




quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A gente não pode fazer música como em 1973





Um amigo comentou que a gente não pode mais fazer música como se estivesse em 1973, realmente, eu concordo com ele, infelizmente. Em 1973 uma boa canção podia te projetar no cenário da música popular, uma música na novela mudava sua vida e a vida das pessoas, as pessoas passavam a saber quem você era, você teria público, shows, visibilidade, você podia comprar uma casa, às vezes podia resolver a sua vida, durante muito tempo, eternamente sua canção seria lembrada e regravada, as canções eram emoções que não se esqueciam, é como ouvir Beatles, até hoje é um exercício da mesma emoção, eram o tempo das canções e dos compositores.

Hoje é o tempo do fim da canção, dos mantras repetitivos, da música falada, e dos não compositores, cantoras que compõe qualquer coisa para não pagar direito autoral, músicos de estúdio a compor fórmulas, e essa renca de piratas passageiros de mau gosto com as palavras e as notas. Vais fazer um disco, é cantora?, rabisque alguma coisa, a gente produz.


Em 1973 as parcerias eram celebrações de grandes amizades de copo e alma, hoje são coisas heroicas que escapam à guerra de egos de artistas anônimos e sequelados por tanta indiferença e falta de estrutura, e é tanta canção boa que passa batido nessa fábrica de pilantras que virou o mercado fonográfico, essa coisa que nada tem a ver com música, um caça níquel de quinta categoria de porcarias que fazem grana e somem seis meses depois.

A gente não pode fazer música como em 1973, a gente não pode viver de música como em 1973, a gente tem que viver sozinho num purgatório de belezas desconhecidas que não saem muito da nossa rodinha de violão. Que bosta!, a gente não pode 1973, infelizmente. Toma um 2017 aí bem enfiado e ache bom, porque em 2017 todo mundo tem que "pare ser" feliz.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Não tem Lua


Tem Lua que vibra,
derrete pedra
branca que respinga
na minha pinga
branquinha.
Hoje fostes minha, moreninha?
brevemente...
A bola da queimada,
a ponta já queimada,
a floresta queimada.
O fim do mundo lunar
no mar ...
espetáculo litorâneo
em que os casais passeiam
serenados de verão
em uma noite que nunca acaba...

Tem Lula que cora,
ninguém ignora,
o mundo inteiro de azul e prata,
que diz e que ata,
que desacata todo planeta com tanta beleza lumiar.

Tem Lua que chora:
lágrimas, moças, seresteiros, otras cosas;
borra, a lua, maquiagens nos travesseiros
mágicos e doloridos de luar.

Tem Lua que espera,
Não se afobe não com a casa lunar,
brinque no seu quintal,
com a fase da vida, com o jogo de azar.

Tem Lua que triangula até alguém escutar.
Não tem Lua que a alma da noite
não saiba amar,
os cavaleiros,
poetas,
boêmios,
vagabundos
ou qualquer amante vulgar,
não tem Lua
que não saibam amar.

Teju Franco Lua de 05/10/2017