Eu estava lá quando morri aos nove anos
Não foi tão simples quanto deveria
Infelizmente eu nunca fui simples
O mundo azul claro dos oito anos foi se fechando
Meu pai faliu com o milagre do Brasil
Uma nova escola cinza religiosa me embrulhou num
uniforme meio nazista
Asfixiante
Padres pedófilos, tarados
Meninos e meninas separados
Comemoração cívica todo dia exaltando a carnificina da
ditadura
Morri por alguns anos...
Minhas depressões que não me matam, mas são tão
resilientes quanto eu
Ficaram um tempo me torturando em provas bimestrais
Fiz da primeira namorada imaginária
Uma garotinha cheia de personalidade
Uma carta na manga, um ás
Uma tábua de surf da salvação
Para um drama infanto-juvenil de sessão da tarde
No sofá da masturbação
Passando de ano eu fui
Nunca repeti um ano
Medalhas de honra ao mérito
Já me exilando no fundão da classe
Dos deletérios
Com várias advertências de comportamento
Boletins de ocorrências para os pais
Os roqueiros de cemitérios
Meus pecados assinados em cadernetas pareciam troféus
E eu queria mais...
Comecei minha vida de desclassificado
Nunca repeti um ano, só fracassos
E gozos celestiais
Há rá rs
Alguns pecados mortais
Farras levitacionais
Virei do mal
Nunca repeti um ano
Mas acho que cheguei ao mundo com dez anos de atraso
Atrasado
E coisa e tal
Me arrumo em cima da hora no banheiro
Andei morto
Dos nove anos à adolescência
Acordei em cima de uma motocicleta com o vento
cantando
“Caminhando contra o vento”
Olha eu ali, vou buscar aquele cara
Um instante, maestro
Mas ele é rápido como a motocicleta em que anda
Manifesto
- Ei, vem aqui.
Quer garupa?
Ele veio, eu fui
Segui
Upa!
Uns anos divertidos em cima de uma moto parecida com a
que tenho hoje
Vida de estreia
Cada moça, um cabelo diferente
Diferente ideia
Vida de Romeu
Na Pauliceia
Em cada bailinho uma Julieta
Uma epopeia
Um Prometeu
A turma do bairro
Os acampamentos
Ela chegou
Foi rápido, um sopro
Uma domingueira no clube
Um desvairar, aluarar
Começou minha vida insalubre
Linda como aquela loirinha que andou anos comigo
Até a faculdade
Como a gente se amava!
Minha inteligência critica mui amiga não me trouxe a
maturidade, mas
Um bocado de contestações
e rebeldias
Vaias e salvas
Larguei o Romeu motoqueiro, rei dos rachas, na discoteca
Troquei por um disco do Dylan
O where have you been
my blues eyes sun
E entrei para a esquerda clandestina
Na paranoia braba
Canto Bravo
No chumbo da rotina
Daqueles militares imundos
Dos centros acadêmicos chatos
Abaixo a ditadura
Lá tava eu... deixando Carl no velório
Mortinho da silva
E a minha loirinha tão amada
Sofro até hoje de remorso
Tchau cabelo de milho
Lá tava eu... deixando Romeu no velório
Mortinho da silva
E entrando numa guerra que podia me deixar de fato
Mortinho da silva
Foi legal e cruelmente surpreendente revelador,
dolorido
Desconfiar da sanidade do mundo
Mas foi legal
Descabido
Olha eu ali, virei hippie, comunista, divergente, sei
lá quê, tropicalista?
Desbundei
Ei, vem aqui.
Ele veio, eu fui...
Segui
Depois de mergulhar de cabeça na luta
Na música, no drama da história bruta
No perigo sem glória
Mandar meu eu formado e bem financiado a PQP
Pra salvar o Brasil, o mundo
Like a rolling stone
E “rolling” pelos botecos cabeças eu a conheci
Ela veio pronta, parecia parte de um roteiro
Repleta de teclas e poesias
De Minas, do Rio, de Shakespeare, da Maria de
Figueiredo
Foi quando uma epidemia de morte se deu em casa
O câncer do meu pai resolveu desinventar o mundo
Instituir o medo
E assim foi
Foi-se tudo
Nossa!
Acabou-se o mundo”!
Apocalipse now, total
Meu mundo caiu
Eu era alguém que nunca existiu
Morto vivo faltei ao meu terceiro velório
Morrer é perigoso
Viver também...disse um João
Diretas já, vencemos.
Votamos, vivemos.
Cabra da peste
São os “morredouros” da vida
Passei anos, depois de salvo pela “Zanza”
Zanzando por ai
Mal sucedido zumbi
Jovem colecionador de mortes
Em que não morri
Fracassei de morrer
E aí?
- Sobrevivi
Vi a vida clarear num tanto
Depois desencanto
Depois canto
Ilusão
Canto
“Por que o instante existe”
Canto
Por que ela existe
Estando ou não
Assim como eu
Teju Franco 24/08/2022