sábado, 10 de dezembro de 2022

Eta vida besta, sô!


Eta vida besta, sô!


A noite chegou com uma solidão de cinzeiro de ex fumante
Chegou a noite com a solidão espumante
Da garrafa vazia
Vazio frisante
Os ponteiros são flechas de não aventuras
Horas a se matar
Bang bang (se pelo menos fizessem barulho)
A cerveja nunca está na temperatura
A vida é um horário de verão sem calor
A motocicleta está com preguiça
Seu rebelde anda em fila de auxílio
O coração anda tão empolgado quanto a locutora do aeroporto
Ou do supermercado
 Liquidando esperanças
Palavras cruzadas são poemas épicos
Salas de espera são eventos
E eu aqui esperando um vento
Um insano dezembro
Uma besteira qualquer
Eu que nunca fui bom em viver sem paixão
Comprei um temporizador de coração de quatro estações
Quatro Outonos
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Não gosto de Sol
Não vou a casamentos
Nem de viúva, nem de espanhol
Sou latino antiamericano
Roqueiro sem guitarra
Rebelde sem pausa
Perdi a preposição num pronome neutro
Meu gênero é "humanes"?
Sou um Buendia pós-new-gótico
Me trocaria por um protótipo robótico
Daqueles do Blade Runner
Queria andar no parapeito por uma Dama de Vermelho
Que nada, só despeito
Lembro do Carlos de Itabira
Eta vida besta, sô!


Teju Franco 10/12/2022


 

sábado, 19 de novembro de 2022

Escolhas


 

Ela era vibrante

Havia uma juventude que conferia a tudo uma emoção estreante

Ela era leve

Flutuava sobre o peso das coisas com calma, compreensão

Vivia como uma artista

Colhia o detalhe de cada beleza em seu dia a dia

Como a cuidar de um jardim

Ela era feliz

Um humor contornava as coisas boas e más com espirito

De festim

Ela era generosa

Distribuía seu talento sem vaidade

Percebia e valorizava todos a sua volta

Suas palavras eram cuidadosas

Em buscar a melhor leitura do seu texto existencial

Sem magoar seus semelhantes

 

Ele era frio

Havia uma canseira velhaca em sua rotina de repetir as coisas

Ele era pesado

Pesava sobre si as maldades e insensatezes do mundo

Vivia como um ressentido

Colhia recalques pelo reconhecimento que julgava merecer e não tinha

E se envenenava em silêncio

Ele era soturno

Uma violência radicalizava as coisas inevitáveis das imperfeições humanas

Ele era egocêntrico

Nutria-se da própria vaidade

Destravava fácil o tambor das palavras como quem usa uma arma

Atirava seu texto como uma metralhadora giratória

Na dúvida partia para o ataque

 

“Ela” encontrou “ele”

E ali ficou

Buscando a melhor leitura

Do texto que não batia

Compondo argumentos para justificar o dia a dia

Os dias se sucederam

Se acomodaram aonde não deveriam

 E ela já não sabia como sair

Nem por que ficava

Mas ali tudo que lhe era virtude se desperdiçava

Às vezes uma bofetada em forma de palavra a sacudia

Ela até pensava em reinventar o mundo

Cair fora

Mas já não havia força

Nem se ele mandasse

Já se acostumara a sucumbir sua juventude ao velhaco ranzinza

A ancorar sua leveza nas botas do troglodita

A trocar as cores das coisas pela ranço da vida sempre cinza

 

Não era uma prisão

Nem tampouco satisfação

Nem era mais amor

Quando se mata o seu melhor por alguém

Mata-se a emoção, a paixão, a ilusão, a essência

Troca-se o viço pelo vício

Não há como culpar a existência e suas imprecisões

Quando a escolha é infeliz

Ela era uma janela aberta para o mundo

Ele um quarto fechado

Mas o amor que acerta ou erra nada diz

Quem há de dizer

Parece óbvio o erro pra quem olha de fora

Mas não é

Viver é sempre por um triz

Mas as escolhas podem ser pra vida toda

Se alguém assim quis...

Teju Franco 19/11/2022 


 

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

O sal das coisas





A paixão é o sal das coisas
Sem ela a vida não vale um picolé
Não viva sem ela por opção
Por falta dá até pra entender
Há que se viver de um jeito ou de outro
Mas se por acaso o destino lhe dá o ouro do amor
Não deixe passar
Mande o medo se catar
Arrisca
Nada que se possa perder vale perder essa viagem
Por quê?
Por que no fundo da realidade mais profunda
É tudo passageiro
É tudo uma miragem
E arriscar é viver
Suportar é sobreviver
A vida sempre vale mais
A vida vale tudo
Mais do que mais que tudo
Não desperdice
Dando certo
Dando errado
Saia na chuva
Pro bem e pro mal
Dance no molhado
Dê outra chance quando as coisas não estão dando o que voçê esperava
Se você quebrar a cara
Pelo menos saiu do lugar em que vegetava
Até as plantas amam
Mas a gente pode mudar de lugar


Teju Franco 03/11/2022
Mensagem entrelinhas para minha novíssima ilusão super-sport
Francisco C

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Funeral



 Eu estava lá quando morri aos nove anos

Não foi tão simples quanto deveria

Infelizmente eu nunca fui simples

O mundo azul claro dos oito anos foi se fechando

Meu pai faliu com o milagre do Brasil

Uma nova escola cinza religiosa me embrulhou num uniforme meio nazista

Asfixiante

Padres pedófilos, tarados

Meninos e meninas separados

Comemoração cívica todo dia exaltando a carnificina da ditadura

Morri por alguns anos...

Minhas depressões que não me matam, mas são tão resilientes quanto eu

Ficaram um tempo me torturando em provas bimestrais

Fiz da primeira namorada imaginária

Uma garotinha cheia de personalidade

Uma carta na manga, um ás

Uma tábua de surf da salvação

Para um drama infanto-juvenil de sessão da tarde

No sofá da masturbação

 

Passando de ano eu fui

Nunca repeti um ano

Medalhas de honra ao mérito

Já me exilando no fundão da classe

Dos deletérios

Com várias advertências de comportamento

Boletins de ocorrências para os pais

Os roqueiros de cemitérios

Meus pecados assinados em cadernetas pareciam troféus

E eu queria mais...

 

Comecei minha vida de desclassificado

Nunca repeti um ano, só fracassos

E gozos celestiais

Há rá rs

Alguns pecados mortais

Farras levitacionais

Virei do mal

Nunca repeti um ano

Mas acho que cheguei ao mundo com dez anos de atraso

Atrasado

E coisa e tal

Me arrumo em cima da hora no banheiro

Andei morto

Dos nove anos à adolescência

Acordei em cima de uma motocicleta com o vento cantando

“Caminhando contra o vento”

Olha eu ali, vou buscar aquele cara

Um instante, maestro

Mas ele é rápido como a motocicleta em que anda

Manifesto

- Ei, vem aqui.

Quer garupa?

Ele veio, eu fui

Segui

Upa!

Uns anos divertidos em cima de uma moto parecida com a que tenho hoje

Vida de estreia

Cada moça, um cabelo diferente

Diferente ideia

Vida de Romeu

Na Pauliceia

Em cada bailinho uma Julieta

Uma epopeia

Um Prometeu

A turma do bairro

Os acampamentos

Ela chegou

Foi rápido, um sopro

Uma domingueira no clube

Um desvairar, aluarar

Começou minha vida insalubre

Linda como aquela loirinha que andou anos comigo

Até a faculdade

Como a gente se amava!

Minha inteligência critica mui amiga não me trouxe a maturidade, mas

 Um bocado de contestações e rebeldias

Vaias e salvas

Larguei o Romeu motoqueiro, rei dos rachas, na discoteca

Troquei por um disco do Dylan

O where have you been my blues eyes sun

E entrei para a esquerda clandestina

Na paranoia braba

Canto Bravo

No chumbo da rotina

Daqueles militares imundos

Dos centros acadêmicos chatos

Abaixo a ditadura

Lá tava eu... deixando Carl no velório

Mortinho da silva

E a minha loirinha tão amada

Sofro até hoje de remorso

Tchau cabelo de milho

Lá tava eu... deixando Romeu no velório

Mortinho da silva

E entrando numa guerra que podia me deixar de fato

Mortinho da silva

Foi legal e cruelmente surpreendente revelador, dolorido

Desconfiar da sanidade do mundo

Mas foi legal

Descabido

Olha eu ali, virei hippie, comunista, divergente, sei lá quê, tropicalista?

Desbundei

Ei, vem aqui.

Ele veio, eu fui...

Segui

Depois de mergulhar de cabeça na luta

Na música, no drama da história bruta

No perigo sem glória

Mandar meu eu formado e bem financiado a PQP

Pra salvar o Brasil, o mundo

Like a rolling stone

E “rolling” pelos botecos cabeças eu a conheci

Ela veio pronta, parecia parte de um roteiro

Repleta de teclas e poesias

De Minas, do Rio, de Shakespeare, da Maria de Figueiredo

Foi quando uma epidemia de morte se deu em casa

O câncer do meu pai resolveu desinventar o mundo

Instituir o medo

E assim foi

Foi-se tudo

Nossa!

Acabou-se o mundo”!

Apocalipse now, total

Meu mundo caiu

Eu era alguém que nunca existiu

Morto vivo faltei ao meu terceiro velório

Morrer é perigoso

Viver também...disse um João

Diretas já, vencemos.

Votamos, vivemos.

Cabra da peste

São os “morredouros” da vida

Passei anos, depois de salvo pela “Zanza”

Zanzando por ai

Mal sucedido zumbi

Jovem colecionador de mortes

Em que não morri

Fracassei de morrer

E aí?

- Sobrevivi

Vi a vida clarear num tanto

Depois desencanto

Depois canto

Ilusão

Canto

“Por que o instante existe”

Canto

Por que ela existe

Estando ou não

Assim como eu

 

Teju Franco 24/08/2022