quarta-feira, 25 de junho de 2025

Ney e sua incrível metamorfose

 Ney e sua incrível metamorfose


Achei o filme do Ney Matogrosso incrível, tudo é bem filmado, dirigido e montado, os atores estão incríveis, mas o que me pegou mesmo é a metamorfose de onde ele tirou a sua arte e seu artista: uma aula em todos os aspectos daquilo que é necessário para criar, acreditar, fazer vir à tona, brilhar, e buscar a própria verdade, o melhor de si.
Como muita coisa em minha vida veio na hora certa, em um momento de crise com a profissão, momentos limiares. Passei por isso algumas vezes, aliás, meu primeiro show de compositor em São Paulo ao final da década de oitenta veio também em situações limiares. Nesse sentido, a vida de Ney é uma ode ao processo de criação, de onde tiramos nossa marca, nossa arte, nossa digital.
Convivi durante quatro anos, no grupo de teatro da Funarte em São Paulo, com a atriz e diretora Myrian Muniz, uma das lendas da nossa dramaturgia, e também muito ligada à música. Myriam me salvou, me destravou, me abriu, me tirou da rigidez em que via e colocava o que entendia por arte. E ela era fhoda, não era para os fracos, seu estilo agressivo, meio terapia de choque, era também uma espécie de psicanalise a cada um que sobrevivesse ao punk rock que era sua pedagogia, mas para quem queria era uma oportunidade e tanto.


Convivi com a diretora e a professora, e testemunhei a atriz em sua volta aos palcos, quando Gianfrancesco Guarnieri a resgatou após dez anos sabáticos em que ela se afastou dos palcos, do cinema e da TV, ele escreveu uma peça sobre essa espécie de exílio a que ela se impôs e ela teve que voltar, e na estreia, quando entrei em seu camarim levando flores, eu vi aquela monstra tão frágil como a gente nas estreias de teatro amador em que ela nos dirigia:
- nossa!, Myriam, você está diferente

- claro, querido, estou com o cu na mão como todo mundo

Vi aquela mulher nos destruir por um ano para tirar a fera de dentro da gente, era choro, desânimo, vontade de enforcar aquela pessoa, prazer, gozo, vaidade, tudo junto e misturado.


Fiz a relação com o processo do Ney instantaneamente vendo o filme. Lembrei das histórias que o Marcelo, seu assistente me contou de quando a Elis a procurou, Elis destruída, travada, a primeira faze da Elis de cabelo curto, quando o marido, que acabara de abandoná-la, a tinha domesticado em cantora de bossa nova. Uma versão cool da Elis, cantando baixinho, voz presa, corpo preso, sentada no banquinho, nada contra nada disso, para Nara, por exemplo, mas Elis não era isso, não era assim. Eis que alguém a mandou procurar a Myriam, ela queria montar um show diferente, queria se soltar

.
- Myriam, eu tô travada, não me encontro, não me solto, não me reconheço, me salva, estou disposta a tudo
- Nega, você tem uma personalidade do cão, eu também, nós vamos nos matar, nega, isso não vai dar boa coisa
- Myriam, eu tô no chão, eu não voo mais, eu quero voar
- Eu sou louca por você nega, e não quero ganhar uma inimiga, você não vai querer receber ordens de uma velha louca te pedindo para fazer coisas absurdas
- eu vou te obedecer Myriam, eu juro


Assim começou o show que viria a ser, o maior show de todos os tempos da história do show business brasileiro, o aclamado “Falso Brilhante”; E já começou na base do – você está no chão? Então você vai ensaiar esse show no chão até me odiar tanto que vai querer ficar de pé pra me dar um soco na cara. Elis ficou uma semana cantando se arrastando pelo chão. Myriam fez o que fazia com a gente, foi buscar o hino da escola primária da Elis, foi buscar a ira do rock and roll em “Como nossos pais”, foi levantar aquela giganta destemperada e poderosa chamada Elis Regina.


Foi algo assim que reconheci na metamorfose que resultou em Ney Matogrosso, e que ele operou sozinho, instintivamente. Que mágica a cena quando do nada no camarim ele começa a pintar seu rosto, fazer aquele figurino louco meio bicho, meio gente. A vida de Ney foi regida em ordem militar pelo seu pai, sargento da aeronáutica, um homem rígido cobrando uma masculinidade exacerbada de um garoto que não a tinha. Não era ser fácil ser homossexual naquela época, não é atualmente, naquela época era um massacre, um sofrimento que se expunha ao bullying, ou se escondia a sete chaves, levando a conflitos, amores reprimidos, culpas; e foi daí que Ney tirou seu bicho, seu pássaro homem-mulher, seu enigma. Eu não posso ser o que sou, amar quem eu quiser, então entrego algo que ninguém saberá dizer o que é. Eu me lembro bem da confusão mental que o surgimento dos Secos e Molhados e do Ney causaram no país, em plena fase chumbo da ditadura militar e sua masculinidade tóxica, violenta. Eu era criança, as crianças amavam os Secos e Molhados por conta do “Vira” e creio que também pelos figurinos exóticos, mesmo com aqueles poemas eruditos da literatura.


E a metamorfose assim e ali se deu, com aquela máscara de maquiagem, aquelas plumas e penas de aves, aquele tapa sexo desbundando e desnudando a caretice vigente. Que pessoa corajosa!, que homem inquebrável em sua vontade, personalidade e opinião, Ney venceu a ditadura, a TV, os Secos e Molhados. Alguns críticos bobocas, em minha nunca humilde opinião escreveram que o filme transforma ou reduz a arte de Ney em uma espécie de voyerismo da sua vida íntima, que bobagem! Queriam o quê? Um filme sessão da tarde? Como se a luta pela sexualidade pudesse ser dissociada de sua arte, esta sexualidade de onde tira toda sua vitalidade, originalidade e verdade, tudo justamente do sexo, da busca dessa sexualidade. Quem viu assim, ou escreveu assim, como disse Caetano – não entendeu nada. Ney, na busca de sua arte, precisou se metamorfosear, virou bicho, virou ave, depois virou gente de novo, driblou todas as disciplinas moldes, lugares, esquadros, depois vieram os identitaristas querendo enquadrá-lo, qual o quê!, Ney não gosta, nem admite ser definido por outros, ele escreveu seu caminho com um profundo senso de liberdade e personalidade, venceu a todos, não tentem por essa ave humana em uma espécie da gaiola rotulada, estão perdendo seu tempo. Ney é dono das suas escolhas, da sua vida, muito bem sucedida por sinal. É fácil falar, difícil é fazer o que esse cara fez e continua fazendo. Filmaço!! E você, artista em percurso, aprenda, não escute muito a opinião dos outros, as críticas, os empresários e produtores, Beatles, Simon, Gaga e tantos outros seguiram seus instintos, se for necessário desagrade, contrarie parentes e amigos, pinte sua cara, mas siga seu instinto, não há outro caminho. Alguém não gostar faz parte do jogo do ofício, toda unanimidade é uma merda bem embalada, incomode, desagrade também. Viva Ney!
Teju Franco 25/06/2025
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