Amizade. Ninguém
sabe ao certo como e quando começa. Você só se dá conta quando já existe. Aí já
era. Acho que precisa estar do mesmo lado do planeta das causas, só acho, mas
não precisa ser necessariamente igual, gente inteligente não precisa, e nem
cobra que o outro seja igual; quem atrita com o outro para fazer prevalecer a
sua opinião não é muito inteligente no campo da crítica, não tem paciência filosófica, nem histórica, a diferença é enriquecedora.
A minha nova
amizade com a Marília Calderón é assim, fomos nos aproximando sem perceber, ela
foi cantar umas vezes comigo, depois eu fui cantar com ela, ela se ofereceu
para ser minha coach, eu virei professor de música dela, mas isso é bem depois
de já sermos amigos, e a gente foi se conhecendo, ou como diria Vinicius - reconhecendo.
Duas gerações
diferentes, dois militantes de duas gerações diferentes. Dois radicais no bom
sentido, pessoas que levam às últimas consequências as suas causas, dois não
radicais no mau sentido, pessoas que não são intolerantes, que conversam, que
acreditam na liberdade de opinião, no debate, que não falam em cima do outro,
não levantam a voz, não querem vencer o debate, que discordam com humor
filosófico, não ofensivo, nem irônico. Dois abnegados, cagando e andando pro
mercado, como diriam no meu tempo “dois porra-loucas”, ou no tempo dela _______
vocês vão ter que perguntar a ela.
Somos dois
libertários acima de tudo, olhamos para a realidade como experiência e não
tradição, temos visões diferentes sobre as militâncias da atualidade, mas não
sobre as causas, as pautas são as mesmas, os grupos que as defendem não, não
concordo com a ótica, as teses e a abordagem dos grupos indenitários, mas apoio
suas causas, aliás, desde criança. Sabemos disso, eu e ela, mas não vivemos em
embate tentando convencer o outro, às vezes alguma coisa pontual até
discutimos, normalmente na base do humor, eu tiro um sarro da cara dela, ela
tira um sarro da minha. Sabemos-nos do mesmo lado e é isso que importa.
Duas
gerações, dois militantes, dois porra-loucas, dois que quer que sejam, dois
amigos. Sem perceber começamos a falar de tudo, perdemos qualquer tipo de
receio, de vergonha, duas pessoas sem limites morais e paradoxalmente com muito
respeito pelo ser humano, é o que somos.
Falamos
sobre um feminismo mais sútil que propriamente a luta dos direitos, o da
cultura, do subconsciente coletivo, da ruptura com o modelo estrutural da
sociedade. Isso passa, sobretudo, pela derrocada do macho e do seu mundo como
conhecemos, isso envolve estrutura familiar, monogamia, mentalidade,
comportamento. Eu digo que o mundo como sempre conhecemos não cabe mais nesse
mundo, e manter as formas estruturais é cair em outro tipo de prisão, é a
mulher, por exemplo, defendendo a monogamia cristã em que ela sempre foi
enganada, muda o discurso, mas o caldo da cultura permanece; a moçadinha que tá
vindo aí vai quebrar esse pote, o caldo vai mudar, o papo mudou na “práxis”; eu
convivo com gente mais nova, não é teoria, as minas estão inaugurando outra
era, outra prática, outro jeito de agir, não é mais o bla bla bla dos anos
sessenta em que as mulheres falavam muito e faziam pouco.
Em plena
aurora do século vinte e um o amor continua sendo um problema, a violência não,
o amor livre é apresentado como ofensa, agressivo, a violência como solução,
mas não é, isso é um fake antigo apenas, é só o grito desesperado do macho
tentando salvar seu velho mundo, remando contra a maré e sendo vencido por ela,
ou melhor, por elas. O amor é fêmeo, a violência é macha. Os homens estão meio
“perdidinhos”, mas isso passa, é mais a gente, os mais velhos, os garotos já
vem nos substratos das mudanças.
A real é que
os machos estão meio tentando se achar, meio acuados, sem saber como agir, a libido
anda meio apagada, é muita coisa secular ruindo, o mundo do vestiário masculino
e da mesa do boteco não dá mais conta. Num mundo de oportunidades iguais,
culpas eliminadas, liberdades consolidadas, o homem vai precisar, como nunca,
rever tudo o que lhe disse a cultura, teremos que abrir mão dos ranços e
vergonhas medievais, a vergonha do corno, o mito ridículo do macho alfa, a natureza
monogâmica possessiva, a vaidade que envolve possuir alguém, a mania de
controlar; ninguém controla ninguém nesses novos tempos, celular não é coleira, é uma maneira de conversar com alguém quando se vai fazer xixi, as pessoas têm
oportunidades e fazem o que querem, os homens precisarão mais do que nunca se
bastar, ter autoconfiança, sair desse mundo vulnerável do macho inseguro com
medo do pau maior do outro, dessa contenda selvagem da disputa. Sem a violência
animal, normalmente quem escolhe é a mulher, o homem é mais vulnerável
psicologicamente em tudo, na hora do sexo, como disse Caetano “quem tem pau,
tem medo”, no mundo equilibrado a verdade é que as mulheres são mais donas das
situações, o machinho vai ter que dormir com essa e acordar com outra.
O macho alfa
não é o mais forte na tribo humana contemporânea, as mulheres cagam e andam pra
ele, tiram sarro, ao contrario, é um fraco, uma pessoa que precisa se
autoafirmar o tempo todo é uma pessoa que não confia em si, uma pessoa que
precisa ser o tal é porque não se acha o tal, precisa de aprovação, uma pessoa
que precisa de todas não ama ninguém. A pessoa forte sabe quem é, sabe seus
atributos e qualidades, seus defeitos, medos, limitações, e se vira com isso,
sem precisar falsear uma cena, o macho alfa é um farsante. Todos os homens
estão em decadência, o macho alfa é a caricatura mais patética e insegura de um
mundo que já morreu e vive de apego a alguns fantasmas.
Marilia é a
radical doce e inteligente dessa peleja da história, têm radicais agressivas,
algumas até violentas, têm radicais moralistas que não percebem que quem criou
essa moral foi o macho, e defendem a mesma moral deles tentando combate-los.
Marilia sofre um pouco com suas policias e patrulhas, mas passa ao largo, é
muito inteligente, uma das pessoas mais inteligentes que conheci. Se ela cair
em uma armadilha geracional, o que é normal, eu cai e caio em tantas, ela conserta
lá na frente, é uma pessoa movida pela curiosidade e pela critica. O que mais
me fascina nela é que parece ser regida por outro tempo, como se viesse do
futuro que está por vir, as coisas tão valorizadas pela sociedade que vivemos
no sentido de pontuar diferenças não tem o menor valor para ela: se é mais
velho, mais novo, se é bi, hetero, homossexual, se é preto ou branco, rico,
pobre, bem ou mal sucedido. Ela não é uma teórica, apenas, precisa viver as
teses que defende, e ela vive. Nesse sentido, para além de militâncias,
equivocadas ou não, ela é o sinal da nova era, alfa, ele que parece forte, já
era, Marilia que parece frágil, é a certeza vera de que a história não volta e
não voltará atrás.
Convivi com
três mulheres mais jovens nos últimos meses e fiquei entre surpreso,
boquiaberto, assustado, e me sentindo indefeso, infantil e meio ridículo;
depois fiquei feliz, que bom que moças tão jovens consigam contrapor tantas
coisas a uma pessoa tão vivida como eu, que bom que me senti infantil perto
delas, que me senti ridículo, isso está movendo revoluções dentro de mim, vinte
anos em dois meses, troca profunda de posturas, atitudes, entendimentos de mim
e do mundo, a história segue, mesmo com toda contramaré, a propósito, a história
é uma palavra feminina.