quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Era um garoto que como eu tinha desvio de Septo



Contemplei a ponte e o abismo que o Léo escreveu aqui "
http://oxdopoema.blogspot.com.br/2017/07/ape26-ponte.html?view=classic "

várias vezes na vida. Quem viveu de cruzar fronteiras a contrabandear pelas pontes, meio sem casa sem onde, quem nasceu fora de lugar sempre vai invejar a paz do abismo, da ignorância, temos a inveja e o personagem, só não temos a alma, a alma pequena que o abismo limita, é só até aqui.


Eu nasci desviado como meu nariz, um desvio de septo me tirou do caminho, nunca mais me encontrei, fui meter o nariz onde não era chamado e passei a viver assim, um ser desviado. O texto do Léo me pegou porque ele usa diversos artifícios para falar do que há entre um ser humano e outro mas isso é só um jogo, um jogo de enganar, o outros estão no meio da ponte, são fonte de prazer e agonia, são a travessia e não o fim, a ponte de fato não leva ao outro, leva a outro, sim, de si mesmo, de novo agonia e prazer se jogam, princípio da angústia e do prazer, é tio Freud, quem come, quem passa fome entre eu e mim..


O Léo é um desses anti-heróis charmosos e sedutores como Woody Allen que nos convidam a andar em sua esquizofrenia conversível, e você aceita como se fosse uma carona num Cadillac de domingo, mas não é um passeio de domingo no parque, é uma volta na montanha-russa, no trem fantasma, na roda-gigante, na esquadrilha da fumaça, dar a cara a tapa à graça e à desgraça de ser o ser que não se enquadra.


Só eu vejo o jogo porque eu sou igual, eu também vim de onde não haveria de ter herói, o pré-roteiro não ajudava, o porteiro dos sonhos fazia não com a cabeça, a rosa dos ventos, a mais filha da puta de todas as rosas, a que decide em caprichos para quem vão os ventos contra e a favor. E, se a roda da fortuna não te escolheu, se a roleta não trouxe a sorte, e se o lar que te pariu não era doce, se a tempestade veio sem a bonança, se a namorada não te esperava do lado de lá, terás que sentir o vento contra e caminhar sem rancor contra a sorte, tudo e todos, sem lenço, documento, dinheiro na carteira, recompensa na algibeira, soldos, e não terá casa de fim de semana, praia, Copacabana, rede para gozar uma existência bacana. Como pega mal reclamar, lamentar, choramingar, nada como uma crônica para repartir o fardo de maneira dissimulada e se livrar da agonia também crônica.


Nasci com dez anos de atraso real, minha mãe não podia ter filhos, após longo tratamento vim com dez anos de atraso, esses dez anos me tiraram dos anos sessenta para o bem e para o mal, houvesse nascido nos anos cinquenta a minha geração musical teria tido outra sorte, mas talvez alguns de nós morreríamos nos cárceres da ditadura, mas ninguém morreria anônimo, nem de tédio, nem de fome. Em meu caso esses dez anos se tornaram um karma, não devia ser artista, não reunia as condições psicológicas em minha formação de pessoa para sê-lo, a autoconfiança que se precisa para pisar num palco, mas não consegui, tão pouco pude evitar, e assim subi no palco dez anos depois de todos que conhecia, sai assustado da coxia e fui como inseto para as luzes, também dez anos depois começaram a chegar as canções de verdade, dez anos depois iniciei uma carreira temporã e assim fui, e assim foi, nasci com o bonde perdido correndo atrás da própria história por uma ponte etérea sobre um abismo maciço de pouca glória; talvez um dia me encontre do lado de lá num largo sorriso, talvez seja um ajuste de contas, talvez os dez anos de atraso me jogue da ponte antes da hora no precipício, talvez nunca acerte o relógio da minha vida e ande por essa ponte como se esteira, sem nunca sair do lugar, só canseira.


Só sei que nada me foi fácil nessa ponte sobre o abismo de quem sempre nutriu vertigem de altura, mesmo assim vou operar o septo, fazer um corte na voz difícil e me livrar das zombarias dos amigos, mudar de nome, de sacrifício, consertar as vogais do desencanto consoante ao bel canto que sempre busquei, mesmo que nunca chegue o canto ao encanto, à sorte que nunca andei, que nunca acerte os ponteiros dos malditos dez anos, passarei a vida sonhando encontrar comigo do outro lado da ponte para fazer aquele samba de fato, aquele que vale uma vida sobre a ponte, aquele que será eternamente lembrado e depois, só depois, me calar como cheguei, sem fardo, e me jogar pacificado.

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