domingo, 25 de fevereiro de 2018

O anjo do Medo




Desde muito cedo soube do medo e do fascínio que as mulheres causavam em mim , tive grandes amores em idade que os meninos não pensam nisso. Isso começou no primeiro ano primário, eu não fiz pré: uma loirinha da classe chamada Ana, era uma escolinha pequena de bairro no último tobogã da avenida Pompéia, Ginásio das Nações, a primeira professora de música Cecilia Gorini é minha amiga aqui, ela não vai lembrar da Ana, mas eu lembro. A Ana tinha um ramster do qual não se separava nunca, então deixaram o ramster frequentar uma semana de aula até ela se acostumar com o fato de que ratos não vão à escola.


Fiquei louco por ela assim que a vi, o ramster chamava-se Frederico, era gente boa, o ramster, ela também era, andava pela classe durante a aula roubando–nos a atenção vez ou outra, o ramster, ela ficava estática em sua carteira de neon, todos queriam o bichinho embaixo de sua carteira, eu queria a Ana. Nasci me sentindo bem no precipício da paixão, é a única altura que não me paralisa, ao contrário, me lança ao abismo em que caio sorrindo sem saber o caminho, mas não gosto da pressa, sou fascinado pela sutileza...

Bom, meu problema virou conquistar aquele ramster, a paixão é um jogo e aos seis anos, ele é meio diferente, não precisamos impressionar a família de ninguém e sim um ratinho chamado Frederico.
Depois de dias de dúvidas eu tive uma luz, perguntei ao meu pai o que aquele bicho comia, comprei um banquete ratazânico e o joguei despretensiosante embaixo da minha carteira. O Frederico e eu nos tornamos irmãos, parceiros, companheiros de copo e seresta e a musa ficou intrigada com essa nossa “afinidade”: conversas sobre bichos, refrigerantes preferidos, desenhos animados e coisas assim e descobrimos que morávamos perto, algumas ruas pra lá ficava o paraíso e eu nem sonhava.

O anjo do medo se tornou ótimo, apesar do medo, e marcamos um dia para brincar, depois outro e depois outro, e ela virou minha namorada, na infância a gente não depende do consentimento da pessoa pra namorar, a gente escolhe e diz pra gente e pronto: vira namorada. Depois de um tempo, que até as famílias já se conheciam (era namorada ), ela foi embora, simplesmente sumiu, mudou-se no meio do ano, parou de vir de repente, falava-se algo na escola, que o pai dela, que era jornalista, estava sendo procurado pela direita militar e eles saíram às pressas.

Passei alguns dias indo à praça em que a gente brincava, mas o parquinho parecia não brincar, perdera a graça, o balanço não balançava, apenas eu, a gangorra não subia, só eu caíra, o carrossel não girava, mas eu me perdera num céu cor de rosa giratório, o anjo do medo escorregou pelo escorrega e nunca mais voltou e eu descobri que era um tocador de flauta que amava tocá-la quando algum anjo, que me apavorasse, cruzasse o caminho e me deixasse assim como um menino que nada soubesse e tudo quisesse num parque sem sentido, só desejo, um estreante.



                                                                                                                            Teju Franco

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