quarta-feira, 2 de junho de 2021

Silvestre

 



Se ela sai do conto

E não entra na história

Um rapaz desavisado na estrada sobra

Onde era mesmo o festival

Where is the band?

Saio bêbado como os garotos de Shakespeare após o baile

A noite é uma mulher de tranças incompreensíveis

O amor um adolescente com frio na barriga

Mercutio recita o incompreensível

Romeu se droga, incognoscível

O baile se mascara

Onde nada pode

Ela mora lá

Onde tudo se pulsa e nada se decifra

O coração não sabe das coisas

Corre nos labirintos das veias abertas

Como um louco atrás do choque

 

Ela se trança nas torres do castelo

Me tranco em transe na cela dos mistérios

Seguro as barras de Clarice com as duas mãos

“Paisagem com pássaros amarelos” de Klee não pede

Diz a flor de Lispector

Eu olho incrédulo por entre as grades

Qual seria a história da liberdade?

 

Vejo um parque perdido na tarde

Ela flanando entre os verdes

Silvestre

Com seus cabelos de fogo

Passagem espectral

“Whiter Shade of Pale”

Num lapso de tempo se despe

Desfila “Lay lady lay”

Pelo carnaval

É vida ou éter?

Pego o lenço que ela distraidamente deixa cair ao chão

Pulo sete andares de mim

Subo treze galpões a mão

Fujo da prisão

Enfim

Me invento no vento

Me sopro como flauta doce

Transversal

A música flui

Linda

Mas pra onde?

 

Teju Franco 02/06/2021





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