sábado, 12 de agosto de 2017

Deia




O Karmanguia Lilás da minha tia. Meu tio milionário, muito gente boa, pessoa esquisita, mandou fazer dois dessa cor, um pra esposa e outro pra amante, o da minha tia foi entregue embrulhado em celofane em cima de um caminhão, coisas dos anos 50 ou 60, minha tia, a melhor cantora que conheci no mundo e que tive a sorte de virar várias madrugadas na seresta, encontrou com o outro Karmanguia Lilás no centro de São Paulo, foi um barraco high Society, minha tia foi uma cantora dos anos 50, uma mulher fora dos padrões do seu tempo, foi criada pelo meu avô coronel do café, um homem severo.

Tia Deia fazia gato e sapato do coronel e namorava a cidade inteira nas barbas do velho. Leila Diniz dos anos 30, foi pra Sampa sozinha , convenceu meu avô, o coronel. Com um violão no estojo começou a ganhar dinheiro na viagem, cantando no trem. A Deia era uma cantora hipnótica, uma Diva, quando ela cantava algo sagrado acontecia e ela conseguia a atenção de todo mundo, bom gosto, afinação, timbre, swing, venceu a Hebe Camargo num concurso de cantoras. Queria tentar recuperar alguns áudios da tia Deia e digitalizar, queria ir atrás desses áudios, são precários, mas é uma cantora de uma musicalidade absolutamente fora do comum, ela entrava num coral com cinco vozes e fazia a próxima já em primeira audição, os vocais dela desafiavam o ouvido humano.

Viveram a loucura dessa paixão fatal a vida toda, separados, ele fez outra família, em toda seresta tinha uma hora que ela contava as histórias dos encontros e desencontros com o marido, ela era muito engraçada, bonita, charmosa, classuda, carismática; meu fascínio pela música veio dela e das festas que promovia, o repertório era basicamente samba canção, música de dor de cotovelo como se chamava, Maysa, Dolores, Lupicínio, mais boleros, tangos, música caipira e guarânias paraguaias com violão e harpas, até hoje ouço aquelas harpas dentro do meu silencio.

Meu tio havia comprando uma fazenda paradisíaca para essas serestas chamada “Bom Viver”, um dos lugares mais lindos que conheci: ficava em Itu, tinha uma casa de fazenda grande com uns cinco quartos em cada extremidade da vasta sala, uma cozinha de fazenda e outra moderna, um salão de jogos de vidro, um salão de boliche, um lago lindo em frente à casa com patos , gansos, cisnes e circundando por flores, uma piscina de água natural dinamitada em uma grande pedra, uma coisa linda esse lugar, vastos pomares de frutas, havia uma frota de automóveis Cinca que servia apenas para levar os convidados para as serestas, o motorista vinha nos buscar em casa, a cantoria ia noite adentro, as crianças eram postas em um quarto para dormir, mas eu pulava a janela e penetrava na festa, de tanto insistir ganhei um passaporte especial para virar a noite com eles, e cantava duas canções no repertório deles que acabei aprendendo, eu tinha minha hora no show.

A minha tinha teve uma vida boa e turbulenta com esse homem, cuja faculdade ela pagou com o salário de funcionária pública, ela bancou os estudos dele e ele enriqueceu no ramo de construção civil, era um homem serio, circunspecto, muito culto que gostava de boemia, whisky e serestas.

Ela, quando já era uma senhora velha de idade, tinha um namorado suíço, um médico importante, ele a visitava no mesmo horário todos os dias. Um dia, inesperadamente, meu tio, milionário falido, velho, trabalhando de empregado, o tio Henrique que fez fortuna meteórica e que faliu junto com o milagre brasileiro, chegou na casa dela após uns vinte anos sem ve-la, o namorado médico estava lá, mas nessa idade a gente torce mais pela emoção do outro do que pela vitória, ele sabia o que significava aquele homem na vida da minha tia, o suíço foi embora assim que tio meu Henrique chegou se despedindo educadamente, e ele, meu tio, apenas pediu - posso dormir hoje com você, amanhã vou morar em uma cidade na Amazônia, um trabalho novo, a vida do tio Henrique sempre foi assim, uma sucessão de aventuras, até garimpeiro ele foi, ela disse - claro que pode, ele dormiu na cama dela, foi para a Amazônia e morreu no dia seguinte e ela enlouqueceu, nunca mais se interessou pela vida, perdeu a vontade de cantar, a graça que tinha, ela era muito divertida, engraçada, sabia contar causos como ninguém, tinha uma veia cômica maravilhosa, várias festas de malucos em casa terminavam com todos rindo alto com as histórias das viagens dela com o meu tio pelo mundo, mas a graça se foi com a vontade de viver.

Ainda cantou um bocado comigo quando meu pai estava com câncer, mas era só por mim, tipo ultima missão de cantora dela, fazer duo com a minha dor, eu chegava dirigindo de carro embriagado de outra cidade e ela me esperava com o violão na mão, ficou em casa durante todo o câncer do meu pai, que mulher, eu chegava bêbado, não suportava aquilo sóbrio, bebia para entrar e quando saia do hospital, bebia mais, depois de enfrentar uma serra cheia de curvas eu dirijo bem em qualquer estado que esteja, ela abria a porta com o violão na mão dizendo para eu comer e depois cantar com ela no quintal.

 Eu tenho a tia Deia cantando com a minha prima Analém, outro amor da minha vida, em MP3, é uma loucura, são gravações daqueles gravadores cassetes da década de 70, minha tia viveu da paixão por meu tio a vida toda, uma paixão fatal e imortal. Era uma bolerista de primeira, meio bossa nova, tinha uma vozeirão de mezzo soprano, mas cantava de maneira dosada, com dinâmica e sutilezas, depois que ele foi dormir com ela antes de morrer, foi uma mística derradeira em sua vida, ela foi ficando introspectiva, foi entrando dentro de um fim programado, ela morreu por opção, que amor lindo esses dois tiveram, ela já se acostumara a viver sem ele, mas precisava dele vivo, ele morrera, ela deveria também fazer isso, e assim a cantora da minha vida se foi dessa vida, mas continuou cantando eternamente em minha alma estrelada de noites de serestas na fazenda e canções com aroma de gardênia, “La puerta se cerró detrás de ti....

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