terça-feira, 28 de março de 2017

A constatação que "Eu Te Amo"





Sabe o que me enlouquece no Tom?, é que ele compõe com o ouvido total da música, é o compositor, o maestro, e o arranjador a serviço de uma espontaneidade que pouco se vê, na primeira volta que a frase melódica dá em você, ela já te leva, e a maneira como se sucedem as frases, moças, é quase adivinhável, mesmo que venha com um frescor virginal das estreias, as vozes da harmonia alteram cores e revelações, a música pede para ser resolvida, mas às vezes ela se nega, ao invés de confirmar a modulação, ela, misteriosa, resolve andar alguns compassos entre dois mundos, dois tons, nenhum tom, Tom Jobim, e quando enfim decide pousar, pousa na jaqueira do tom vizinho, cheia de passarinhos. Como são hits internacionais tão batidos, a gente perde um pouco o contato com a canção em si, outro dia ouvi o Chico Buarque falando do "B" da Garota de Ipanema, que é incrível né, uma melodia em cascata debussyniana cheia de swing de samba, a música vai sendo devolvida ao "A" em ondas, é o mar chegando em Ipanema, e quando chega ao "A", volta-se à areia, volta-se o passo saltitante sobre a areia da praia, o "A" dessa garota que anda sobre a areia, levando o mundo no balanço; depois tem o trovador da Luisa, o tropeiro do Tema de Amor de Gabriela, o africano de Aguá de Beber, o chorinho de Chega de Saudade, o lirismo dos Anos Dourados, a arrebatadora Lígia, a devastadora e definitiva "Eu sei que vou te amar";
- eu sei que vou te amar, Tom, por toda a minha vida eu vou te amar

                                                                                                  Teju Franco 29/03/2017

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