sexta-feira, 29 de setembro de 2023

O Noveleiro







O Noveleiro


Eu sou da época que as novelas monopolizavam o país, não escapava ninguém: pai, mãe, vô, vó, filho, filha, empregada, cachorro, papagaio, se bobear até os peixinhos do aquário grudavam no vidro pra não perder o último capítulo.

Nós, os garotos, fingíamos que não gostávamos – novela é coisa de mulher! É, mas na hora que entrava a vinheta, a gente “tava” lá como quem não quer nada. Sofríamos com aquelas historietas clichês pra saber quem era o pai ou a mãe verdadeira dos mocinhos da trama. A minha vó era daquelas que se encontrasse a vilã no supermercado, voaria no pescoço dela sem pestanejar, assistia os capítulos xingando os vilões o tempo todo, era uma novela a parte ver minha vó assistindo novela.

Certa vez, no meu curso de teatro com a grande atriz, professora e diretora Myrian Muniz, ela nos passou como tarefa um exercício chamado porão, que consistia em levantar todas as memórias sonoras musicais desde os primórdios da vida que a gente pudesse lembrar. Lembrei de canções da infância, a maioria temas de novela, comerciais antigos de TV, duas músicas que me faziam chorar quando neném que eram “Adeus Belém do Pará” de Dorival Caymmi ( acho que era por causa da frase “adeus meu pai, minha mãe, adeus Belém do Pará) e outra que era um baião de Paulo Santoro e que chegou às rádios na voz de Carmélia Alves ( acho que era porque o bichinho abandonava a menina que gostava dele). Fora isso, fora as músicas das novelas, lembrei apenas do comercial de Natal da Varig, lindo, aquele que começava “Estrela brasileira no céu azul ...”, outro jingle que lembrei era do mingau Avecrem que sempre fazia eu me levantar daqueles quadrados em que trancavam os bebes, lembrei a música do Biotônico Fontoura também, que eu adorava. Não consegui me aprofundar com detalhes nos remotos anos do meu passado.

Anos depois, com o advento do Youtube, eu pensei – nossa!, agora dá pra fazer um porão perfeito da minha vida, ano a ano, escrevi num caderno todos os anos da minha gloriosa existência, foi quando esbarrei sem querer num pedaço de uma novela antiga chamada “Anjo Mau”; após assistir um pedaço, lembrei em segundos de tudo que vivi naquele ano: meu inimigo da escola, a moça que eu amava secretamente, meus amigos de bairro. A vida ressurgia em flashes, o primeiro porre no camping, os sorvetes ao domingo na Brunella, os sanduiches do Chico Hamburguer sábados à noite, o beijo no bailinho de garagem do Zé Orlando, o dia em que pedi a fulana em namoro, a troca de sopapos com o insuportável Douglas na escola, tudo ali. Que ano era esse? Fui lá ver: 1976. Pronto, descobri a chave do túnel do tempo: as novelas. Dei uma geral nas novelas disponíveis, em suas trilhas musicais, e com as novelas e as músicas pude identificar, com detalhes, ano a ano, as passagens da minha vida.

Em 1977, fui salvo pela poderosa e exuberante Kiki Blush (Eva Tordor) e suas filhas maravilhosas: Fernanda (Lucélia Santos com 19 anos), Milena (Aracy Balabanian), Renata (Thais de Andrade), Regininha, a caçula (Gisela Rocha) e o irmão Paulo (João Carlos Barroso). Daí pra frente fui remontando os anos da minha vida, pautados pelos anos de cada novela. Gabriela foi uma explosão de hormônios adolescentes, Dancin’Days foi quando comecei a pensar na vida criticamente, e por aí vai ...

A gente se apaixonava pelas atrizes, odiava os vilões, chorava copiosamente nas cenas de amor, nos sentíamos vingados e redimidos em cada final feliz. Quanta banalidade, mas era uma forma de se abstrair das nossas vidinhas sem emoção. As produções eram bem mais pobres e precárias, e pareciam mais com a vida da gente, não eram como agora que mais parecem seriados americanos. As músicas sorteadas para as trilhas sonoras das novelas viravam hits e tocavam dia e noite por meses, às vezes anos. Quem não se lembra de “Meu Mundo e Nada Mais” de Guilherme Arantes lançada na novela “Anjo Mau” em 1976, ou “Rock and Roll Lullaby” cantada por BJ Thomas na novela “Selva de Pedra” em 1972, ou “I Loved You” cantada por Fred Cole em Dancin’Days, “Filho Único” de Erasmo e Roberto Carlos (tema divertido do Netinho de Locomotivas), “Coleção” de Cassiano, também na “Locomotivas”? Hein!? Quem não se lembra?

Era outra época, memórias analógicas, as coisas não tinham menos lógica e mais emoção, tesão, paixão, sei lá. As pessoas se envolviam organicamente nas tramas. Antes dos robozinhos dos games, as pessoas queriam se apaixonar, viver grandes paixões como os protagonistas das novelas, queriam uma saga heroica para as suas vidas repetitivas de rotinas imutáveis. Na verdade, é compreensível, a vida industrial da época e cibernética da atualidade nos nega tantas coisas.

Então era melhor chorar com a Julia Matos (Sonia Braga) se encontrando com a filha Marisa (Glória Pires), ficar pensando em quem matou Odete Roitman ou Salomão Hayala, vibrar com a Onça Juma Marruá (Cristiana Oliveira) se entregando ao playboy Joventino (Marcos Winter).

Na verdade, o que se quer é emoção e, como o mundinho capitalista selvagem tira tudo das pessoas, pra essa falta de emoção se inventam esses remédios como compensação, é uma espécie de projeção. De Janete Clair a Shakespeare, o que o ser humano precisa é emoção, amor, paixão, desafios. Sinto uma profunda ternura pelos atores da TV que de uma certa maneira acompanharam a minha vida, o meu desenvolvimento como pessoa. Alguns são escanteados após envelhecerem, principalmente as mulheres, vítimas preferenciais da ditadura da beleza, aposentadas à força depois de tantas glórias e fama. Fico pensando como ficam as cabeças dessas pessoas, em suas casas, depois de tudo que viveram. Sigo algumas atrizes nas redes sociais, algumas na ativa ainda, outras não, algumas são minhas amigas no Face, como Wanda Stefânia, Sandra Barsotti, Bete Faria, Sonia Braga, Paula Burlamaqui, Maria Zilda, outras viraram amigas pessoais como Tássia Camargo. Essa gente faz parte da vida da gente.

Atualmente dei de assistir novelas antigas, sei lá por quê. Acho que sei, é pelo mesmo motivo de antes, pra abstrair um pouco dessa vida besta.



Teju Franco (24/09/2013)


 

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Ao Lado


 Ao Lado

 
As coisas sempre estiveram ao lado
Trabalhamos silentes ao lado das máquinas
Das caixas registradoras
Dos boletos
Dos extratos
Vivemos assim relapsos
Sobreviventes ao colapso das palavras
Passamos entre atônitos e indiferentes
À margem do trânsito das cidades
Trabalhamos por nada além do testemunho do caos engarrafado
Ninguém nos paga, nem nunca hão de pagar
Não viemos pra ganhar
Assim gastamos o dia
Na poesia...
Ao relento esperamos à noite
ávidos por algumas gotas de luar
Atravessamos o serão das horas a beber e cantar
Aqui desse lado, fora dos lados
Nesse espaço de ninguém
Como peixes livres, fora do aquário
Embasbacados voyers
Do apocalipse capitalista
Vivemos e acordamos em tempos curvados no cosmos
Fora da pista
Como se não fizéssemos parte
Desse universo
Cego de arte
À parte de tudo
As coisas estão ao lado
O poeta nunca sabe onde está
Nesse ludo
As coisas estão ao lado
O poeta...
Teju Franco 12/09/2023

Plenas



Plenas


As flores não envelhecem
Elas estavam na Belle Epoque, em Woodstock
Em Tara
Na "Primeira noite de um Homem"
Elas estavam no porão de Anne Frank
Na primavera de Praga
No Jardim de Julieta
Na "Beleza Roubada"
Estavam lá as mesmas flores
Eternas margaridas
Rosas iludidas
Orquídeas Selvagens
As flores ficam
A gente passa
As flores nunca murcham, nem morrem
Belezas não morrem
Seu único infortúnio é não serem colhidas por quem não as sabem ver
Mas nem por isso morrem
Ficam lá indiferentes
Espalhando belezas e aromas
Pois a sua existência exuberante lhe basta
Poderíamos ser assim
Pois pra isso nascemos
E fingimos que não sabemos
E inventamos o que não temos
Tivéssemos a sabedoria vegetal
A vida se bastaria em si
Único tesouro
Ar, terra, água e sol
Real caminho
Mas com tantas flores
Tulipas, crisântemos, girassóis, Dálias, flores do campo, Damas da noite
Escolhemos os espinhos
E vivemos assim mesquinhos
A criar Deuses fakes
Pra sermos eternos como as flores
Que nada sabem
Além de serem plenas de vida Teju Franco 12/09/2023

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Começo


Começo


Aprendi a colher detalhes
Frações de magia imperceptíveis
Olhar atrás do vidro das aparências
Das máscaras
Identificar o par certo no baile fugaz da existência
A vida é um sopro
Disse alguém que viveu distraído
Guardo no sorriso a testemunha do que fui
De cada vão momento
Venci, perdi, venci
Perdi, venci
Hoje nada disso importa
Bem ou mal atravessei as portas
Sem mágoas, sem rancor
Experimento insólita felicidade
Podia ser melhor, mas não foi
Foi só verdade
Como um dia que amanhece na praia
Sem ontem, nem amanhã
Porque enfim o tempo é isso
Só um nome
Uma matemática assassina
Passamos por ele e real mesmo são só as águas que molham os pés
As rugas que talham a pele
Aprendi a ser indiferente
Como um bicho
Vivo de presente
Vivo o que posso
O que não posso, desapego
Sem remorso, sem culpa, sem trauma
Olho no espelho da alma e me sinto no mesmo lugar
Esse lugar estranho, repleto de novidades
Sou o que mereço
Aqui nesse lugar
Nesse mesmo lugar
Chamado começo
Teju Franco