Foi o show
do Marcio Policastro no projeto “Tapete Mágico” do Max Gonzaga e da Lea Paioti;
um show para 50 pessoas na sala da casa deles.
A casa do
Max e da Lea tem abrigado dois eventos que se alternam: um mês é o Max Sarau,
outro é o “Tapete Mágico”, os dois são um fenômeno.
Um Tapete
que fará história na MPB. A gente chega a uma idade em que aprendemos a separar
pretensão, ego trip, presunção e outras tolices mais, de realidade, da mais
pura realidade.
Realidade é
a bagagem que o Marcio Policastro, não se trata da realidade em oposição ao
lúdico, não, a música dele é por vezes lúdica, lírica, mística, mas realidade
no aspecto de não usar de nenhum truque, seja de interpretação, seja da feitura
das suas músicas, letra, melodia, violão, ao contrario, é uma afirmação de
autenticidade, o tempo todo, a espontaneidade rege a orquestra. Sabe a história
do “poeta fingidor” do Pessoa, pois é, não é, Pessoa engana vocês, diversas
vezes, o poeta não finge, ele lembra de algo que remete àquilo; é o show do
Poli, as músicas vem do fundo da alma, as melodias e palavras são isopores que
vem à tona e te lembram de algo, não podem ser contidas, como o ar mais leve
que a água, elas emergem, não existe a necessidade do ator, do mergulhador, a
cena já vem pronta, já fala por si só.
Quando eu
vejo um grande show, o show fica em mim alguns dias, não acaba, fica rodando um
videoclipe moto-contínuo na minha cabeça. “Merda, seu Milton!” irá fazer uma
temporada na minha radio cabeça. Sim, eu poderia ser suspeito para fazer uma
critica desse show, o cara é um dos meus melhores amigos, mas eu não sou
suspeito, eu conheço a obra dele de trás pra frente, e, seu eu fiquei tão
arrebatado é porque foi foda mesmo. Um artista chega a um momento da carreira
que não precisa mais provar nada, fazer malabarismo nenhum, micaretas, apelações,
e é esse descompromisso com a forma e esse compromisso com o conteúdo que dão
essa densidade a obra do Poli.
Mas nada a
ver com desleixo, ele é um cantor extremamente afinado, tem um timbre que pode
ser doce e drive, uma “chorosidade” natural, não apelativa. O violão é peculiar
também, meio Nelson Cavaquinho, meio sujo, estalado.
Tem outros
artistas atuais que coloco no mesmo hangar, mas o Poli é um gigante do mesmo
planeta dos Chicos, Caetanos, Toms, Miltons e por aí vai. Se tudo isso é feito
sem muita estrutura, nossos shows são a força de trabalho da gente, imaginem
com a “Tal estrutura”.
Uma frase
que poderia resumir a canção do Poli seria “ você é convencido na primeira
frase”, depois é só continuar ouvindo.
Acompanho
nos últimos anos o trabalho dele, as criações, sou parceiro em algumas canções,
e acho que ele está no ápice da sua carreira. É muito bom acompanhar isso, e o
trabalho de outros amigos, não vou entrar em nomes senão seguiria uma lista
extensa, mas criamos uma cena, para o bem e para o mal, existe uma espécie de confraria,
um grupo grande de artistas bem diversos, diferentes, peculiares que se
frequentam assiduamente. Não temos um nome, mas existimos; dentro desse
espectro Marcio Policastro é um astro que divide sua orbita com público e
artistas, ambos de muita sorte. Assistir um grande artista é sempre uma grande
sorte na vida.
Merda, seu Milton, que pena que você não pode ouvir “Marcio
Policastro”, que há tanta distancia entre os mesmos, você diria a merda que se
usa dizer no teatro, desejar boas coisas – merda, e não a merda, que também é
real, de constatar o mal gosto que manda no mercado de música atual e que te
levou a essa palavra merda, mas volto às saudações e votos dos espetáculos –
merda para você e para nós, merdas ao Marcio Policastro, é dessa merda que
precisamos e se mais houvesse não estaríamos nessa merda.
Teju
28/10/2019