O Noveleiro
Eu sou da época que as novelas monopolizavam o país, não escapava ninguém: pai, mãe, vô, vó, filho, filha, empregada, cachorro, papagaio, se bobear até os peixinhos do aquário grudavam no vidro pra não perder o último capítulo.
Nós, os garotos, fingíamos que não gostávamos – novela é coisa de mulher! É, mas na hora que entrava a vinheta, a gente “tava” lá como quem não quer nada. Sofríamos com aquelas historietas clichês pra saber quem era o pai ou a mãe verdadeira dos mocinhos da trama. A minha vó era daquelas que se encontrasse a vilã no supermercado, voaria no pescoço dela sem pestanejar, assistia os capítulos xingando os vilões o tempo todo, era uma novela a parte ver minha vó assistindo novela.
Certa vez, no meu curso de teatro com a grande atriz, professora e diretora Myrian Muniz, ela nos passou como tarefa um exercício chamado porão, que consistia em levantar todas as memórias sonoras musicais desde os primórdios da vida que a gente pudesse lembrar. Lembrei de canções da infância, a maioria temas de novela, comerciais antigos de TV, duas músicas que me faziam chorar quando neném que eram “Adeus Belém do Pará” de Dorival Caymmi ( acho que era por causa da frase “adeus meu pai, minha mãe, adeus Belém do Pará) e outra que era um baião de Paulo Santoro e que chegou às rádios na voz de Carmélia Alves ( acho que era porque o bichinho abandonava a menina que gostava dele). Fora isso, fora as músicas das novelas, lembrei apenas do comercial de Natal da Varig, lindo, aquele que começava “Estrela brasileira no céu azul ...”, outro jingle que lembrei era do mingau Avecrem que sempre fazia eu me levantar daqueles quadrados em que trancavam os bebes, lembrei a música do Biotônico Fontoura também, que eu adorava. Não consegui me aprofundar com detalhes nos remotos anos do meu passado.
Anos depois, com o advento do Youtube, eu pensei – nossa!, agora dá pra fazer um porão perfeito da minha vida, ano a ano, escrevi num caderno todos os anos da minha gloriosa existência, foi quando esbarrei sem querer num pedaço de uma novela antiga chamada “Anjo Mau”; após assistir um pedaço, lembrei em segundos de tudo que vivi naquele ano: meu inimigo da escola, a moça que eu amava secretamente, meus amigos de bairro. A vida ressurgia em flashes, o primeiro porre no camping, os sorvetes ao domingo na Brunella, os sanduiches do Chico Hamburguer sábados à noite, o beijo no bailinho de garagem do Zé Orlando, o dia em que pedi a fulana em namoro, a troca de sopapos com o insuportável Douglas na escola, tudo ali. Que ano era esse? Fui lá ver: 1976. Pronto, descobri a chave do túnel do tempo: as novelas. Dei uma geral nas novelas disponíveis, em suas trilhas musicais, e com as novelas e as músicas pude identificar, com detalhes, ano a ano, as passagens da minha vida.
Em 1977, fui salvo pela poderosa e exuberante Kiki Blush (Eva Tordor) e suas filhas maravilhosas: Fernanda (Lucélia Santos com 19 anos), Milena (Aracy Balabanian), Renata (Thais de Andrade), Regininha, a caçula (Gisela Rocha) e o irmão Paulo (João Carlos Barroso). Daí pra frente fui remontando os anos da minha vida, pautados pelos anos de cada novela. Gabriela foi uma explosão de hormônios adolescentes, Dancin’Days foi quando comecei a pensar na vida criticamente, e por aí vai ...
A gente se apaixonava pelas atrizes, odiava os vilões, chorava copiosamente nas cenas de amor, nos sentíamos vingados e redimidos em cada final feliz. Quanta banalidade, mas era uma forma de se abstrair das nossas vidinhas sem emoção. As produções eram bem mais pobres e precárias, e pareciam mais com a vida da gente, não eram como agora que mais parecem seriados americanos. As músicas sorteadas para as trilhas sonoras das novelas viravam hits e tocavam dia e noite por meses, às vezes anos. Quem não se lembra de “Meu Mundo e Nada Mais” de Guilherme Arantes lançada na novela “Anjo Mau” em 1976, ou “Rock and Roll Lullaby” cantada por BJ Thomas na novela “Selva de Pedra” em 1972, ou “I Loved You” cantada por Fred Cole em Dancin’Days, “Filho Único” de Erasmo e Roberto Carlos (tema divertido do Netinho de Locomotivas), “Coleção” de Cassiano, também na “Locomotivas”? Hein!? Quem não se lembra?
Era outra época, memórias analógicas, as coisas não tinham menos lógica e mais emoção, tesão, paixão, sei lá. As pessoas se envolviam organicamente nas tramas. Antes dos robozinhos dos games, as pessoas queriam se apaixonar, viver grandes paixões como os protagonistas das novelas, queriam uma saga heroica para as suas vidas repetitivas de rotinas imutáveis. Na verdade, é compreensível, a vida industrial da época e cibernética da atualidade nos nega tantas coisas.
Então era melhor chorar com a Julia Matos (Sonia Braga) se encontrando com a filha Marisa (Glória Pires), ficar pensando em quem matou Odete Roitman ou Salomão Hayala, vibrar com a Onça Juma Marruá (Cristiana Oliveira) se entregando ao playboy Joventino (Marcos Winter).
Na verdade, o que se quer é emoção e, como o mundinho capitalista selvagem tira tudo das pessoas, pra essa falta de emoção se inventam esses remédios como compensação, é uma espécie de projeção. De Janete Clair a Shakespeare, o que o ser humano precisa é emoção, amor, paixão, desafios. Sinto uma profunda ternura pelos atores da TV que de uma certa maneira acompanharam a minha vida, o meu desenvolvimento como pessoa. Alguns são escanteados após envelhecerem, principalmente as mulheres, vítimas preferenciais da ditadura da beleza, aposentadas à força depois de tantas glórias e fama. Fico pensando como ficam as cabeças dessas pessoas, em suas casas, depois de tudo que viveram. Sigo algumas atrizes nas redes sociais, algumas na ativa ainda, outras não, algumas são minhas amigas no Face, como Wanda Stefânia, Sandra Barsotti, Bete Faria, Sonia Braga, Paula Burlamaqui, Maria Zilda, outras viraram amigas pessoais como Tássia Camargo. Essa gente faz parte da vida da gente.
Atualmente dei de assistir novelas antigas, sei lá por quê. Acho que sei, é pelo mesmo motivo de antes, pra abstrair um pouco dessa vida besta.
Teju Franco (24/09/2013)
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