Diversão e Arte
Quanto mais a gente amadurece
Menos inimigos temos, além de nós mesmos
Escrevi isso há poucos dias
Como nasci há dez mil anos atrás
Meus outros “eus” inimigos são íntimos
Meus monstros de estimação
Conheço bem
Já bebi com eles
Já sofri com eles
Já menti por eles
Já os venci inúmeras vezes
Já fui ferido no meio da rua
Já morri
Já nasci
Eles estão ali
Talvez estarão sempre ali
E eu também
Um dia de cada vez
Como dizem os ex-viciados
Cada dia uma guerra
Na selva, na Polis, Na PQP
Aqui
Eu também
Na melhor versão “hoje”
Do que ontem
Meus monstros se humanizaram
Já não são tão feios
Continuam cruéis
Como o mundo que os pariu
E eu cada vez mais indiferente
À medida que melhoro, não me cobro tanto assim
Se me deterioro de tempo
Porque as coisas são mesmo assim
Já não tenho pena de mim
Nem vejo o futuro de maneira trágica
No mais é mais do mesmo
Um dia de cada vez
Cada dia uma guerra
Meus inimigos íntimos estão ali
Na sala de estar
Eu estou na cozinha fazendo um drink
Ou tocando guitarra na madrugada
Ninguém vence ninguém
Estamos todos, são todos personagens da mesma jornada
Não há vencedores
Somos todos perdedores
Não do jogo, mas da vida
Em cada dia de guerra
De um dia de cada vez
Um dia se vai
Um dia a menos
A juventude não tem o valor do tempo
A maturidade sim
Meus inimigos íntimos estão ficando mais fofos
A coisa descambou pro humor
Ainda bem
Porque a única vitória mesmo sobre a grande
incompreensão das coisas
É rir
Se divertir
É uma questão de escolha
E há de haver inteligência nisso
Senão quem se fode é você
O tolo do desperdício
O torturado do precipício
O palhaço do absurdo
O Dionísio transformando tudo em ludo
Pode escolher?
Melhor rir
Do que se fechar num hospício
Melhor rir
E, depois de tudo, além de tudo
Além do mundo
Se divertir
Para Samael, com carinho
Teju Franco 04/04/2023

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