sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

A Máquina do Tempo


Quantos homens eu já fui

Que me perdi de não saber contar

Nem contar

 

Me contaria pelas canções?

           Pelos amores?

São bons contadores

As canções e os amores

 

              O primeiro amor que abandonei

O segundo que abandonei

O terceiro que não reconheci

O quarto que eu perdi

O quinto que nunca tive

O sexto que a morte levou

O sétimo que não chegou

Minha máquina do tempo

Alucinada

Fora de controle

Canta:

 

- Rosas, violinos vão chover

Sobre o telhado que você

Escorregou sem perceber

 

- Um coração sem dono

Sem ter pra onde ir

Um telefone que nunca faz trim

 Lua traída em postes

Vomita a noite e morre

Me deixa enfim dormir

 

-Sonambulando

Estática a Lua

E eu minguante no Ap

Corujas e sacis, Tvs

Cochicham de você pra mim

 

- Foi ontem

Eu te esperava na porta da escola

Nosso diário de motocicleta

Todo o tempo do mundo e nada pra fazer

 

Foi ontem

 O teu cabelo loiro na piscina

O Belchior , o coração selvagem

O beijo escondido na blusa da paixão

Foi ontem

 

Foi quando?

 

- Aquele engano levando ao destino

Aquela música quebrando o impossível

Aquele imã incognoscível

Aquele posto azul

Aquele posto azul, lilás

Aquela lua de espuma e cerveja

Aquele frio de fogo invisível

Aquela boca dublando as palavras

Aquela blusa que te emprestei

 

Cada eu perdido

Na galeria dos anos

Dos versos, das melodias

Nas curvas e dobras do tempo

Eis-me

Ninguém se perdeu na vertigem do tempo

Foi se juntando num mosaico de colagens

 

Abro a janela e trisca o Mustang de volta para o futu-           

ro como num raio

 

O tempo deve ser um cientista louco

 

A mesma Lua que apareceu quando ouvia Rita

Lee reapareceu

E, como antes, ninguém sonhava mais do que eu

 

Estamos aqui e ali

 Máquina do tempo

 

Viver é impreciso

Conta ontem a poesia

Que é só o que eu preciso hoje

Pra encarar esse novo dia

Que perderei amanhã

 

Teju Franco 25/12/2020

 

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