terça-feira, 22 de junho de 2021

E você?




 Sofrer de amor

Tem coisa pior?

- Claro que tem

Tudo é pior que sofrer de amor

Principalmente se for um amor

DAQUELES

Daqueles

Tudo na vida é pior do que sofrer de amor

Só sofre de amor quem está muito vivo

Pulsante

Só sofre de amor quem brilha dele

E quem brilha de amor não está tão mal assim

Precisamos de amores

Cada vez mais

Se não for por gozo

Que seja dor

A dor de quem está vivo

De quem não desistiu

Só fracassa quem não desistiu

Os desistentes não fracassam

Fracassei novamente

Como disse o imortal Custódio Mesquita

Mas não sonhei em vão

Como o contrário que o mesmo disse

Nunca se sonha em vão

A graça da vida é o jogo entre o sim e o não

Uma trama de momentos

E tempos

 

Vai meu amor

Eu te entendo

Perdemos

Algo

Me mate

Mas não me tire o risco da vida

Que late

E morde

Quero ser essa boca aberta

Ao fim das noites

Para toda alegria

E toda tristeza

Afago, açoite

Todo amor

E desamor

Quero isso

Não aquilo

Sem risco

Sem cor

Quero tomar no cu

Se for de amor

Me deixe aqui a ver navios

Por favor

Sentirei a dor em cada célula

Cantarei sobre os fios

Elétricos

Do meu sistema nervoso

Esquecerei teu rosto

Com toda a beleza e promessa que encerra

No quarto dos bons amigos

Comerei de novo no próprio umbigo

Até alimentar e crescer

No estio

De novo essa crença de amar

E por aí andar ao luar

Como um garoto idiota

Que não sabe nada

Me deixe não saber de nada

Além 

De querer 

Amar

Como qualquer idiota

De

Novo


 

Teju Franco   23/06/2021


 

quinta-feira, 17 de junho de 2021

A farsa da volta no Quarteirão



Às vezes penso se mais alguém tem o hábito de se enganar por um pouco de emoção, sou bom nisso! Gostaria de me apaixonar mais facilmente, mas não sou fácil, me engano com todas as emoções e sentimentos, mas com a paixão não consigo, não consigo entrar numa coisa fazendo de conta que estou apaixonado, ao contrário, quando entro nessas circunstâncias, entro dizendo pra mim - não tem paixão, mas talvez possa ser legal assim mesmo, mesmo por que se a gente fosse depender de paixão o tempo todo, acho que não virava né, ficaríamos a maior parte da vida a sós.



Não consigo me convencer da paixão, a paixão quando me ocorreu, foi sempre tão fácil de ver, a cidade se transforma subitamente, o caos se mostra e é bonito, lindo, é como ver um filme e reconhecer a sua personagem que encanta e apavora. Eu senti isso poucas vezes, mas é impossível confundir isso, a vida vira de ponta cabeça, as cores ficam mais vivas, radioativas, existe um frêmito no ar, um sinal vermelho de batom dizendo – perigo! O tempo ganha medidas diferentes, a tal memória emocional, existe uma euforia dos sentidos, quase uma síndrome, você come demais ou come de menos, dorme demais ou dorme de menos, não há lógica na dança das horas, o tempo do amor é o tempo do amor, só ele que sabe, as cores e luzes do dia ganham outras dimensões, se misturam compondo coisas.

Não consigo me enganar que estou apaixonado, consigo me enganar que estou feliz, triste, esperançoso, enfim, sou um bom enganador, mas não da paixão. Mas criei meus mecanismos e brinquedos, meus games, sou muito ligado ao espaço e tempo, lugares e fatos, não sei de onde vem isso. Então às vezes crio jogos, pequenas farsas do tempo e do espaço. Como outro dia em que fui ensaiar com uma cantora que vai cantar comigo, quando ela me passou o endereço “Rua Maria Figueiredo”, me excitei secretamente. O prédio dela fica bem próximo ao seu, um pouco abaixo, um “predinho” charmoso pintado de uma cor rubra, não sei definir. Bom, fui lá, ensaiamos até umas 19h30min e saindo do prédio o frio do inverno paulistano cortou-me em espelho de memórias partidas, cacos de vidros encantados, não resisti e fui ladinamente pisando nesses cacos como quem segue uma trilha, um rastro, fui a um encontro com o passado, fui caçar magia com as narinas ao vento, fui como quem segue um cheiro, como quem procura uma porta no tempo, uma taboa de salvação, um milagre, fui como um tolo que não sabe o que faz, um insensato, como a crença que não precisa de motivo, fui...

Espiar o seu prédio, andar pela calçada, tentar ver as salas através de janelas e cortinas, e plantas, e pianos com sinhás moças, e era Junho, não por acaso o mês do meu nascimento e do seu nome. Lembrei de tudo intensamente quando vi o prédio, senti um cheiro de lavanda, uma música flanando, o intervalo de tempo transcorrido entre o domingo que te vi e a terça em que nos encontramos para nos conhecer, esse interlúdio trilhado por dois discos musicais que voavam ao meu redor lançando raios e neons giratórios em minha cabeça de vento verde: era um disco de seresta de um cantor da noite que eu gostava, e um disco do Sá e Guarabira chamado “Quatro”, esse tinha uma música específica, o de seresta não, o de seresta era uma onda, uma sensação de trovas e juras de amor eterno, como quando li Shakespeare a primeira vez; já o disco “Quatro” era ouvido também, mas continha uma música que recorria sobre tudo, essa música se chama Alucinante Alice. Acho que nunca te disse isso, curioso, esse disco sumiu, mas deixou a capa, eu não posso ouvi-lo, mas posso vê-lo, a relação oposta se da comigo e você, eu escuto você falando vez ou outra ainda em minha cabeça , após tantos anos sem te ver, escuto, mas nunca posso vê-la, nunca, nem falar, nem saber nada, nem trocar um email de fim de ano, nada, absolutamente nada, seu Orkut é trancado a sete chaves, seu face book é trancado a sete chaves, existem sete titãs mantendo a distância entre a gente, eles foram incumbidos de fazer-se cumprir o nosso fim, eles nunca deixarão eu me aproximar, eles possuem a chave de todos os espaços e os mantém sempre fechados e bem trancados, eles não deixarão eu ver a sua face nunca mais, eu sei disso.

O prédio está exatamente igual, nada mudou, visualizei a portaria, o hall de entrada com uma luz cor champanhe, tapetes mágicos, plantas de outro mundo vivas e carnívoras, tudo no hall era coberto de uma tênue radioatividade de tom pastel, só a parede do fundo do corredor que levava ao elevador era destoante, era de um azul esverdeado cintilante, a porta do elevador também, era branca avermelhada incandescente, havia um telefone que latejava a espera de alguém.

A porta do carro, o portão do prédio, a portal do hall, a porta do elevador branca avermelhada incandescente, a porta do apartamento entreaberta na névoa amarelada magenta do abajur, aquarelas estranhas, a porta que entrei há algumas eternidades atrás, com as pernas trêmulas e toda a coragem do mundo para voar alguns andares acima de mim, e entrar em seus domínios: um território alienígena de parentes e histórias, de teclas brancas e pretas, do teu agasalho verde de gênia das mil e uma noites, da estação tropical úmida, perdida entre a menina virgem e a nave mãe, o riso marfínico branco, as flores na palma da mão silvestre, a face de maçãs vermelhas esverdeadas, a arvore do sexo no centro do mundo, deuses do mal vigiando, deuses do bem colorindo as frutas oferecidas a nós, pronto: me pus no sonho, a sorte foi lançada, nascemos, crescemos, comemos o fruto, fomos expulsos, virei o fruto do vosso ventre. Mamães e papais quem são vocês? Viramos uma espécie de planta doméstica, sua boca dizendo - moço, deus do céu, o que foi aquilo, aquele espelho d’água que mistura faces, eu era lindo e não sabia, foi preciso me ver em você, não sabia que os amores eram estetas, protetores, violadores, astros desastrados de uma farsa bem armada.

Lembrei que a morte quase se fez súbita ao primeiro beijo, sai da sua casa em pistas aneladas de saturnos em festas, sai dirigindo como se regesse uma sinfonia, uma grande orquestra, perdi o controle da orquestra na primeira curva da Vinte e Três de Maio, meu carro estava na oficina e eu estava com o carro do Tonico, pior, da mãe do Tonico. Desci a via em direção a curva do DETRAN com beijos voadores cometeando dentro do pequeno Fiat, eles se chocavam contra os vidros do carro e vinham em direção a mim, ávido de beijá-los todos, fiquei tonto, o mundo girou, o Fiat também, eu vi o guardrail, escutei um estrondo, os amores explodem muito alto, eu não sabia, e o carro bateu acordando-me do transe, nada do que eu sentia tinha a ver com morte, eu exalava vida pelos poros, segurei o volante como quem segura a mão de um herói, a morte rodopiava, jogava o carro de um lado para o outro, e eu fui voltando para o mundo em que tudo era vida, premência e frêmito, desespero, aconchego, represa e vazão, fui controlando essas duas forças no volante do Fiat , consegui recuperar o controle do carro, mas ele estava destruído, fazia um barulho absurdo, não sabia que os amores atropelavam as coisas assim, que podiam destruir, que atentavam contra vidas em sua velocidade autoemotiva.

Seria o beijo da morte, de uma determinada maneira, foi mesmo, não sabia que o coração podia bater em silencio, em coma profundo, em fermata de pausas infindas durante anos, não sabia tanta coisa, eu era jovem, lindo e tolo, eu era tão jovem e consegui a grande perda da vida, consegui o castigo eterno, eu era tão jovem e já tinha perdido meu grande amor na ânsia da juventude, quando o encontrei, não era digno de perdão, fui eu que deixei, que parti, que reneguei, que quebrei o encanto do cristal, já tinha a minha maldição, forever Young, eu não cresceria nunca mais, não teria casa, não teria filho, adeus meu amor, eu falava enquanto você crescia como uma gigante a minha frente, adeus amor, enquanto você ia para o hemisfério norte, onde vivem os gigantes inatingíveis...

Fui até o fim do quarteirão para poder mirar o prédio de vários ângulos, como é mesmo o nome, deu branco, será “Edifício Forly”, me veio esse nome à cabeça, o que significara “Forly”? Um lugar, um logradouro, uma praia da França, um bairro de uma cidade longínqua, um sobrenome importante? Voltei pelo outro lado da rua, havia uma lua gelada cortada pela metade no céu negro azul do inverno, lembrei do salão de jogos no térreo, nunca fui muito de jogos, mas passei horas ali, lembrei das fugas noturnas para fumar maconha na Caravan do seu pai que o seu irmão dirigia sem conhecer a cidade, lembrei das suas irmãs todas, belas e loucas, do seu irmãozinho bacana e engraçado, amava todos em sua casa, inclusive a sua mãe que eu fingia não amar, na verdade a veia artística da família veio dela, ela entrou com o delyrio no gen, ficava horas acompanhando-a ao violão. Quando mudei de lado da rua, vi o tamanho da sala e lembrei da outra sala em L, a sala de jantar em que me sentei a primeira vez que fui te buscar, fiquei ali com os seus parentes que eu não conhecia, enquanto esperava você se aprontar. Lembro do seu irmão dizer que era músico, lembro de comentários engraçados de seu pai, daquela forma mineira de receber as pessoas, eu me sentia uma personagem de um filme italiano, eu via aquelas pessoas falando e me perguntava o que fazia ali, eu ali ? A Re não sabia que eu estava ali, a Re que eu namorava há uns sete anos, a Re que cresceu comigo, que sempre foi tudo.



O que eu fazia ali, quem sairia daquela porta, quem eu estava esperando, o que eu fazia ali? E se eu levantasse e fosse embora sem falar nada, simplesmente saísse dali, me salvasse enquanto havia tempo, se eu falasse para o seu pai :- vou embora, não vou casar com a sua filha, adeus; que nada! Eu estava ofegante e trêmulo, conversava com os seus sem tirar o olho da porta que dava para os quartos, a porta que dava para o infinito labirinto de espelhos, o ponto de interrogação entre os mundos, o buraco negro das almas, a partilha dos cromossomos. A minha culpa alimentava uma secreta esperança, você sairia daquele quarto, romperia naquela porta e estragaria tudo, todo o mundo perfeito que eu tinha criado, você seria mais tola, mais chata, seria mais burra, sem graça, eu ficaria farto de você e contaria os minutos para devolve-la em casa. A noite seria arrastada e monótona, eu me sentiria um tolo e um filho da mãe de fazer isso com a minha Re amada, suspiraria aliviado e dormiria com a paz dos cafajestes, após uma tentativa de mijada fora do pinico que não vingou, perfeito, mas não foi bem assim ...

Assim que você rompeu a porta, eu senti que estava perdido, que nada mais seria como antes, fiquei como um planeta desgovernado, tirado da órbita ao encontrar-se por outro corpo celeste, aquela mulher branca cheia de azuis, aquela pele cheia de luas e recantos, aquele silêncio repleto de teclas que “pianavam” voadoras, tilintantes. Lembro da gente no, ainda existente, Café do Bixiga, quando você começou a contar “as histórias de você”, eu tentava me controlar para não babar, não dar bandeira, não me entregar tão fácil, eu dizia – “segura a onda rapaz”, qual o que, por mim já sairia dali e pegaria o primeiro padre, a primeira igreja, o primeiro vestido, o primeiro bordel, não sabia que os amores reconhecem a casa assim à primeira vista, e era essa a sensação que eu tinha: de casa, mas não era casa de família ainda, era a casa da paixão, cheia de perigos, missões impossíveis: ação, ação, medo, coragem, mergulho no mar revolto, era a casa do outro que você tanto procurou e encontrou, que te conforta e te apavora, era o lar desconhecido, era a fantasia de não estar mais só no mundo, lindo isso né, o amor é mesmo lindo, ele vence a solidão com uma mentira, uma história bonita, o amor é um trapaceiro adorável, uma casa de névoa flutuante num oceano de lavandas e bálsamos. Depois foi o beijo, o carro rodando, a conta da oficina e a conta do remorso da Regina que eu deixei com o coração sangrando de culpa três dias depois.

Na volta tentei ver o porteiro, esses guardiões são invisíveis, vi um corredor que ficava acima que eu não me lembrava, continuei singrando sulcos, entrando em sua vida, “seu quarto, suas coisas, sua alma, desvãos”, ficamos adultos, eu e você, descobrimos o bosque proibido, sempre fomos hábeis e parecidos em sacanagem, foi uma festa sagrada em um bordel, uma orquestra afinada, ensaiada, que música era aquela, que intervalos eram esses, que meretrizes e marujos e romeus e julietas, quem comia quem, que bacanal dos deuses, que baque do Baco, do balacobaco, o que era aquilo?



Terminei a quadra, seu prédio ficou para trás, sai como “Alucinante Alice” num País sem maravilhas” onde tudo é dolência opaca e bege. Que bom foi essa volta no quarteirão da sua antiga casa, e eu que achei que não fosse acontecer nada...



Teju Franco  18/08/2010






 

domingo, 6 de junho de 2021

Não nado em águas Rasas


Eu não nada em águas rasas, ponto

Não me venha com a ração do dia a dia

Minha fome é farta

Minha alma vadia

Tenho em mim a boca de engolir mundos

Meu dia a dia não tem cartão de ponto

Nem alarme despertador

Meu cuco sai do relógio quando lhe dá na telha

Passa a noite bebendo e cantando

Na zoeira

Vive de perder a hora

Minhas horas perdidas valem ouro

Não metal

Ouro de areia do tempo

De existir

Não aceito clones, só Julietas

Não tenho carência de afeto

Vivo bem sem

Carência eu tenho mesmo de um grande amor

Desses que faz o coração explodir

O dia colorir

O chão abstrair

Prefiro a solidão musicada

À companhia errada

Não tem jeito

Não me contento com pouco

Eu vivo de perdições de um coração com o bolso furado

Vou sem saber aonde

Volto desavisado

Preciso de grandes acordes, senhor maestro

Poupe seu alpiste

Viste

Entre o pouco e quase nada me alimento de fome

Fome de vida

Fome de amor

De folia, gozo, poesia

Melhor os famintos aos conformados

Não nasci pra pescar em rio seco

Jogo meu coração às piranhas

Procuro outro começo

Não tenho medo de chorar

De sofrer

De me espatifar

Tenho medo de ter medo

Meu único medo

Por isso, digo e repito

Não nado em águas rasas

Não nado onde eu não possa me afogar

 

Teju Franco  06/06/2021









 

sábado, 5 de junho de 2021

Eu, você, nós Dois


 Levante os cílios

Abra o portal

Deixe-me entrar com meu carnaval

Deixe esse pierrô fazer seus milagres

Sua vida não será a mesma

Eu prometo

Vou entrar em seus segredos sem roubá-los

Vou acender luzes pelo caminho

Tenho uma coleção de Luas

Para cada olhar

Uma coleção de olhares

Para cada luar

Tenho uma capa de super-homem

Pra voar sobre Nova York

E Paris

Ah! Paris eu guardo no bolso do casaco

Sempre que quiser

Brindaremos lá

Dançaremos em Havana

Namoraremos em Veneza

Anoiteceremos em Casablanca

Play it again Sam

Deixe-me tocar seu coração

Inventarei a Bossa Nova

Só pra te ver passar

Mais cheia de graça

E num cantinho com um violão

Te farei “Ligia”

Te farei “Luiza”

Te farei “Bonita”

Te farei todas as mulheres do mundo

“Se você quiser ser minha namorada

Ai! Que linda namorada (Vinícius de Morais)

Você poderia ser

E então

Falta alguma coisa?

Que mais pode faltar?

Se temos

“Eu, você, nós dois” (Jobim)

Se

Só tinha que ser com você (Jobim)

Se

"E nunca sonhei com você

Nunca fui ao cinema

Não gosto de samba

Não vou a Ipanema” (Jobim)

“Antes de você chegar

Era tudo saudade” (Caetano)

 

Teju Franco 06/06/2021





 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Re

 

Re

Que foi feito de mim, de você

Nessa vida de se perder

Nós que amávamos tanto

E tanto de espantar o mundo

Por todo canto

Segundo

Lembro da primeira visagem

Minha alma de garoto

Mal podia acreditar

E você surgia das águas

Esquiando pelo oceano

Os cabelos loiros verdes de cloro

Ao vento

Parecia uma vertigem passando

Procurei todas as coragens em mim

Me aproximei, falei

Conversa de garoto com garota

Que garota!

Herói improvisado escondendo o nervosismo

O dono da situação mais apavorado e aflito do camping Paraíso

Lembro do telefone de São Paulo anotado em um papel

Uma felicidade de adivinhar o futuro

O mundo era uma ilha a se descobrir juntos

A paixão, a dor, o sexo, o ciúme

Horas e fichas de orelhão

Sentado no chão, atrás da cortina, de telefone na mão

Falando por horas, aquelas coisas tão importantes

Que adolescentes falam

O mundo contra Romeu e Julieta

Mensagens contrabandeadas por irmãs

Jogadas com um barbante do décimo oitavo andar

Ninguém jamais poderia nos separar

Nem o Elvis Presley, nem a mocinha da novela

Ninguém era mais bonito que nós em nossos quinze anos

No mundo todo

Invencíveis

Os amassos na escada do prédio

O medo de alguém abrir a porta

O desejo a mover placas tectônicas

 

A porta se abriu quando nos formamos

Cada um seguiu seu caminho

Você ficou lá no passado

Pergaminho

Foto antiga

Uma notícia ali

Outra acolá

Um dia de aniversário

Outro de passagem de ano

-oi, feliz Natal pra vocês

-oi Du, feliz ano novo

Você foi, fez uma família linda

Eu amei as mulheres que tinha que amar

Ficamos amigos

Fui padrinho de casamento, veja só

Nos afastamos

Nos estranhamos algumas vezes

Nos reaproximamos

Lavávamos uma roupa suja fora de tempo 

Vez ou outra

Eu adorava isso

Hómem sempre tenta segurar alguma coisa

Inesquecível Re

Só mesmo um garoto tolo pra te perder

Passei a amar como amigo

Mas perdemos isso também

Coisas da vida

Seu marido virou um querido

Você não

Ahahaha

Como esse coração fora de fuso nunca aprende deixar de amar

Você fica lá

Voando no seu sky sobre as águas verdes

 

Eu fico aqui

Às vezes ligo a máquina do tempo

Te namoro na escada do prédio

Cruzo a linha do hímen

Deslizo meu diário de motocicleta

Até voltar ao presente

O primeiro amor é mesmo um presente

Dado só uma vez na vida

Que bom que foi você

 

                                                    Namorado      04/06/2021


 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Coisa que não se faz



Coisa que não se faz

 

Ela leva na boca todos os sorrisos do mundo

Um piano que alguém toca

Nos lugares mais recônditos

Ela tem uma fantástica fábrica de histórias de amor

Cartas mágicas

E as tira com delicadeza do realejo

Sua alma de abarcar o mundo

Se aquieta então

Por um momento

De ternura

De desejo

E ela escreve suas histórias de si

Na ponta dos lábios  

Como beijos

A menina fala do pai

Do amante

Dos maridos

Mesmo maldizendo

Ainda os mantém

Queridos

Cada vírgula, frase, sorriso, expressão

Cada tesouro desse ouro da paixão

Tardes de outrora

Noites de gardênia

Palavras à brisa do mar

 

Ela pode alegrar todas as madrugadas do mundo

Com sua vontade invencível de amar

E dormir triste

Indefesa

Sozinha

Como uma atriz

Depois do espetáculo

Mas haverá de acordar outro dia

Pronta, puta, madame, Maria, Rosileide

E mais um dia se cumprirá de mestra de salvar mundos

 Pela tarde

E mais uma vez ela verá o pôr do sol

Com seus olhos ávidos

De amor

Ninguém nesse mundo ama o amor mais do que ela

Ninguém!

Ah! Quantos homens, dores, primaveras passaram

Quantos invernos sem ninguém

Quantas noches calientes de verão

Quantas vezes ela arrumou-se como da primeira vez

Para a próxima jornada

Ela sabe da sua glória e da sua adaga

Como começa, como termina

Essa mulher

Essa menina

Por isso essa pressa de amar

Companheira constante

A vida perto dela vibra alto-falante

É como estar sempre às vésperas do grande final

Quando sobe o som do cinema

Se ele vem, se não vem

Tudo bem

Ela também tem uma fábrica de grandes finais lacrimosos

Felizes

Ociosos

Tristes

Gozozos

E todo dia no Cine Silvia tem estreia

Sofia, Julieta, Dalva, Macabeia

Ser feliz

Ser triste

Que importa?

Nada importa além do amor

E sua transitividade carnal

Verbo da carne

Do fogo e do frio

Para o bem

Para o mal

Vale tudo

Menos não amar

Coisa 

Que ela

Que faz tudo

Nunca faz

 

Teju Franco 03/06/2021


 

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Silvestre

 



Se ela sai do conto

E não entra na história

Um rapaz desavisado na estrada sobra

Onde era mesmo o festival

Where is the band?

Saio bêbado como os garotos de Shakespeare após o baile

A noite é uma mulher de tranças incompreensíveis

O amor um adolescente com frio na barriga

Mercutio recita o incompreensível

Romeu se droga, incognoscível

O baile se mascara

Onde nada pode

Ela mora lá

Onde tudo se pulsa e nada se decifra

O coração não sabe das coisas

Corre nos labirintos das veias abertas

Como um louco atrás do choque

 

Ela se trança nas torres do castelo

Me tranco em transe na cela dos mistérios

Seguro as barras de Clarice com as duas mãos

“Paisagem com pássaros amarelos” de Klee não pede

Diz a flor de Lispector

Eu olho incrédulo por entre as grades

Qual seria a história da liberdade?

 

Vejo um parque perdido na tarde

Ela flanando entre os verdes

Silvestre

Com seus cabelos de fogo

Passagem espectral

“Whiter Shade of Pale”

Num lapso de tempo se despe

Desfila “Lay lady lay”

Pelo carnaval

É vida ou éter?

Pego o lenço que ela distraidamente deixa cair ao chão

Pulo sete andares de mim

Subo treze galpões a mão

Fujo da prisão

Enfim

Me invento no vento

Me sopro como flauta doce

Transversal

A música flui

Linda

Mas pra onde?

 

Teju Franco 02/06/2021