quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Dois militantes


Amizade. Ninguém sabe ao certo como e quando começa. Você só se dá conta quando já existe. Aí já era. Acho que precisa estar do mesmo lado do planeta das causas, só acho, mas não precisa ser necessariamente igual, gente inteligente não precisa, e nem cobra que o outro seja igual; quem atrita com o outro para fazer prevalecer a sua opinião não é muito inteligente no campo da crítica, não tem paciência filosófica, nem histórica, a diferença é enriquecedora.

A minha nova amizade com a Marília Calderón é assim, fomos nos aproximando sem perceber, ela foi cantar umas vezes comigo, depois eu fui cantar com ela, ela se ofereceu para ser minha coach, eu virei professor de música dela, mas isso é bem depois de já sermos amigos, e a gente foi se conhecendo, ou como diria Vinicius - reconhecendo.

Duas gerações diferentes, dois militantes de duas gerações diferentes. Dois radicais no bom sentido, pessoas que levam às últimas consequências as suas causas, dois não radicais no mau sentido, pessoas que não são intolerantes, que conversam, que acreditam na liberdade de opinião, no debate, que não falam em cima do outro, não levantam a voz, não querem vencer o debate, que discordam com humor filosófico, não ofensivo, nem irônico. Dois abnegados, cagando e andando pro mercado, como diriam no meu tempo “dois porra-loucas”, ou no tempo dela _______  vocês vão ter que perguntar a ela.

Somos dois libertários acima de tudo, olhamos para a realidade como experiência e não tradição, temos visões diferentes sobre as militâncias da atualidade, mas não sobre as causas, as pautas são as mesmas, os grupos que as defendem não, não concordo com a ótica, as teses e a abordagem dos grupos indenitários, mas apoio suas causas, aliás, desde criança. Sabemos disso, eu e ela, mas não vivemos em embate tentando convencer o outro, às vezes alguma coisa pontual até discutimos, normalmente na base do humor, eu tiro um sarro da cara dela, ela tira um sarro da minha. Sabemos-nos do mesmo lado e é isso que importa.

Duas gerações, dois militantes, dois porra-loucas, dois que quer que sejam, dois amigos. Sem perceber começamos a falar de tudo, perdemos qualquer tipo de receio, de vergonha, duas pessoas sem limites morais e paradoxalmente com muito respeito pelo ser humano, é o que somos.

Falamos sobre um feminismo mais sútil que propriamente a luta dos direitos, o da cultura, do subconsciente coletivo, da ruptura com o modelo estrutural da sociedade. Isso passa, sobretudo, pela derrocada do macho e do seu mundo como conhecemos, isso envolve estrutura familiar, monogamia, mentalidade, comportamento. Eu digo que o mundo como sempre conhecemos não cabe mais nesse mundo, e manter as formas estruturais é cair em outro tipo de prisão, é a mulher, por exemplo, defendendo a monogamia cristã em que ela sempre foi enganada, muda o discurso, mas o caldo da cultura permanece; a moçadinha que tá vindo aí vai quebrar esse pote, o caldo vai mudar, o papo mudou na “práxis”; eu convivo com gente mais nova, não é teoria, as minas estão inaugurando outra era, outra prática, outro jeito de agir, não é mais o bla bla bla dos anos sessenta em que as mulheres falavam muito e faziam pouco.


Em plena aurora do século vinte e um o amor continua sendo um problema, a violência não, o amor livre é apresentado como ofensa, agressivo, a violência como solução, mas não é, isso é um fake antigo apenas, é só o grito desesperado do macho tentando salvar seu velho mundo, remando contra a maré e sendo vencido por ela, ou melhor, por elas. O amor é fêmeo, a violência é macha. Os homens estão meio “perdidinhos”, mas isso passa, é mais a gente, os mais velhos, os garotos já vem nos substratos das mudanças.

A real é que os machos estão meio tentando se achar, meio acuados, sem saber como agir, a libido anda meio apagada, é muita coisa secular ruindo, o mundo do vestiário masculino e da mesa do boteco não dá mais conta. Num mundo de oportunidades iguais, culpas eliminadas, liberdades consolidadas, o homem vai precisar, como nunca, rever tudo o que lhe disse a cultura, teremos que abrir mão dos ranços e vergonhas medievais, a vergonha do corno, o mito ridículo do macho alfa, a natureza monogâmica possessiva, a vaidade que envolve possuir alguém, a mania de controlar; ninguém controla ninguém nesses novos tempos, celular não é coleira, é uma maneira de conversar com alguém quando se vai fazer xixi, as pessoas têm oportunidades e fazem o que querem, os homens precisarão mais do que nunca se bastar, ter autoconfiança, sair desse mundo vulnerável do macho inseguro com medo do pau maior do outro, dessa contenda selvagem da disputa. Sem a violência animal, normalmente quem escolhe é a mulher, o homem é mais vulnerável psicologicamente em tudo, na hora do sexo, como disse Caetano “quem tem pau, tem medo”, no mundo equilibrado a verdade é que as mulheres são mais donas das situações, o machinho vai ter que dormir com essa e acordar com outra.

O macho alfa não é o mais forte na tribo humana contemporânea, as mulheres cagam e andam pra ele, tiram sarro, ao contrario, é um fraco, uma pessoa que precisa se autoafirmar o tempo todo é uma pessoa que não confia em si, uma pessoa que precisa ser o tal é porque não se acha o tal, precisa de aprovação, uma pessoa que precisa de todas não ama ninguém. A pessoa forte sabe quem é, sabe seus atributos e qualidades, seus defeitos, medos, limitações, e se vira com isso, sem precisar falsear uma cena, o macho alfa é um farsante. Todos os homens estão em decadência, o macho alfa é a caricatura mais patética e insegura de um mundo que já morreu e vive de apego a alguns fantasmas.

Marilia é a radical doce e inteligente dessa peleja da história, têm radicais agressivas, algumas até violentas, têm radicais moralistas que não percebem que quem criou essa moral foi o macho, e defendem a mesma moral deles tentando combate-los. Marilia sofre um pouco com suas policias e patrulhas, mas passa ao largo, é muito inteligente, uma das pessoas mais inteligentes que conheci. Se ela cair em uma armadilha geracional, o que é normal, eu cai e caio em tantas, ela conserta lá na frente, é uma pessoa movida pela curiosidade e pela critica. O que mais me fascina nela é que parece ser regida por outro tempo, como se viesse do futuro que está por vir, as coisas tão valorizadas pela sociedade que vivemos no sentido de pontuar diferenças não tem o menor valor para ela: se é mais velho, mais novo, se é bi, hetero, homossexual, se é preto ou branco, rico, pobre, bem ou mal sucedido. Ela não é uma teórica, apenas, precisa viver as teses que defende, e ela vive. Nesse sentido, para além de militâncias, equivocadas ou não, ela é o sinal da nova era, alfa, ele que parece forte, já era, Marilia que parece frágil, é a certeza vera de que a história não volta e não voltará atrás.

Convivi com três mulheres mais jovens nos últimos meses e fiquei entre surpreso, boquiaberto, assustado, e me sentindo indefeso, infantil e meio ridículo; depois fiquei feliz, que bom que moças tão jovens consigam contrapor tantas coisas a uma pessoa tão vivida como eu, que bom que me senti infantil perto delas, que me senti ridículo, isso está movendo revoluções dentro de mim, vinte anos em dois meses, troca profunda de posturas, atitudes, entendimentos de mim e do mundo, a história segue, mesmo com toda contramaré, a propósito, a história é uma palavra feminina.

Teju Franco  14/11/2019

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