segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Anti-Horário



Sei lá

Ando mergulhado na minha geração

Minha geração rockeira que nunca fui

Eu era um velho quando garoto

Minha vida é de frente pra trás

Nasci velho

Tô voltando

Pera aí útero

To chegando

As mamães anos 50 me deserdaram no futuro

Perdidos no Espaço na tv smart preto e branco

Os hippies no jardim da infância

Os punks no colegial

A gente na discoteca

O sistema e seu caquético capital


Enquanto Maio explodia liberdades em 68

Março nos dava aula de educação moral e cívica

Em outubro o homem ia à Lua

Em julho Woodstock a moça dançava nua

Eu menino ultramen que fazia pipi na cama


Somos todos sequelados

Principalmente as meninas

Quanta repressão em cima delas

Fumar um baseado quase caindo da janela pra fumaça não ir pra dentro de casa

Vigiar a rua com suas polícias e esquadrões da morte

Guerrear pela liberdade a conta-gotas

Contra o poderoso Capitão América do norte


Nasci velho de família como Vinicius de Moraes

E fui porraloucando de querer mais e mais

Meu problema nunca foi falta de energia

Não cheguei à metade do tanque

E olha que rodei

Ando assim pela rua da vigésima cidade que morei

Pensando

Onde foi que errei

Eu até sei

Mas finjo que não sei

Minha vida é de frente pra trás

O que eu não saberei amanhã

Hoje sei mais

Tô no segundo ano da faculdade da vida

Tentando passar pro primeiro

Se é que me entende

“Vou danado pra Catende”

Pra tonga da mironga do cinco G

Quero morrer de sexo

De música

De cerveja

De poesia

De uma nova droga

Nos intervalos faço yoga

Corro cinco quilómetros diários religiosamente no meu purgatório Opus Dei

Atrás da mesma coisa que nunca alcanço

Ainda bem

Se alcançar paro de correr

 E começo a morrer

E eu não quero parar

Enquanto puder correr


A semana passada morri com Renato Russo

Essa, adolesci com Bowie que nunca ouvi

Depois de amanhã ficarei menor de idade e beberei com Cazuza

Assistindo filme pornô

Meus heróis são palhaços do riso fácil

Que voam num Circo Voador


Queria encontrar a turminha mas eles viraram velhinhos

Chatos, caretas com seus reumatismos certinhos

Em vidros comprimidos de horas marcadas

Eu não

 Preciso de espaço

Cada vez mais espaço para meu corpo magro

Preciso ir à praça, ao point, ao pico

Melhor a nova turma

Essa em que eternamente milito

Sócio atlético

Pop mítico

Salve simpatia

Diz que fui por aí

Levando Um violão

Debaixo do "abraço"

Meu tempo é agora

Meu território é onde a novidade acontece

Escolho passos e pessoas

Sobrevivo por um triz

Meu drama e piada eu mesmo faço

Até hoje

De hoje em hoje

Anti-horário

Motriz

Conservado em profunda tristeza

Sou feliz

Sem mentiras sociais, pessoais

Parei de contar mentiras sobre mim a mim

Vivo a sorrir de indigestas verdades

Se na esquina outrem me maldiz, que o faça

Inveja não derruba minha estátua

Nem perturba minha praça

Esqueci um senhor no banco enquanto me banhava na Fontana de Trevi

Contudo, entretanto, La dolce vita “me sempre” foi recreio

 Deve ser essa coisa de viver de aventura

Andar sem freio na terra do nunca

Entre ponteiros e cavaleiros imaginários

Vou morrer mais jovem do que nasci

Antes de ter mãe

Antes de ter alma

Antes de ser eu

Sob outro signo

Anti-horário

Enfim

Sumi

 

 

Teju 18/11/2020











 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Somos tão Jovens


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Eu não acompanhei os jovens da minha geração, eu passei um tempo vivendo há dez anos atrás dela, a década de 60, depois passei do Bob Dylan para a MPB, e passei a desprezar rock and roll. A minha geração cresceu nos ecos do punk rock que eu nunca ouvi nem tenho vontade, mas a minha geração no Brasil fez sua história doméstica incrível.
Que pena não ter embarcado nesse barco juvenil e repleto de energia, que pena! Talvez tivesse descolado um lugar ao sol nesse mundo difícil da música. Passei a década de 80 desprezando a minha geração, morei um tempo, com a minha namorada da época, essa super cantora que trouxe do Uruguai agora, na casa da mãe do Branco Mello dos Titãs; eles estavam lançando o "Cabeça Dinossauro".
Puta cara legal e generoso o Branco, aliás, todos eles, que vim a conhecer depois. Eu e a Márcia, músicos de boteco, como a maioria da minha geração de MPB, ainda esnobávamos o Branco com sua música de três acordes que marcou a história da minha geração com talento vigor e criatividade.
Ainda no final da década de 80, após a morte do meu pai e uma decaída socioeconômica brutal da família, chegou às minhas mãos o LP "Ideologia" do Cazuza, o efeito foi fulminante. Desempregado, deprimido, ex aluno de teatro da Myriam Muniz, sem coragem e atitude, trancado num apartamento barulhento ao lado da Vinte e Três de Maio, Cazuza entrou na minha veia produzindo a reação química da rebeldia nunca manifestada na minha juventude de banquinho e violão.
Enfim saiu o primeiro show autoral, o repertório ainda era um esboço do esboço do rascunho de ameaça de um compositor, mas continha umas duas canções que até hoje fazem parte do repertório, sem saber, também, aquelas canções fracas já continham a minha marca, uma linha confusa entre Bossa, MPB e rock and roll.
Pra meu espanto deu certo, eu ainda era jovem e levei a maior turma para uma casa chique de Sampa, o Espaço Raísa, lugar onde se apresentavam Arrigo, Itamar, Alzira. A casa lotou, 200 pessoas, a dona ficou com um sorriso aqui, e eu apesar da crueza, tinha a "craqueza" de palco de quem passou 4 anos com a Myriam Muniz (acho que era o que segurava a onda). Ali comecei a acreditar que podia ser compositor.
Anos se passaram e voltei aos bares para pagar aluguel, feijão, pasta de dente e outras coisas tão importantes na vida, incorporei ao meu repertório várias canções do rock da minha geração, menos Legião que não curtia, não tinha paciência para decorar aquelas letras longas, melancólicas com estruturas musicais irregulares.
Há dez anos Legião virou uma paixão, um vício, Renato um guia com sua melancolia guerreira e energética, e seu vozeirão grave e gutural, tudo a ver comigo, passei a cantar várias músicas e a sentir que falta uma pessoa como ele faz nesses tempos de rock tão reaça de direita.
Enfim me encontrei com a minha geração, antes tarde do que nunca, vendo o filme sobre Renato nesse domingo de manhã do dia 02/11/2020 me vi tentando ressuscitar o cara, rezando pra meu celular não ter morrido com a tela quebrada que contém um rascunho que não me lembrarei, se o telefone se for, que fiz pra um casal querido aqui de Santa Isabel que tem uma história ímpar de amor e me levou a fazer a minha "Eduardo e Mônica" versão Digo e Yara.
O tempo passou e eu não peguei o bonde da minha geração, mas não foi tempo perdido, me esgueirei sob esse teatro de vampiros dessa vida que mais parece uma festa estranha com gente esquisita, por enquanto, quase sem querer, sigo na luta ainda sem saber que país é esse, fazendo as pazes com a minha geração coca-cola que de coca-cola não teve nada, fosse Cazuza, Renato, Humberto, Arnaldo, Leoni, Cassia, não teríamos essa moçadinha tão careta e reaça que vemos nesses dias, teríamos outra legião: a urbana e não a miliciana.
Teju Franco 02/11/2020