segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O homem atrasado



 Às vezes penso que a minha vida não existiu
Que foi um roteiro casual e muito louco
Fora do tempo
Atemporal
Penso na vida do Vinicius
Um homem detrás pra frente
Nasceu velho e foi porraloucando
Rejuvenescendo ano a ano
Morreu sem saúde para levar a vida que escolheu
Mas, disse Jobim - seu epatograma estava zerado um mês antes de morrer
Minha historia assim se deu
Mas também teve um tipo de atraso
Meio pontual
De maneira otimista eu calculo dez anos
Na música, eu falo
Inteligência é uma coisa que sempre soube ter
Mas na música
Quando era pra ser um iniciante
Eu não era nada
Quando deveria fazer alguma coisa
Eu era iniciante
Tive três obstáculos pra me fazer artista, terríveis na minha criação
Que eu não vou falar
Coisa de psicanalise

Mas nos acidentes de uma vida trágica e traiçoeira
Fui virando aquilo que eu queria ser
Artista
E como a idade é inimiga dessa profissão
O auge pode ser  menos em tudo
Se ocorrer em tempo errado
Público
Oportunidades
Foda-se
O que importa é a verdade
E essa eu experimento
Cada vez que subo no palco de um evento
Com artistas muito mais bem colocados
Então relaxo um pouco
Para fora dos meus temores existenciais
Se não temo essa gente
É porque somos iguais
Que me mate o capitalismo selvagem em alguma esquina escura
Esperando um Uber
Na pendura
Fui até onde queria
Mesmo que não tenha tido o que talvez merecesse
Nesse mundo estranho de notas e palavras
E um querer ser-se
Em que tantos bem sucedidos não são
Quem vai e não chegou
Sabe que não chegou
Quem não chegou e foi
Sabe que foi
Essa frustração não levarei para meu túmulo
Eu fui, cheguei
E na lápide escreverei
Eu avisei para esperar dez anos
Mas a morte veio antes
E o público depois

Teju Franco 31/12/2019

sábado, 21 de dezembro de 2019

Diz ae




O vazio do homem o bicho não come
Nem a fome
Nem a cólera
Nem o tédio
Solidões
Fluoxetina
Remédios
Loterias
Ilusões
Ele vem da certeza do fim
E do que estou fazendo de mim


O vazio do homem quando o amor não socorre
É um corre dentro de si
Pelo cinza ocre espelhado
Várias réplicas por todo lado
Quebrando caminho errado
Errando por aí


O vazio do homem tem nome:
¨ Existir ¨

O buraco negro do homem
O que traga toda matéria e o tempo
Seu tempo
Cobrado a cobre


A morte não é uma ideia
A morte é quando morre a ideia
A vida é uma ideia
Fascinante
Assustadora
Emocionante
Maçante
Passante
Estressante
Perturbadora


Enquanto você vive é como se fosse um Deus
Daqueles gregos
Humanos, e cheio de erros
Você pode até fingir de conta que não é com você
Que é com outro Deus
Mas o tempo todo o Deus é você
O senhor do destino
Sobre o Grand Canyon o menino


Onipotente


Ou


Impotente


Sobre o próprio abismo

Como eu mesmo disse em canção



Um minuano arrepia a pele
Ao passar de cada ano
Eu tinha um plano
Ele se deu
Mas eu fiquei em segundo plano
Do meu próprio plano


-E agora mano


António das Mortes
Do pós-plano?

E agora mano


¨ Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ¨1


- E agora mano
Diz ae


                                                                                                 Teju 22/12/2019

1-Trecho do poema “E agora José¨ de Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Por que a gente se apaixona?





Por que a gente se apaixona por alguém?
Tem homem que não se apaixona
Conheci vários
Tem gente que não se apaixona
Eu sou insuperável apaixonado
Falo em relação a mim mesmo
Eu viro meu herói
Atento e forte
Sem temer a morte

Não fico pegajoso
Pedante
Meloso

Fico vivo e belo como uma chama azul
Vibrante como uma corda de guitarra
A melhor versão de mim mesmo
Os pelos do sentir eriçados
O humor afiado
A farra
O fado
Uma alegria grande em cada pequena coisa
Gesto

Por que a gente se apaixona?

Talvez a gente precise de alguém para amar muito a si mesmo

Por que a gente se apaixona por esse alguém
E não por aquele alguém?
Se todos são estranhos

E sendo como sou
Fiscal dos detalhes
Confiro à cada ruga de expressão
Um pouco da perfeição da paixão
Aos amores imperfeitos
Que fazem alguém desse jeito
Reconhecer alguém daquele jeito
E não aquele outro

Conta outra

Tem gente que não se apaixona
Não eu
Só quando deixar de me apaixonar por mim

Teju Franco 20/11/2019

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Dois militantes


Amizade. Ninguém sabe ao certo como e quando começa. Você só se dá conta quando já existe. Aí já era. Acho que precisa estar do mesmo lado do planeta das causas, só acho, mas não precisa ser necessariamente igual, gente inteligente não precisa, e nem cobra que o outro seja igual; quem atrita com o outro para fazer prevalecer a sua opinião não é muito inteligente no campo da crítica, não tem paciência filosófica, nem histórica, a diferença é enriquecedora.

A minha nova amizade com a Marília Calderón é assim, fomos nos aproximando sem perceber, ela foi cantar umas vezes comigo, depois eu fui cantar com ela, ela se ofereceu para ser minha coach, eu virei professor de música dela, mas isso é bem depois de já sermos amigos, e a gente foi se conhecendo, ou como diria Vinicius - reconhecendo.

Duas gerações diferentes, dois militantes de duas gerações diferentes. Dois radicais no bom sentido, pessoas que levam às últimas consequências as suas causas, dois não radicais no mau sentido, pessoas que não são intolerantes, que conversam, que acreditam na liberdade de opinião, no debate, que não falam em cima do outro, não levantam a voz, não querem vencer o debate, que discordam com humor filosófico, não ofensivo, nem irônico. Dois abnegados, cagando e andando pro mercado, como diriam no meu tempo “dois porra-loucas”, ou no tempo dela _______  vocês vão ter que perguntar a ela.

Somos dois libertários acima de tudo, olhamos para a realidade como experiência e não tradição, temos visões diferentes sobre as militâncias da atualidade, mas não sobre as causas, as pautas são as mesmas, os grupos que as defendem não, não concordo com a ótica, as teses e a abordagem dos grupos indenitários, mas apoio suas causas, aliás, desde criança. Sabemos disso, eu e ela, mas não vivemos em embate tentando convencer o outro, às vezes alguma coisa pontual até discutimos, normalmente na base do humor, eu tiro um sarro da cara dela, ela tira um sarro da minha. Sabemos-nos do mesmo lado e é isso que importa.

Duas gerações, dois militantes, dois porra-loucas, dois que quer que sejam, dois amigos. Sem perceber começamos a falar de tudo, perdemos qualquer tipo de receio, de vergonha, duas pessoas sem limites morais e paradoxalmente com muito respeito pelo ser humano, é o que somos.

Falamos sobre um feminismo mais sútil que propriamente a luta dos direitos, o da cultura, do subconsciente coletivo, da ruptura com o modelo estrutural da sociedade. Isso passa, sobretudo, pela derrocada do macho e do seu mundo como conhecemos, isso envolve estrutura familiar, monogamia, mentalidade, comportamento. Eu digo que o mundo como sempre conhecemos não cabe mais nesse mundo, e manter as formas estruturais é cair em outro tipo de prisão, é a mulher, por exemplo, defendendo a monogamia cristã em que ela sempre foi enganada, muda o discurso, mas o caldo da cultura permanece; a moçadinha que tá vindo aí vai quebrar esse pote, o caldo vai mudar, o papo mudou na “práxis”; eu convivo com gente mais nova, não é teoria, as minas estão inaugurando outra era, outra prática, outro jeito de agir, não é mais o bla bla bla dos anos sessenta em que as mulheres falavam muito e faziam pouco.


Em plena aurora do século vinte e um o amor continua sendo um problema, a violência não, o amor livre é apresentado como ofensa, agressivo, a violência como solução, mas não é, isso é um fake antigo apenas, é só o grito desesperado do macho tentando salvar seu velho mundo, remando contra a maré e sendo vencido por ela, ou melhor, por elas. O amor é fêmeo, a violência é macha. Os homens estão meio “perdidinhos”, mas isso passa, é mais a gente, os mais velhos, os garotos já vem nos substratos das mudanças.

A real é que os machos estão meio tentando se achar, meio acuados, sem saber como agir, a libido anda meio apagada, é muita coisa secular ruindo, o mundo do vestiário masculino e da mesa do boteco não dá mais conta. Num mundo de oportunidades iguais, culpas eliminadas, liberdades consolidadas, o homem vai precisar, como nunca, rever tudo o que lhe disse a cultura, teremos que abrir mão dos ranços e vergonhas medievais, a vergonha do corno, o mito ridículo do macho alfa, a natureza monogâmica possessiva, a vaidade que envolve possuir alguém, a mania de controlar; ninguém controla ninguém nesses novos tempos, celular não é coleira, é uma maneira de conversar com alguém quando se vai fazer xixi, as pessoas têm oportunidades e fazem o que querem, os homens precisarão mais do que nunca se bastar, ter autoconfiança, sair desse mundo vulnerável do macho inseguro com medo do pau maior do outro, dessa contenda selvagem da disputa. Sem a violência animal, normalmente quem escolhe é a mulher, o homem é mais vulnerável psicologicamente em tudo, na hora do sexo, como disse Caetano “quem tem pau, tem medo”, no mundo equilibrado a verdade é que as mulheres são mais donas das situações, o machinho vai ter que dormir com essa e acordar com outra.

O macho alfa não é o mais forte na tribo humana contemporânea, as mulheres cagam e andam pra ele, tiram sarro, ao contrario, é um fraco, uma pessoa que precisa se autoafirmar o tempo todo é uma pessoa que não confia em si, uma pessoa que precisa ser o tal é porque não se acha o tal, precisa de aprovação, uma pessoa que precisa de todas não ama ninguém. A pessoa forte sabe quem é, sabe seus atributos e qualidades, seus defeitos, medos, limitações, e se vira com isso, sem precisar falsear uma cena, o macho alfa é um farsante. Todos os homens estão em decadência, o macho alfa é a caricatura mais patética e insegura de um mundo que já morreu e vive de apego a alguns fantasmas.

Marilia é a radical doce e inteligente dessa peleja da história, têm radicais agressivas, algumas até violentas, têm radicais moralistas que não percebem que quem criou essa moral foi o macho, e defendem a mesma moral deles tentando combate-los. Marilia sofre um pouco com suas policias e patrulhas, mas passa ao largo, é muito inteligente, uma das pessoas mais inteligentes que conheci. Se ela cair em uma armadilha geracional, o que é normal, eu cai e caio em tantas, ela conserta lá na frente, é uma pessoa movida pela curiosidade e pela critica. O que mais me fascina nela é que parece ser regida por outro tempo, como se viesse do futuro que está por vir, as coisas tão valorizadas pela sociedade que vivemos no sentido de pontuar diferenças não tem o menor valor para ela: se é mais velho, mais novo, se é bi, hetero, homossexual, se é preto ou branco, rico, pobre, bem ou mal sucedido. Ela não é uma teórica, apenas, precisa viver as teses que defende, e ela vive. Nesse sentido, para além de militâncias, equivocadas ou não, ela é o sinal da nova era, alfa, ele que parece forte, já era, Marilia que parece frágil, é a certeza vera de que a história não volta e não voltará atrás.

Convivi com três mulheres mais jovens nos últimos meses e fiquei entre surpreso, boquiaberto, assustado, e me sentindo indefeso, infantil e meio ridículo; depois fiquei feliz, que bom que moças tão jovens consigam contrapor tantas coisas a uma pessoa tão vivida como eu, que bom que me senti infantil perto delas, que me senti ridículo, isso está movendo revoluções dentro de mim, vinte anos em dois meses, troca profunda de posturas, atitudes, entendimentos de mim e do mundo, a história segue, mesmo com toda contramaré, a propósito, a história é uma palavra feminina.

Teju Franco  14/11/2019

domingo, 10 de novembro de 2019

Agora só falta você. Quem, eu?




 A Rita vem comigo desde a escola
 Da escada da Gazeta na Paulista
Do primeiro baseado
Das aulas matadas no Ibira
Do meu diário de motocicleta
A Rita desenha a minha rebeldia invencível
E esse garoto que se nega a me deixar
A Rita é o meu medo de mulher
E a superação dele
Lembro dos “Ficos”
Festivais internos do colégio Objetivo
Onde conheci “esse tal de rock and roll”
Eu dando garupa pra Gretchen
Sim, era a Gretchen mesmo
Maria Odete
Antes da Conga
A vida não mudou muito
Eu ainda tenho uma motocicleta
Quando a lua aparece
Ninguém sonha mais do que eu
Ainda ando em turma
Pensando bem, nada mudou
Nessa minha vida de astronauta libertado
Às vezes era feliz e sabia
Às vezes sou e sei
Sabedor de todas as tristezas
E coisas da vida
A gente se olha e não sabe se vai ou se fica
Mas quando foi diferente
Pergunto ao velho tênis surrado no armário
Sei que vou sair como entrei
Ninguém precisará mais me dizer
Como é estranho ser humano nessas horas de partida
Por mim morro de droga, de rock, de foda
Por mim esqueço esse detalhe chamado tempo
Vou sentar nas escadas da Gazeta
Apertar um e pensar
Agora só falta você
Porque não se pode ter tudo rs


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Para além da História






E o homem saiu
Muito maior do que entrou
Quem o queria destruir
O multiplicou
Não se mata a história com a mentira
Quem o queria cabisbaixo não teve o gosto
Teve o rosto da luta destemida
Da disposição dos heróis
Capazes de tudo
Ao martirizar um mito
O mesmo se multiplica
Seus inimigos não sabem agora o que fazer das dimensões que produziram
Todas as mentiras já vazaram a jato
Pelo ralo indefectível da história
Todos os farsantes foram desmascarados
Vencidos pelo espírito invencível
Inquebrantável do encarcerado em sua glória
O homem saiu muito maior do que entrou
Saiu como entrou
Nos braços do povo
E agora Globo
E agora imprensa do esgoto
E agora milicianos
Procuradores de dinheiro
Juízes ladrões
Delegados
Tucanos
Vosso herói virou advogado de porta de cadeia
Lula virou um gigante incólume
Destruíram o país para destruí-lo
Tudo em vão
O homem sobreviveu à prisão
Às mentiras
Ao massacre
E vai reconstruí-lo
Vocês só multiplicaram a sua glória
O que resta agora a vocês fazer
Nada
O que resta a Lula
A história
Por fazer
A vida
O amor
A verdade
A dignidade
Que não negocia com trapaças e vilanias

O homem saiu com muito mais sabedoria
Sabedor que é do seu papel gigante
Vocês uns homúnculos
Olhando para cima desorientados

Como sabedores seus inimigos são e serão para sempre do papelão que fizeram
Da trama suja em que jogaram seus nomes
O nome que queriam fazer esquecer está aí
Estará aí, na boca do povo
Para sempre
Ninguém sabe os nomes do carrascos
Sabem por quê?
Por que eles não são ninguém
Moro cada vez menor, mais sujo, mais preso ao crime organizado a sua volta
Lula cada vez maior, mais livre, incomensurável
Muito além, para além da história que já o havia consagrado
Só que maior


Teju franco 08/11/2019

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Merda, seu Milton!




Foi o show do Marcio Policastro no projeto “Tapete Mágico” do Max Gonzaga e da Lea Paioti; um show para 50 pessoas na sala da casa deles.


A casa do Max e da Lea tem abrigado dois eventos que se alternam: um mês é o Max Sarau, outro é o “Tapete Mágico”, os dois são um fenômeno.
Um Tapete que fará história na MPB. A gente chega a uma idade em que aprendemos a separar pretensão, ego trip, presunção e outras tolices mais, de realidade, da mais pura realidade.

Realidade é a bagagem que o Marcio Policastro, não se trata da realidade em oposição ao lúdico, não, a música dele é por vezes lúdica, lírica, mística, mas realidade no aspecto de não usar de nenhum truque, seja de interpretação, seja da feitura das suas músicas, letra, melodia, violão, ao contrario, é uma afirmação de autenticidade, o tempo todo, a espontaneidade rege a orquestra. Sabe a história do “poeta fingidor” do Pessoa, pois é, não é, Pessoa engana vocês, diversas vezes, o poeta não finge, ele lembra de algo que remete àquilo; é o show do Poli, as músicas vem do fundo da alma, as melodias e palavras são isopores que vem à tona e te lembram de algo, não podem ser contidas, como o ar mais leve que a água, elas emergem, não existe a necessidade do ator, do mergulhador, a cena já vem pronta, já fala por si só.

Quando eu vejo um grande show, o show fica em mim alguns dias, não acaba, fica rodando um videoclipe moto-contínuo na minha cabeça. “Merda, seu Milton!” irá fazer uma temporada na minha radio cabeça. Sim, eu poderia ser suspeito para fazer uma critica desse show, o cara é um dos meus melhores amigos, mas eu não sou suspeito, eu conheço a obra dele de trás pra frente, e, seu eu fiquei tão arrebatado é porque foi foda mesmo. Um artista chega a um momento da carreira que não precisa mais provar nada, fazer malabarismo nenhum, micaretas, apelações, e é esse descompromisso com a forma e esse compromisso com o conteúdo que dão essa densidade a obra do Poli.
Mas nada a ver com desleixo, ele é um cantor extremamente afinado, tem um timbre que pode ser doce e drive, uma “chorosidade” natural, não apelativa. O violão é peculiar também, meio Nelson Cavaquinho, meio sujo, estalado.

Tem outros artistas atuais que coloco no mesmo hangar, mas o Poli é um gigante do mesmo planeta dos Chicos, Caetanos, Toms, Miltons e por aí vai. Se tudo isso é feito sem muita estrutura, nossos shows são a força de trabalho da gente, imaginem com a “Tal estrutura”.

Uma frase que poderia resumir a canção do Poli seria “ você é convencido na primeira frase”, depois é só continuar ouvindo.

Acompanho nos últimos anos o trabalho dele, as criações, sou parceiro em algumas canções, e acho que ele está no ápice da sua carreira. É muito bom acompanhar isso, e o trabalho de outros amigos, não vou entrar em nomes senão seguiria uma lista extensa, mas criamos uma cena, para o bem e para o mal, existe uma espécie de confraria, um grupo grande de artistas bem diversos, diferentes, peculiares que se frequentam assiduamente. Não temos um nome, mas existimos; dentro desse espectro Marcio Policastro é um astro que divide sua orbita com público e artistas, ambos de muita sorte. Assistir um grande artista é sempre uma grande sorte na vida.

 Merda, seu Milton, que pena que você não pode ouvir “Marcio Policastro”, que há tanta distancia entre os mesmos, você diria a merda que se usa dizer no teatro, desejar boas coisas – merda, e não a merda, que também é real, de constatar o mal gosto que manda no mercado de música atual e que te levou a essa palavra merda, mas volto às saudações e votos dos espetáculos – merda para você e para nós, merdas ao Marcio Policastro, é dessa merda que precisamos e se mais houvesse não estaríamos nessa merda.
Teju 28/10/2019

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Que nunca vou abrir




Vou viver entre uma colcheia e outra
Em compasso de “um por dois”
Vou amar-nos por nós dois
Vou à festa de ação de graças
Vou à Páscoa dos Judeus
Vou sair na Mangueira
Vou viver feliz no silêncio
Como um pardal
Sem talento pra cantar
Vou disfarçar
Assobiar
Esconder o jogo
Embaixo da mesa da franqueza
Vou olhar as cartas
Não enviadas do meu amor
Meu amor não tem CEP
Nem logradouro
Estado, país, planeta
É como Deus
Só existe porque eu acredito
Em volta orbito
Com meu violino
Cheio de liras
E mentiras
Semibreves ao relento
Semicolcheias
Encantamento
Semínimas
Ínfimas
Semifusas
Com
Fusas
Sôfregas
Máximas
Maravilhas
Todas escondidas
Em uma Lira de Nero
Apagada
Em uma caixa de joias
Que nunca vou abrir
Ai de mim
                                                                                   Teju 23/10/2019

domingo, 20 de outubro de 2019

A poesia se quebra



 A Poesia é quebrável
Ela se quebra a uma palavra desastrosa
A um olhar desatento
A uma balada errada
A poesia sabe de tudo
Mas não suporta os insensíveis
Os elefantes em loja de louças
A poesia que faz e desfaz a moça
As mascaradas da música do Zé Keti
Existem exterminadores de poesia
A poesia não usa máscara
É olho no olho
Cuidado
Delicadeza
A poesia se quebra com desamor
Com macheza
O que era
 Deixa de ser
Pra nunca mais ser
Pois quando se quebra
É como uma noite de enganos
Sem conserto
Depois de quebrada a poesia não cola
Seus pedaços não se juntam
Ardem
Se repelem
Mudos
É a morte do verbo
É o fim da palavra
Rasga-se a página
Joga-se ao lixo
E busca-se o texto
Seu tecido
Em outro lugar    
                                                                            Teju           20/10/2019

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Éramos jovens e não sabíamos



 Ninguém sabe que é jovem
A gente só sabe da velhice
Outro dia, num show no ECLA
Uma jovem seduzida pelos meus encantos de cantar
E enganar a idade
Me disse da plateia que eu podia tudo
Eu respondi brincando em tom de ameaça
Não fala isso pra mim
Mas
Eu sei que não posso
Vinicius de Moraes podia tudo
Porque ele era Vinicius de Morais
Eu não sou Vinicius
Mas eu lembro de quando éramos jovens
E andávamos pelas ruas como no conto de Clarice

“Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.” Clarice Lispector

E andávamos pela cidade sem a pressa dos homens de negócios
Os jovens não tem pressa
Nem negócios
Eles têm todo o tempo do mundo como disse Renato
Andávamos lado a lado
E as ruas eram arcos de promessas de grandes luares a porvir
Mas as tardes eram infindas
Ruas que se entrelaçavam em ruas
E a gente sem pressa
Indo de nenhum lugar pra lugar nenhum
Só vivendo sem saber do tempo
                                                                     Teju 18/10/2019

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A violência do bem vai nos salvar do amor do Mal





 Quem precisa de amor
Esqueçam essa bobagem
O mundo precisa de disciplina
Regras
Moral de fachada
Militar
Quem precisa de amor pra ser feliz
O mundo precisa de autoridade de pai
Ditador
 Pastor
Os homens são tão felizes assim né
Construíram um mundo tão justo
Harmônico
Realizado
Você anda por aí e só vê felicidade
Nesse mundo edificado às regras do conservadorismo
Amor é um desvio que só traz pessoas frustradas
Agressivas
Autoritárias
Não é mesmo?
Vejam esses gays agredindo e matando héteros pelas ruas
Pessoas que amam indiscriminadamente
Não precisamos de John Lennon
Vinicius de Morais
Paulo Freire
Papa Francisco
Lula
Mandela
Chico Buarque
Leila Diniz
Precisamos de Jair Messias Bolsonaro
Malafaia
Edir Macedo
Sergio Moro
Donald Trump
Damares
Weintraub
Olavo de Carvalho
Não é verdade?
Notem como estamos mais prósperos
Nesse governo
Com mais esperanças e perspectivas
Leves
Felizes
“Cristãos”
A abençoada desigualdade social
Joga pessoas nas ruas todos os dias
Para deus poder cuidar delas
A cristandade mata índios
Pobres agricultores
Jovens negros
Com a graça de Deus, nosso senhor
Muitas almas indo para o Senhor
Precisamos de ministros Barrosos
Deltantans dinheirois
Regras radicais para conter essa doença do amor

O sexo
A felicidade orgânica e social de amar
Não é nada perto
De um soldado bem disciplinado
Um Brilhante Ustra
Um Major Olimpio
Um Mourão
Um Villas Boas
Uma arma de fogo na mão
Vamos acabar com os imorais
Do amor indiscriminado
Devíamos marcar as pessoas adeptas desse desvio chamado amor
Marcar como marcamos os judeus
Tatuar um coração para que esses monstros sejam identificados nas ruas
E a humanidade possa dar sequencia a esse mundo maravilhoso
Que construiu para seus descendentes
O problema do mundo é o amor
Mas a violência vai resolver tudo
Assim esperam os homens de bem
Desse mundo maravilhoso.


Teju 16/10/2019

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Cine Metro



Baixa essa bola seu louco desavisado
Tá pensando o que
Que a vida é um circo místico
Que tem trapézio o tempo todo
Plateia
Bailarina pra se amar
Baixa essa bola
Esses tambores são fakes
Vá pra rua ganhar (perder) a vida
Leve teu circo no bolso
Quem sabe na folga do almoço
Ou no fim da tarde
Quando as cores dos mundos se misturam
E o céu aquarela a cidade de maravilhas incertas
Andando pela avenida central
O circo de bolso
Te convide para um filme
A cinelândia se acenda
E ali naquele hiato de tempo e lugar
Talvez até ela possa estar
Te esperando com um saquinho de pipoca
E um sorriso que envolve tudo
A mão que segura e puxa do vácuo
É difícil viver entre os mundos
Onde ela aprendeu a fazer isso
Criar a casa onde não existe nada
A cidade se atropela
Me despeço da namorada
E volto pro nada em que se ganha a vida
Saio do meu Cine Metro encantando
Para o alarme da porta do metrô.

Teju 14/10/2019

sábado, 12 de outubro de 2019

O Furto



 Roubaram todos os corrimãos do mundo
Não tem onde se segurar
Sabe o louco do Piazzolla
Então...
“Parece que solo yo lo veo
Porque él pasa entre la gente y los maniquíes le guiñan
Los semáforos le dan tres luces celestes
Y las naranjas del frutero de la esquina
Le tiran azahares”
Só eu o vejo
Mas a tarde é uma moça com duas bandeiritas verdes em cada mão
Lhe dando passagem
E Tudo em volta parece insano
A realidade é insana perante a loucura
A realidade não tem jeito
Por isso vivo preocupado com outras coisas
Imprevisíveis como os guardanapos do Zé Edu
Haveremos de escrever em meio à catarse
Que fizemos de nós
Louco, louco
Quando anoitece em minha portenha solidão


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Quase




 Quase é uma palavra escorregadia
Entre o que pode e o que poderia
Entre a ação e o arrependimento
Por ela se esvai uma chance
Uma historia
Uma vida
Um amor
Um beijo
Quase
É uma frase reticente no vento
Deixa as pessoas no vácuo
Do tempo
Ou mortas de culpa
O que se devia fazer
Ou deixar de fazer
A todo momento
A vida é tão implacável
Quanto a palavra “quase”
Não tem choro
Para quem nela escorrega
Não tem gozo
Para quem não escorrega
Não tem tempo, nem pausa
Nem descanso após o round
Cafuné na rede
A todo momento o tiro dispara
A corrida recomeça
A boca diz e desdiz
O corpo salta esguio, sem jeito
Por um triz
As mãos estendidas em busca dos aros
Nos ares
Quase
Por pouco
Ganhaste o troféu?
Quase
Morreste na praia?
Quase roubaste o beijo
Quase falhaste
Foste feliz
Infeliz?
De quase em quase
Se segue a vida
Sonhando
Ou amargando
Quase 
Te define
Quase
Caberá em tudo
Só não cabe no fim
No fim não tem quase
Nem palavra
O fim é mudo

Teju 09/10/2019

domingo, 29 de setembro de 2019

Reconhecer







Reconhecemos algumas pessoas
Outras não
Reconhecemos amigos
Amores
Tesão
Reconhecemos a comunicação misteriosa dos seres
Como nós, 
Além de nós
Mundo em que meia palavra basta
Um olhar conta um livro
Um toque tateia o fundo
É nesse espaço
Que se reconhece
Um elo
Outro elo
Entre eles tudo o que pode passar
Para quem quiser deixar
E o tempo
Essa areia preciosa
Pode valer mais que ouro
E menos que areia
Mas não basta reconhecer
Precisa se atrever
Merecer
Senão é como olhar sem por a mão
Desejar sem ter
Saber sem fazer

Teju 29/09/2019