domingo, 11 de novembro de 2018

Então é isso ?





Então é isso?
Esse parece que não sei
Essa vontade de tirar férias da raça humana
Voltar depois com um sorriso sádico que diz
- eu te disse
Mas se fosse só isso estaria tudo bem
Pior é o desencanto
O patético, o grotesco, o ignorante, o preconceituoso
O desprovido de qualquer beleza, inteligencia, bondade, humor, amor
Pior é testemunhar esse vencedor
Pior do que isso
Ver uma nação optando por isso
Alguns amigos seus,
Parentes,
Ver o exército de Hitler ganhar trevas como um buraco negro
Estão lá os queridos
Com eloquência,
Com isenção,
Neutralidade que naturaliza
Estão lá
E você entende na pele a Alemanha da década de 30
O bicho-homem embevecido a surfar a onda da maldade extrema da perversão humana
Dos profissionais da violência como disse o cafona general
Então você sobra no fim da tarde olhando pro nada
Pensa em toda a sua vida, seus valores, sua luta, ideal
Então você pensa
- então é isso?
É tudo pra nada?
E lá se vai a madrugada
Em que pena a alma broxada
Da minha humanidade carunchada

Que pátria escolhe uma aberração dessas para conduzi-la
Todos aqueles anos de luta por democracia
Liberdade, valores universais
Então é isso?
Pra melhorar o enredo misturo a vida pessoal
No bacanal político, apocalíptico
Em que todas os piores putos foram absolvidos
E aquele de quem riqueza não se achou foi encarcerado e punido
Faço música popular brasileira
Um gênero fora de mercado
Faço poesia
Quem liga pra isso?
Tenho um blogue que só eu visito
Repleto de poesia
Mas Carolina não viu
Então é isso? tudo pra nada, foi pra isso que eu nasci?
O porco faltou ao dia da distribuição das pérolas
O Porco virou presidente
Homens corruptos e covardes granem
A falsa coragem dos que mandam soldadinhos pra morrer e lutar em seu lugar
Homens valentes seguem presos praticando a serenidade
Em prol da humanidade
É incrível o destino do Lula depois de tudo o que fez
É como punir um homem por pensar no bem do outro
Os cristãos com suas "Arminhas" de mãos sabem bem para quem aponta-las
Não perdem um Cristo na alça de mira
Parece um grande pesadelo que de tão tosco não conseguimos acreditar
Um exército de velhos grotescos,
Mal educados, agressivos, despreparados,
incrivelmente despreparados, infames;
Uma mistura nojenta e velhaca de conservadorismo maçom, fundamentalismo religioso, racismo, homofobia, misoginia, desejo homossexual profundo,
Enrustido, transformado em ódio

Um bando de velhos patéticos falando nojeiras
Doutrinadores de um discurso só querendo acusar de doutrina aquele que instaura o plural no debate
O Brasil está ao contrario
O mal virou bem, o bem virou mal
Os bandidos roubaram a estrela do xerife
E reinam num mundo de Moros e Bozos, e Carmens e Barrosos, e como tudo que é ruim pode piorar chegam Heleno, Mourão, Jair, Janaína, Olavo, Frota, Guedes, chega!
Chegaaaaa!!!!!!
Então é isso?
É sim, mas esses seres de pus passam
Com a inflamação da história
A gente tem a eternidade da esperança e
Da utopia,
Glória!
Então é isso?
É sim, e lá se vai mais uma poesia pro blogue deserto
Mais uma canção para meia dúzia de loucos seletos
"Temos todo o tempo do mundo"
Eles não,
Ele não,
Utopia não tem hora pra acabar
Não tem prazo de validade
Então é isso?
É, é só a eternidade.

                                                                       Teju Franco 12/11/2018




domingo, 2 de setembro de 2018

Hotel sem Teto



- Ei, Poesia

Onde está você que não vejo há dias?
Eu vou atrás de você, poesia, onde estiver
Até parece que não me conhece
Conheço seus bares, suas fraquezas
Eu sei onde te achar
No meio das quinquilharias de mim
Em algum boteco fedorento
Esterilizada na sombra do luar
Entre o nada e o mínimo
Há de ter algum parágrafo ínfimo
Que me salve do pior de todos os caos:
O tédio
Esse prédio sem graça
Que ninguém habita
E nada acontece
Esse que eu chuto sem querer quando vou a geladeira
À procura de comida que não há
Mas eu te acho, poesia
Sempre te acho
Numa gaveta
Num gole
Numa alucinação
Numa mensagem de uma amiga
Na música de um amigo
Tanto reviro a viração da vida
Que encontro
Essa iguaria
Da poesia
E desafio de pronto toda a lógica do conto
E conto coisas lindas da terra que nunca fui e sempre vivi sem nunca estar
E te faço voar
Aqui da minha miséria
Cinco estrelas
Do hotel sem teto do poeta.


Teju, 01;19 03/09/18



sexta-feira, 20 de julho de 2018

O Metron





Detesto gente que economiza
Dinheiro, amor, amizade, alegria, paixão, farra, tristeza, poesia
Detesto
Vida é pra gastar
E não se esconder embaixo da mesa
Colecionando avarezas
Foste um precavido, nunca te faltaste nada, babaca, covarde
Detesto gente que se gaba de não errar
Gente chata
Morna
Comedidos são uns malas insossos
Gente que não faz jus a graça de aqui estar

Viver é para os fortes
No êxito, no fracasso, na vida e na morte
O fracasso pode ser um ato de coragem só permitido aos bravos
Aos loucos, aos ousados
Educação e gentileza é massa
Mas gente que não perde a linha
É massada
Como dizia Pessoa.
Que pessoa você é?
Gente que não perde o controle?,

O metrom?,

Como diziam os gregos
Não vales o ar que respira
Quem não erra não sai do lugar
Da mediocridade da zona de conforto
De não tentar

Para o sucesso ou o fracasso eu sempre fui
Ato, desafio
Me atirei sem arrependimento ao serro frio
Arrependimento mesmo me dá é a paralisia
Às poucas vezes que sucumbi a ela
A vida é uma mulher bonita que passa por você na rua
Sem segunda chance
Se você não agir
Ela se vai se perder para sempre na multidão
Não tem revanche

Eu vou, às vezes seguro de mim,
Às vezes mais fraco que o Rock Balboa quando tá apanhando
Não sou Rambo mas eu vou lá ver a lua, que loas
Com a certeza do herói, ou trôpego e cambaleante
Cruzar a linha do

Metron

Meter a mão no manjar dos deuses
Aceito os castigos do Olimpo calado
Sem fazer estardalhaço, nem agonizar em praça pública
Nem bancar o alterado
Nunca ninguém cuidou de mim na grande noitada
Sempre voltei sozinho, são e salvo pra casa
Sem fazer mal a ninguém a não ser a mim, à minha alma penada

Pago o preço da palhaçada lúdica da existência
Vou guiar a carruagem que transporta o sol por todos os dias
E Zeus que se foda
Suporto a zica de Ícaro
Caio no mar com as asas queimadas
Pedindo a saideira

Como Sisifo, tentarei enganar a morte quantas vezes puder
Com cachaça, vinho, marijuana, música, poesia, festa, amor de mulher
E carregarei minha pedra eternamente por um segundo de plenitude
Que venham as moiras ao meu encalço
Minha parada na terra é descalço
É assim que ando, amo, respiro, canto
Quem é brother tá comigo
Quem não tá diga adeus e vá simbora
Meu canto é agora, é de arreunir
Sou do perdão, mas não faço isso duas vezes
Gosto de gente sincera
Sem hora
Quem me ama me entende, me perdoa
Sabe quem eu sou e bora
Perder o
Metron
Juntos, agora, que a vida é uma brisa
E só tem graça dividida
Quem me ama me perdoa, sabe que sou o

Metron

Perdido de amor
De compaixão e paixão
Em cada sol posto
Sempre fui o conciliador
O que sempre quis foi dividir
Não gosto de quem economiza
Mas também não quero mal
Passo batido à esquiva
Sinto pena, dou tchau
Mais pena do que de mim
Os que vivem em um metro quadrado tendo tudo e
Mesmo tendo viajado o mundo nunca saíram do lugar,
Tem que falar das adegas da França mesmo né?,
Sem nunca ter tomado um porre
Tiveram muito menos que eu ao perder o
Meu

Metron

Ludo
Meus deus eu invento a cada dia
Ele é volúvel, tresloucado, confuso, muda de opinião a todo momento
E assim vou ao sabor do vento

-Não erraste?
-Nunca fizeste uma besteira?
-Nunca pagaste um mico?
-Deste um vexame por amor?
Um deslize?
Um pecado?
Nunca te traíste ?
-Tens certeza que estas vivo?

O

Metron

Existe para ser perdido
Enquanto és vivo
É seu momento divino 
E ae, vai ser deus na terra ou esperar morrer pra ver se ele existe?

E ae?

Teju Franco 20/07/2018







terça-feira, 17 de julho de 2018

O Riso Fácil

O Riso fácil.


Demorei a perder
Muito
Muito
Elis falou uma vez que a coisa mais doída e irada do mundo era perder a inocência.
É.
Embora, aos cinquenta, a ira já tenha ficado para trás
A inocência da Elis eu chamo de riso fácil
E sem ira, eu me despeço dele como a um velho amigo
Com pesar
Até que durou demais
Não tem muito lugar para o riso fácil nesse mundo
Precisamos estar sisudos para enfrentar as coisas, o baque
Viver é ter três pés, os dois que andam e outro atrás
Riso fácil jaz
Aí você se despede do rapaz
E vira uma pessoa mais brava
Mais seca
Mais sem graça
O boa praça sai do campo
E dá lugar ao contabilista
Quando o inocente aceita que a vida é um jogo
Momento degradante e necessário na vida do ser humano
Elis tava certa,
Isso dói.
I

domingo, 15 de julho de 2018

As insuperáveis baladas da década de setenta. Leia escutando a música abaixo da foto






AS INSUPERÁVEIS BALADAS...

 

Era como se os sentimentos vivessem ao oposto da lógica da vida.

 

O ápice da festa se dava ao desacelerar a música. Os primeiros acordes soavam com um frio na espinha porque você sabia que era a hora em que deveria, ou não, tomar uma atitude; toda a sua coragem estava ali, sendo posta à prova. De longe, você avistava a dona dos seus medos todos, a senhorita apocalipse: uma moça de quinze ou dezesseis anos, que carregava com ela todos os mistérios do mundo, da magia, da diferença, de tudo que você não sabia.

 

E aí? És um homem ou um rato? Coragem! Você respira fundo, dá mais um gole na cuba-libre, e parte rumo à gloria ou ao desastre. No caminho, junta toda a falsidade de que é capaz para se mostrar senhor de uma situação que lhe aterroriza, figas na alma e vamos lá...

 

- Oi, vamos dançar?

 

Um sorriso traz redenção ao mundo insano de tantas coisas além dos dezesseis anos. O mistério dos cabelos loiros a cinco centímetros da minha existência sem graça, agora em glória. Um perfume me prende a uma cúpula, existe algo em volta de mim que eu não sei o que é. Tantos meses sonhando com aquilo, olhando de longe na escola, tentando adivinhar as palavras em leitura labial. De repente, estava tudo ali, tão próximo, as faces quase se tocando. Ela, surpreendentemente, quebra o silêncio – as mulheres já nascem sabedoras das palavras certas, das surpresas todas:

 

- Pensei que isso nunca mais fosse acontecer

 

- O quê?

 

- Isso, a gente se conhecer

 

- Eu te conheço, Maria Julia, só não tinha chegado ainda porque... Ah!, não sei por que, pra ser sincero, não sei por que, receio, talvez...

 

- Faz tempo que eu acho que você fica me olhando de longe, mas não tenho certeza

 

- É, eu “tava” mesmo, mas “tava” esperando a hora certa (hora certa, tu "é" relógio, babaca? Que coisa besta de se falar!)

 

- Por quê?

 

- Isso eu não vou saber te responder assim, é complexo (o que será essa complexidade toda, tão madura? Só Deus sabe rsrs)

 

- Mas você queria falar comigo por quê?

 

- Porque você é a única pessoa que me interessa naquela escola

 

Naquele momento, você sente o rosto se aproximar mais, pele à pele, a boca a alguns oceanos abaixo, o descompasso das respirações se junta em polirritmia. O perfume da pele fica mais nítido, sobrepõe-se às fragrâncias artificiais, as mãos suadas começam a se conhecer, o seio encosta no peito, a textura da pele; meus Deus!, me salva. Onde as mulheres aprendem a entregar cada centímetro de distância como a terra prometida a prestações?

 

A música está acabando, maldição, justo agora que eu ia beijar, eu juro que ia, não beijei e vai acabar a música; o que faço? Sem pressa, não vá estragar tudo, pense em algo. Convide-a pra conhecer a piscina, você conhece a casa.

 

- Vamos tomar uma cuba-libre na piscina?

 

- Tem piscina?

 

- Tem sim, é linda

 

- Vamos

 

Ufa! Agora é só esperar a próxima música lenta.

 

- Você é amiga da Fernanda né, a Fe é super gente boa

 

- Ela te adora, falou super bem de você, que você ajudou o irmão dela

 

- Eu queria perguntar de você pra ela, mas fiquei com vergonha

 

- Perguntar o quê?

 

- Tudo: qual sua música preferida, filme, livro, signo, comida, aniversário, endereço, telefone, quem você mais detesta, quem você mais gosta, deixa ver se esqueci algo...

 

- Chega, não sei isso tudo, vou responder só a última: quem eu gosto mais é quem está comigo agora

 

Olhos nos olhos, nenhuma folha cai no universo nesse momento, nada no mundo detém os lábios quando estão certos de si com dezesseis anos, quando traçam o caminho do beijo. Tudo se cala em um beijo nesse mundo, pode crer, e também pode me esquecer, mundo, agora eu não atendo a ninguém, não escuto, nem vejo, agora sou dois no meu desejo. Que beijo! O mundo umedece doce, a madrugada orvalha aliviada, a vida é doce. Começa a próxima música lenta:

 

- Vamos dançar essa?

 

- Segunda resposta respondida: é a minha música preferida

 

- Whiter Shade of Pale? Ah!, Maria Julia se revela aos poucos

 

- Sagitariana, terceira resposta.

 

Bye, vida besta, hoje é o meu dia e a música lenta vai parar o mundo para eu dançar, todo mundo devagar, a Terra gira devagar, "Whiter Shade of Pale". Tire a sua pressa do caminho que eu quero passar dançando com a Maria Julia. A música é lenta, a noite é infinita, a paixão é veloz como os hormônios adolescentes. Tenho dezesseis anos e não tô nem aí pra nada, tenho todo o tempo do mundo nesta noite... Lua crescente...

 

Teju 15/07/2018










sexta-feira, 6 de julho de 2018

Que fazer do amor dos amantes?, além de amá-lo






Que fazer do amor quando já vem restrito
Sem direito a nome, sem direito a grito
Sem tarde no cinema, baile de fraque
Que fazer de um amor Mandrake que ninguém pode ver
Além de se esconder?
Um Cheff que te mata a fome sem servir o prato
Um gaiato inoportuno
Um gatuno dos hiatos
Como se sai desse mato se ele for grande de fato?
Desses de sonhar pelos cantos acordado
E ver encanto em tudo que é lado
Na florista, no farrapo

Moonlight Serenade

Como um velho tolo que relembra seus dias de glória
Os beijos incandescentes no Chevrolet
A cidade rendida abaixo a seu pé
Only you, only you
Love is a many splendored thing
Que fazer de um amor assim?
Disfarçar, olhar pro lado, assobiar 
Fazer cara de jardim
Entrar com o coração em chamas numa fria
Não fazer cara, gosto, gesto, tara, cria
Não dançar na chuva, não cantar pra lua
Nem mijar nomes no muro da casa dela
Não vestir a camisa amarela num domingo azul
Não anoitecer lilás
Só deixar pra trás e seguir em paz?
Que fazer, oh bela?,
Depois que se abre a janela
Da fissura generosa
Além de comer em silencio e segredo
Sua fruta saborosa
Além de soçobrar
Além de só sobrar ao fim do baile
Recitando poemas em braile 
Pra si mesmo

O amor é assim mesmo
Cria o desmo e te larga a esmo
E se não lhe cabe o rito
Cabe o gozo
Ao ser amoroso perdoado está de qualquer crime ou delito
E esse sem dedos é o amor mais lindo, generoso
Esse que não tem posse, nem dono
Que parece viver no abandono do limbo
Esse que só dá sem ter
Esse é o amor pra valer
Que a gente nunca vai obter 
Nem saber
O amor dos amantes
Dos motéis e botequins escondidos
Que não te promete nada além do instante
Do beijo partido

Teju Franco 06/07/2018





quarta-feira, 4 de julho de 2018

Que espiritualidade é essa?









Que espiritualidade é essa da classe média que nunca vislumbra o bem coletivo? Apenas um hipotético crescimento espiritual individual, um caminho de si a si. Como alguém que apoia Hitler pode ter espiritualidade, como alguém que vota numa abominação como João Dória que acorda moradores de rua com jatos de água fria no inverno paulista pode ser espiritualista, que venera um psicopata dedicado à farsa do próprio oficio como Sergio Moro, um homem capaz de privar da liberdade e do convivo dos netos um avô, um homem contra quem não apurou nada e que melhorou a vida de tantas pessoas, que espiritualidade é essa que vota em um genocida que quer metralhar favelas como Jair Bolsonaro?



Vejo pessoas de classe média alta e média, e mesmo da classe baixa, falando tanto em espiritualidade, que são contra o estado social que visa diminuir as injustiças do mundo capitalista, contra alimentar famílias de baixa renda, dar oportunidade a seus filhos irem à escola, seus idosos obterem remédios. Que Deus é esse de vocês? Que espirito é esse?



Vejo pessoas de classe média pagando caro por encontros espirituais de todos os tipos como se esse tipo de crescimento se encerrasse em si, então eu medito e vibro para o bem do mundo e voto em Jair Bolsonaro, em genocidas, em fascistas, tiranetes, como se espiritualidade não tivesse nada a ver com justiça social, com amar o próximo, com querer um mundo e uma humanidade mais justa, como se espiritualidade fosse algo do indivíduo, uma entra tantas outras vaidades a mais desses tempos narcisos:- vou lá, tomo um chazinho, fico meditando e ascendo espiritualmente. Tem muito mais espiritualidade num ateu como eu do quem em vocês, sinto dizer.



Eu juro que queria entender, espiritualidade é um bem individual, foi isso que o messias de vocês, o “mestre dos mestres”, andou falando por aqui? Essa gente não compreendeu nem o cristianismo que rege suas vidas para o bem e para o mal há dois mil anos. Isso não é espiritualidade não, isso é uma compensação a uma vida circunspecta na materialidade, dessas que põe preço em tudo e acha que tudo pode ser comprado, até a proximidade com Deus.




Teju Franco 03/07/18


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Anda-te.




Anda-te


Foste um bravo desde o parto
Escolheste a dedo os piores e mais difíceis caminhos e seguiste
Foste justo
Desde o começo da vida
Escolheste sem titubear o caminho da justiça
Que sina man!
Que merda!
Que azar!
Que glória!
Que coisa linda!
Quem és
Pouco importa quem saiba
Talvez morras na berlinda
Mas carregarás a honra solitária até a última hora
Foste um louco
Dirão os incautos
Todos sabem
Isso eles sabem.
Carregaste o "carry that wheight" nas costas
Por toda a vida
Da mais tenra infancia
Que bosta é essa?
Mas era tua
A bosta e a glória
Inglória
Que talvez acabe por te matar
Tanto se faz e faz e faz
Quanto sobra disso?
Minha vida poderia ser resumida em gloria em sete momentos,
Só sete,
O que foi o resto?
Mico?
Escassez?
Anda-te, anda-te
Tem uma caneca de vinho na taverna mais próxima
Alvares de Azevedo te espera lá
Os migo tão lá
Anda-te
Porque a vida é andar-te a si mesmo
A esmo
Sempre,
eternamente a esmo
Anda-te.

                                                              Teju 28/06/18

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Macacos, acima de Beatles só Shakespeare



Baiano
O Cinema e o Garoto
Macacos, acima de Beatles só Shakespeare

Um tipo de Cristo só que melhor

Tá passando a versão atual do clássico " O Planeta dos Macacos". Sem graça. A primeira, de 1968, eu devo ter visto em 1971 no cinema da escola. O Arquidiocesano tinha um anfiteatro fantástico com uma estrutura de sala de cinema de altíssima qualidade. Eu estudava à tarde, os filmes eram uma hora e meia após o término das aulas. Devia ser entre 18 ou 19h. Eu tinha lido a sinopse e pedi pro meu pai ir me buscar mais tarde porque eu queria ver, era sempre facultativo.

Eu assisti atônito àquele filme. Incrédulo. As coisas sempre me impressionavam demais, desde a mais tenra infância, as coisas causavam um efeito devastador em mim; a maioria dos amigos passavam batido e eu me via em meio a um dilema de vida e morte aos 11, 12 anos; hoje não mais, 🤥 já resolvi isso kkkkkkkk 🤥 de boa.

Ali, durante esse filme, deve ter pulsado de maneira mais evidente meu primeiro instinto humanitário, que depois veio a ser a minha maldição capitalista e a minha soberba e bem sucedida carreira esquerdista, um espetáculo inegável. Ainda não tinha usado tanga de crochete e ficado rico vendendo livros.

Sai do cinema deprimido. - Meldeusssss, o ser humano é vil, não vale nada, ele vai se destruir com essa vileza, e a macacada reinará. Antes fosse a macacada, quer dizer, quando cresci tive certeza de que era a macacada. Mas senti ali, pela primeira vez, um prazer, infantil, de entender duas visões de mundo.

Sai cabisbaixo do cinema, com minha cabeça de doze anos, cheia de vento a favor, arrasado, o ser humano é uma merda, não vale a pena viver, continuar. Sentei no meio fio e fiquei ali mais do que devia, pensando se deveria doar minha coleção de figurinhas e por um fim aquilo tudo.

Meu pai ,
aproveitando a desculpa de me buscar mais tarde, foi pro boteco com os migo, e eu pude ficar ali uma eternidade no meio fio da existência, na filosofia, vou doar meu time de futebol de botão também.

Como um menino maior que o mundo se achando uma pulga no mundo, só os meninos são maiores que o mundo, eu ali entendi o que era direita e esquerda e tomei meu partido, eternamente. Meu pai chegou pedindo desculpa, super-hiper alegrinho, e eu já emendei um papo cabeça durante o caminho, e ele adorou, ali, eu e meu pai nos apaixonamos intelectualmente para sempre. , Esquerda volver forever.

Seia anos depois, com atraso de oito anos, assisti "Romeu e Julieta" do Zeffirelli no mesmo anfiteatro. Não sei se demorou tanto tempo a chegar ao Brasil. A gente era teen da ditadura, a gente não sabia nada, tudo chegava aqui bem depois, a maioria não chegava. Até hoje eu acho "Romeu e Julieta" um dos textos-peça-filmes-poemas mais lindos do mundo, depois um filme devastador. Acima de Beatles só tem Shakespeare nesse mundo, tenho certeza.

Ali entendi o que era a paixão, minha única dependência química, o que era poesia, minha única forma de superar, minha estrada vazia, a consequência pra se andar.

Shakespeare me apresentou a poesia pela primeira vez, era um efeito de rock and roll, uma coisa inebriante, estupefaciente, fui devastado, minha alma se esfacelou, uma sensação de overdose, duas drogas insuperáveis: A poesia e a paixão no mesmo mano, esse inglês que ninguém sabe se existiu, tipo um Cristo, mas melhor, fraco, humano.


                                                                           Teju Franco 27/06/18

domingo, 24 de junho de 2018

Aborto Condicional



     
Aquele filho poderia ter nos salvado
O se do se do se do se do se do futuro do pretérito trocado
Os dedos fatais do destino trançaria as linhas de outro fado
Outra costura, textura, bordado

Tempo amigo, filho brincando, plenitude
O amor da vida ficando,
Estando,
Ficando
Com cheiro de banho
Taça de vinho
Rede balanço
Carinho
Cheiro de café
E aquele gozo que paria super-novas

Seu olhar não sumiria no zoom do turbilhão
Como um olho apagado no fim da ponte aérea
A luz magenta do hall de entrada continuaria lúdica, etérea
Aquele cheiro de lavanda que sempre me persegue
Seria real como seu moletom verde indiano de amarrar no tornozelo
O grande amor teria zelo, tempo, surpresa
Toalha na mesa

Meninos são tolos
Imbecis arrogantes
Pretensiosos ignorantes
Os donos do tesouro e do desperdício
Derramam o ouro do tempo inadvertidos, pensando ser eternos
Depois
Desaparecem ao primeiro terno e gravata
Os antigos fanfarrões invencíveis da bravata
E quando a roupa da vida veste o adulto
Se darão conta de suas besteiras irrecuperáveis
Mas ai já é tarde 

Perdestes a fragata
Já és réu das suas escolhas
Quase condenado se algo deu errado
O se do se do se do se te esfaqueia calado
O feto morto jaz ao lado

Teju Franco 24/06/18

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A Farsa






A poesia não resolve nada

Apenas engana a alma que clama por ser enganada

Você se esgueira por labirintos de trapézios

E andaimes de palavras cálidas

Um pé no ar, outro também

Sobre o vácuo existencial

Em que nada se equaciona

Nem quântica, nem relativa

Apenas acende as luzes sobre a lona do circo radioativa


Em que você assiste atônito a si mesmo


Às vezes astro, às vezes público

Às vezes trágico, às vezes lúdico

Às vezes louco, às vezes lúcido

Fera, domador, atirador de facas, homem voador

Mágico de cartas e coelhos

Às vezes sem graça como um palhaço abandonado

A chorar na frente do espelho


A poesia só faz ilusionismo

Acena à grandeza que poderia haver em tudo

E alimenta a cesta básica da vida

Que tem que viver sob juízo de pouco ou quase nada em seu escudo


A poesia não é fada

É foda imaginária

Uma garota que se masturba sozinha na penumbra do quarto

 Escondida


A poesia não tem valia, não paga a cura do dia a dia

O gás, o pão, a luz, o açúcar

Só acende a sombra onde o sol se escambra pelo céu nevoado

Do aplique da peruca


Estou farto dessa fome

Antimatéria de manadas e multidões de seres robotizados

Blade Runner de androides aflitos

Sem paixão, só pressa, sem esperança, só prece

Sem gozo, só grito, estresse, abismo infinito

Sem coração, só pulso, sem coração, só pulso

Sangue correndo em meio ao trânsito absurdo



Ainda assim a poesia pulsa, avulsa que só

Salta louca no arrebol

Dança, canta, coisa, causa

Enlouquece

Zomba da fome do “home”

Goza no lençol

A poesia é pobre de marré

E rica de si

A poesia simula

Pula o muro pra lugar nenhum

O reverso entre o que se sonha e o que se é

A poesia é o que não é

A farsa que forja da farinha da miséria

A massa da ilusão das suas férias

A que alimenta a fome da alma

A fome que nunca se mata

Só se engana

Só se acalma


A poesia não resolve nada

Apenas engana a alma que clama por sua chama de mentira

A poesia não resolve nada

Apenas engana a alma que clama por ser enganada como a fome na barriga.                       

                                                                                                         Teju 22/06/2018

 




segunda-feira, 4 de junho de 2018

Vocês estão Doentes.










A Classe Media é realmente a tal deformação Cognitiva

A classe média brasileira é um dos casos mais patológicos de deformação cognitiva causados pela imprensa a ser estudado no mundo. Pessoas adultas que não conseguem raciocinar um centímetro além do ódio, não conseguem raciocinar sobre o obvio matemático da economia. A situação na minha família não tem precedentes desde que me conheço por gente, pessoas acostumadas a um padrão alto passando privações básicas, pensa que pensam, não pensam. O ódio embute qualquer possibilidade de pensamento lógico. Você joga um dado socioeconômico e a pessoa começa a tremer, parece que você xingou a mãe dela, parece que vai ter um troço.


- O PT quebrou o Brasil
- não, o PT levou o PIB brasileiro de R$ 1,48 trilhões em 2002 para 4,84 trilhões em 2013

A tremedeira toma ares de enfarto

-Mas o PT fez isso porque aumentou a dívida pública
-Não, a dívida pública reduziu de 60% do PIB para 34% do PIB

Nessa fase ja entramos em risco de vida se for pessoa de idade, normalmente é, a voz tremula pelo ódio já não consegue balbuciar as palavras corretamente

-O PT quebrou a Petrobrás
- não é verdade, os ativos da Petrobrás passaram de 15,5 Bilhões em 2002 para 104,9 Bilhões em 2013. O Lucro foi de 4,2 Bilhões ao ano em 2002 para 25,5 Bilhões ao ano em 2013

Já entramos na parte em que o diálogo se dá aos berros

- quem quebrou o Brasil foi o Lula e a Dilma

-é, e essa maravilha de vida que você está vivendo agora foi a salvação que os tucanos e medebistas adversários dele fizeram para melhorar sua vida, tá satisfeito, melhorou, tá reclamando do que..

É quase uma loucura, chega a assustar. São pessoas adultas, não são ignorantes, estão pagando por todo esse caos todos os dias, tá faltando comida nas mesas, qual o problema dessa gente que não consegue raciocinar um dado simples como os números do PIB ou o preço do gás?

Tá, não gosta do Lula, não vota, mas não seja tão refém assim dessas miriam leitoas que ganham muito bem para foder a sua vida de verde e amarelo. Tem google, cassete, vai lá: PIB brasileiro 2002, PIB brasileiro 2013, Dívida Pública, Reservas Internacionais, Dívida externa, Importações, Exportações.

Lula quebrou o Brasil, pegou o país com o 13º PIB mundial e o trouxe para a sexta posição à frente da Inglaterra, pagou 200 Bi da eterna e impagável dívida externa, se tornou credor do FMI, juntou 378 Bi de Reservas sem vender uma kombi; como vc pode dizer que o Lula quebrou o Brasil?

- Lula quebrou o Brasil

-Lula quebrou o Brasil transformando-o na sexta economia global e vc vai quebrar sua loja, seu consultório, sua oficina, seu salão, seu Pet enquanto a Miriam Leitão te manda da classe B para a classe C, seu otário.

Seja uma criatura odienta dessas que babam gosmas de raiva e ódio sem qualquer motivo contra alguém que a família Marinho mandou, a família Marinho, aquela gente de ética exemplar, mas não seja um ser irracional incapaz sequer de avaliar dados socioeconômicos, comparar números e após sua falência intelectual vir falar em ditadura militar. Vocês estão doentes. TF

sexta-feira, 16 de março de 2018

A Porta










A Porta

Quando o amor bater à porta
O dia já estará bem nascido
Bem redemoinho no meu ninho
A noite bem posta
Com uma mesa de estrelas meninas
Que entrarão pela tarde senhora
Bem dispostas
Purpurinas...

Em voltas de enlouquecê-las
A lua como que chega
 Médio bailando, médio volando
”Moceja”
Em algum esquadro de janela
Tão bela!

O amor és el loco fora de esquadro
Que nada vê além da própria loucura
Luz del Fuego
La dolce fúria
Que Gira o salão
As luzes do cabaret
Amy Wine House da Perdição


Uma vida de farras calará a boca do tédio
Um tapa estalado na bunda de Eros
Uma música romperá quando da sua entrada no prédio
A solidão desabará de sua arquitetura viciada
Até parece que nunca existiu
Um garrancho que alguém esqueceu
De apagar no caderno
Apagou, sumiu, ninguém viu

Abril que parece Dezembro,
Dezembro que bem me lembro antes de viver
Muito antes, bem antes dos Janeiros
Do começo de tudo
Eu já sentia o cheiro
Já adivinhava o mundo
De lavanda ou Flor da noite
Exalando sobre tudo
O coro das pastorinhas, o coro do absurdo

O amor é a esperança de...
O caos anda de mão dadas com a redenção pela orla dourada
A lua perdida de fase
Se mostra como a grande esperança desvairada
“Menstruarada”...
.

Aos loucos e desavisados
Aos tomados de sua cólera
Sempre traz uma criança estreante em sua aurora
Um jovem intrépido que do alto se joga
O homem pássaro
O Traficante de droga
Faz da vida um grande banquete, uma balada
Ou nos abandona mortos de fome e tédio
Em sua alcova furreca de beira de estrada?

Anda rindo assim perdido na Lapa do mundo
Assim sem certeza de nada
Sem chão sob a estrada
Sem forro pro céu profundo
Vagabundo
Assim por aí...
Assobiando ao léu...
A zombar o soturno...

Chega com um cigarro na mão pedindo fogo
E você responde incendiando Roma sem perceber
Assim como se tocasse uma lira
Sobre a realidade submetida você delira
Com o corpo que acabou de gozar
O gozo é uma espécie de morte que deu mais sorte
O amor vem antes da realidade
Antes da razão, da coragem e do medo
Já nasce com saudade, com uma dor no peito
Um arremedo que vira um soco na fuça
Você anda tateando pelo labirinto de espelhos
Sem saber se herói ou fedelho
Mas isso não importa
Já gira a roleta-russa
Quando se cruza a porta nada mais importa
Além de tê-lo.

                                                                                                Teju Franco  16/03/018

domingo, 25 de fevereiro de 2018

O anjo do Medo




Desde muito cedo soube do medo e do fascínio que as mulheres causavam em mim , tive grandes amores em idade que os meninos não pensam nisso. Isso começou no primeiro ano primário, eu não fiz pré: uma loirinha da classe chamada Ana, era uma escolinha pequena de bairro no último tobogã da avenida Pompéia, Ginásio das Nações, a primeira professora de música Cecilia Gorini é minha amiga aqui, ela não vai lembrar da Ana, mas eu lembro. A Ana tinha um ramster do qual não se separava nunca, então deixaram o ramster frequentar uma semana de aula até ela se acostumar com o fato de que ratos não vão à escola.


Fiquei louco por ela assim que a vi, o ramster chamava-se Frederico, era gente boa, o ramster, ela também era, andava pela classe durante a aula roubando–nos a atenção vez ou outra, o ramster, ela ficava estática em sua carteira de neon, todos queriam o bichinho embaixo de sua carteira, eu queria a Ana. Nasci me sentindo bem no precipício da paixão, é a única altura que não me paralisa, ao contrário, me lança ao abismo em que caio sorrindo sem saber o caminho, mas não gosto da pressa, sou fascinado pela sutileza...

Bom, meu problema virou conquistar aquele ramster, a paixão é um jogo e aos seis anos, ele é meio diferente, não precisamos impressionar a família de ninguém e sim um ratinho chamado Frederico.
Depois de dias de dúvidas eu tive uma luz, perguntei ao meu pai o que aquele bicho comia, comprei um banquete ratazânico e o joguei despretensiosante embaixo da minha carteira. O Frederico e eu nos tornamos irmãos, parceiros, companheiros de copo e seresta e a musa ficou intrigada com essa nossa “afinidade”: conversas sobre bichos, refrigerantes preferidos, desenhos animados e coisas assim e descobrimos que morávamos perto, algumas ruas pra lá ficava o paraíso e eu nem sonhava.

O anjo do medo se tornou ótimo, apesar do medo, e marcamos um dia para brincar, depois outro e depois outro, e ela virou minha namorada, na infância a gente não depende do consentimento da pessoa pra namorar, a gente escolhe e diz pra gente e pronto: vira namorada. Depois de um tempo, que até as famílias já se conheciam (era namorada ), ela foi embora, simplesmente sumiu, mudou-se no meio do ano, parou de vir de repente, falava-se algo na escola, que o pai dela, que era jornalista, estava sendo procurado pela direita militar e eles saíram às pressas.

Passei alguns dias indo à praça em que a gente brincava, mas o parquinho parecia não brincar, perdera a graça, o balanço não balançava, apenas eu, a gangorra não subia, só eu caíra, o carrossel não girava, mas eu me perdera num céu cor de rosa giratório, o anjo do medo escorregou pelo escorrega e nunca mais voltou e eu descobri que era um tocador de flauta que amava tocá-la quando algum anjo, que me apavorasse, cruzasse o caminho e me deixasse assim como um menino que nada soubesse e tudo quisesse num parque sem sentido, só desejo, um estreante.



                                                                                                                            Teju Franco