Quantos homens eu já fui
Que me perdi de não
saber contar
Nem contar
Me contaria pelas
canções?
Pelos amores?
São bons contadores
As canções e os
amores
O primeiro amor que
abandonei
O segundo que
abandonei
O terceiro que não
reconheci
O quarto que eu
perdi
O quinto que nunca tive
O sexto que a morte
levou
O sétimo que não
chegou
Minha máquina do
tempo
Alucinada
Fora de controle
Canta:
- Rosas, violinos
vão chover
Sobre o telhado que
você
Escorregou sem
perceber
- Um coração sem
dono
Sem ter pra onde ir
Um telefone que
nunca faz trim
Lua traída em postes
Vomita a noite e
morre
Me deixa enfim
dormir
-Sonambulando
Estática a Lua
E eu minguante no Ap
Corujas e sacis, Tvs
Cochicham de você
pra mim
- Foi ontem
Eu te esperava na
porta da escola
Nosso diário de
motocicleta
Todo o tempo do
mundo e nada pra fazer
Foi ontem
O teu cabelo loiro na piscina
O Belchior , o coração
selvagem
O beijo escondido na
blusa da paixão
Foi ontem
Foi quando?
- Aquele engano
levando ao destino
Aquela música quebrando
o impossível
Aquele imã
incognoscível
Aquele posto azul
Aquele posto azul, lilás
Aquela lua de espuma
e cerveja
Aquele frio de fogo
invisível
Aquela boca dublando
as palavras
Aquela blusa que te
emprestei
Cada eu perdido
Na galeria dos anos
Dos versos, das
melodias
Nas curvas e dobras
do tempo
Eis-me
Ninguém se perdeu na
vertigem do tempo
Foi se juntando num
mosaico de colagens
Abro a janela e
trisca o Mustang de volta para o futu-
ro como num raio
O tempo deve ser um
cientista louco
A mesma Lua que
apareceu quando ouvia Rita
Lee reapareceu
E, como antes, ninguém
sonhava mais do que eu
Estamos aqui e ali
Máquina do tempo
Viver é impreciso
Conta ontem a poesia
Que é só o que eu preciso hoje
Pra encarar esse
novo dia
Que perderei amanhã
Teju Franco
25/12/2020

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