quinta-feira, 3 de junho de 2021

Coisa que não se faz



Coisa que não se faz

 

Ela leva na boca todos os sorrisos do mundo

Um piano que alguém toca

Nos lugares mais recônditos

Ela tem uma fantástica fábrica de histórias de amor

Cartas mágicas

E as tira com delicadeza do realejo

Sua alma de abarcar o mundo

Se aquieta então

Por um momento

De ternura

De desejo

E ela escreve suas histórias de si

Na ponta dos lábios  

Como beijos

A menina fala do pai

Do amante

Dos maridos

Mesmo maldizendo

Ainda os mantém

Queridos

Cada vírgula, frase, sorriso, expressão

Cada tesouro desse ouro da paixão

Tardes de outrora

Noites de gardênia

Palavras à brisa do mar

 

Ela pode alegrar todas as madrugadas do mundo

Com sua vontade invencível de amar

E dormir triste

Indefesa

Sozinha

Como uma atriz

Depois do espetáculo

Mas haverá de acordar outro dia

Pronta, puta, madame, Maria, Rosileide

E mais um dia se cumprirá de mestra de salvar mundos

 Pela tarde

E mais uma vez ela verá o pôr do sol

Com seus olhos ávidos

De amor

Ninguém nesse mundo ama o amor mais do que ela

Ninguém!

Ah! Quantos homens, dores, primaveras passaram

Quantos invernos sem ninguém

Quantas noches calientes de verão

Quantas vezes ela arrumou-se como da primeira vez

Para a próxima jornada

Ela sabe da sua glória e da sua adaga

Como começa, como termina

Essa mulher

Essa menina

Por isso essa pressa de amar

Companheira constante

A vida perto dela vibra alto-falante

É como estar sempre às vésperas do grande final

Quando sobe o som do cinema

Se ele vem, se não vem

Tudo bem

Ela também tem uma fábrica de grandes finais lacrimosos

Felizes

Ociosos

Tristes

Gozozos

E todo dia no Cine Silvia tem estreia

Sofia, Julieta, Dalva, Macabeia

Ser feliz

Ser triste

Que importa?

Nada importa além do amor

E sua transitividade carnal

Verbo da carne

Do fogo e do frio

Para o bem

Para o mal

Vale tudo

Menos não amar

Coisa 

Que ela

Que faz tudo

Nunca faz

 

Teju Franco 03/06/2021


 

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. mas eu que nem nunca fui rainha, nem me chamo inês, muito menos a marília do dirceu, nem lolita de nabokov, nem karênina de tolstoi, muito menos albertine de proust e nem beatrice de dante,na divina comédia. sou muito mais importante que todas elas. porque fui premiada com um amigo pra lá de poeta, pra lá músico, pra lá de compositor, pra lá de cronista... meu amigo que apareceu numa noite do primeiro dia, do primeiro mês, assim como bons presságios... e eu nem tinha pedido a iemanjá, nem nada! e da minha tela para minha vida - sem retorno. e me faz crescer todos os dias. sabe de uma coisa? que tô insuportável... nem converso com quem não tem poema sobre si. estou tão feliz!!! bjssss.

    ResponderExcluir