terça-feira, 23 de agosto de 2022

Funeral



 Eu estava lá quando morri aos nove anos

Não foi tão simples quanto deveria

Infelizmente eu nunca fui simples

O mundo azul claro dos oito anos foi se fechando

Meu pai faliu com o milagre do Brasil

Uma nova escola cinza religiosa me embrulhou num uniforme meio nazista

Asfixiante

Padres pedófilos, tarados

Meninos e meninas separados

Comemoração cívica todo dia exaltando a carnificina da ditadura

Morri por alguns anos...

Minhas depressões que não me matam, mas são tão resilientes quanto eu

Ficaram um tempo me torturando em provas bimestrais

Fiz da primeira namorada imaginária

Uma garotinha cheia de personalidade

Uma carta na manga, um ás

Uma tábua de surf da salvação

Para um drama infanto-juvenil de sessão da tarde

No sofá da masturbação

 

Passando de ano eu fui

Nunca repeti um ano

Medalhas de honra ao mérito

Já me exilando no fundão da classe

Dos deletérios

Com várias advertências de comportamento

Boletins de ocorrências para os pais

Os roqueiros de cemitérios

Meus pecados assinados em cadernetas pareciam troféus

E eu queria mais...

 

Comecei minha vida de desclassificado

Nunca repeti um ano, só fracassos

E gozos celestiais

Há rá rs

Alguns pecados mortais

Farras levitacionais

Virei do mal

Nunca repeti um ano

Mas acho que cheguei ao mundo com dez anos de atraso

Atrasado

E coisa e tal

Me arrumo em cima da hora no banheiro

Andei morto

Dos nove anos à adolescência

Acordei em cima de uma motocicleta com o vento cantando

“Caminhando contra o vento”

Olha eu ali, vou buscar aquele cara

Um instante, maestro

Mas ele é rápido como a motocicleta em que anda

Manifesto

- Ei, vem aqui.

Quer garupa?

Ele veio, eu fui

Segui

Upa!

Uns anos divertidos em cima de uma moto parecida com a que tenho hoje

Vida de estreia

Cada moça, um cabelo diferente

Diferente ideia

Vida de Romeu

Na Pauliceia

Em cada bailinho uma Julieta

Uma epopeia

Um Prometeu

A turma do bairro

Os acampamentos

Ela chegou

Foi rápido, um sopro

Uma domingueira no clube

Um desvairar, aluarar

Começou minha vida insalubre

Linda como aquela loirinha que andou anos comigo

Até a faculdade

Como a gente se amava!

Minha inteligência critica mui amiga não me trouxe a maturidade, mas

 Um bocado de contestações e rebeldias

Vaias e salvas

Larguei o Romeu motoqueiro, rei dos rachas, na discoteca

Troquei por um disco do Dylan

O where have you been my blues eyes sun

E entrei para a esquerda clandestina

Na paranoia braba

Canto Bravo

No chumbo da rotina

Daqueles militares imundos

Dos centros acadêmicos chatos

Abaixo a ditadura

Lá tava eu... deixando Carl no velório

Mortinho da silva

E a minha loirinha tão amada

Sofro até hoje de remorso

Tchau cabelo de milho

Lá tava eu... deixando Romeu no velório

Mortinho da silva

E entrando numa guerra que podia me deixar de fato

Mortinho da silva

Foi legal e cruelmente surpreendente revelador, dolorido

Desconfiar da sanidade do mundo

Mas foi legal

Descabido

Olha eu ali, virei hippie, comunista, divergente, sei lá quê, tropicalista?

Desbundei

Ei, vem aqui.

Ele veio, eu fui...

Segui

Depois de mergulhar de cabeça na luta

Na música, no drama da história bruta

No perigo sem glória

Mandar meu eu formado e bem financiado a PQP

Pra salvar o Brasil, o mundo

Like a rolling stone

E “rolling” pelos botecos cabeças eu a conheci

Ela veio pronta, parecia parte de um roteiro

Repleta de teclas e poesias

De Minas, do Rio, de Shakespeare, da Maria de Figueiredo

Foi quando uma epidemia de morte se deu em casa

O câncer do meu pai resolveu desinventar o mundo

Instituir o medo

E assim foi

Foi-se tudo

Nossa!

Acabou-se o mundo”!

Apocalipse now, total

Meu mundo caiu

Eu era alguém que nunca existiu

Morto vivo faltei ao meu terceiro velório

Morrer é perigoso

Viver também...disse um João

Diretas já, vencemos.

Votamos, vivemos.

Cabra da peste

São os “morredouros” da vida

Passei anos, depois de salvo pela “Zanza”

Zanzando por ai

Mal sucedido zumbi

Jovem colecionador de mortes

Em que não morri

Fracassei de morrer

E aí?

- Sobrevivi

Vi a vida clarear num tanto

Depois desencanto

Depois canto

Ilusão

Canto

“Por que o instante existe”

Canto

Por que ela existe

Estando ou não

Assim como eu

 

Teju Franco 24/08/2022