Baiano
O Cinema e o Garoto
Macacos, acima de Beatles só Shakespeare
Um tipo de Cristo só que melhor
Tá passando a versão atual do clássico " O Planeta dos Macacos". Sem graça. A primeira, de 1968, eu devo ter visto em 1971 no cinema da escola. O Arquidiocesano tinha um anfiteatro fantástico com uma estrutura de sala de cinema de altíssima qualidade. Eu estudava à tarde, os filmes eram uma hora e meia após o término das aulas. Devia ser entre 18 ou 19h. Eu tinha lido a sinopse e pedi pro meu pai ir me buscar mais tarde porque eu queria ver, era sempre facultativo.
Eu assisti atônito àquele filme. Incrédulo. As coisas sempre me impressionavam demais, desde a mais tenra infância, as coisas causavam um efeito devastador em mim; a maioria dos amigos passavam batido e eu me via em meio a um dilema de vida e morte aos 11, 12 anos; hoje não mais,
🤥 já resolvi isso kkkkkkkk
🤥 de boa.Ali, durante esse filme, deve ter pulsado de maneira mais evidente meu primeiro instinto humanitário, que depois veio a ser a minha maldição capitalista e a minha soberba e bem sucedida carreira esquerdista, um espetáculo inegável. Ainda não tinha usado tanga de crochete e ficado rico vendendo livros.
Sai do cinema deprimido. - Meldeusssss, o ser humano é vil, não vale nada, ele vai se destruir com essa vileza, e a macacada reinará. Antes fosse a macacada, quer dizer, quando cresci tive certeza de que era a macacada. Mas senti ali, pela primeira vez, um prazer, infantil, de entender duas visões de mundo.
Sai cabisbaixo do cinema, com minha cabeça de doze anos, cheia de vento a favor, arrasado, o ser humano é uma merda, não vale a pena viver, continuar. Sentei no meio fio e fiquei ali mais do que devia, pensando se deveria doar minha coleção de figurinhas e por um fim aquilo tudo.
Meu pai ,
aproveitando a desculpa de me buscar mais tarde, foi pro boteco com os migo, e eu pude ficar ali uma eternidade no meio fio da existência, na filosofia, vou doar meu time de futebol de botão também.
Como um menino maior que o mundo se achando uma pulga no mundo, só os meninos são maiores que o mundo, eu ali entendi o que era direita e esquerda e tomei meu partido, eternamente. Meu pai chegou pedindo desculpa, super-hiper alegrinho, e eu já emendei um papo cabeça durante o caminho, e ele adorou, ali, eu e meu pai nos apaixonamos intelectualmente para sempre. , Esquerda volver forever.
Seia anos depois, com atraso de oito anos, assisti "Romeu e Julieta" do Zeffirelli no mesmo anfiteatro. Não sei se demorou tanto tempo a chegar ao Brasil. A gente era teen da ditadura, a gente não sabia nada, tudo chegava aqui bem depois, a maioria não chegava. Até hoje eu acho "Romeu e Julieta" um dos textos-peça-filmes-poemas mais lindos do mundo, depois um filme devastador. Acima de Beatles só tem Shakespeare nesse mundo, tenho certeza.
Ali entendi o que era a paixão, minha única dependência química, o que era poesia, minha única forma de superar, minha estrada vazia, a consequência pra se andar.
Shakespeare me apresentou a poesia pela primeira vez, era um efeito de rock and roll, uma coisa inebriante, estupefaciente, fui devastado, minha alma se esfacelou, uma sensação de overdose, duas drogas insuperáveis: A poesia e a paixão no mesmo mano, esse inglês que ninguém sabe se existiu, tipo um Cristo, mas melhor, fraco, humano.
Teju Franco 27/06/18

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