Às vezes penso se mais alguém tem o hábito de se enganar por um pouco de emoção, sou bom nisso! Gostaria de me apaixonar mais facilmente, mas não sou fácil, me engano com todas as emoções e sentimentos, mas com a paixão não consigo, não consigo entrar numa coisa fazendo de conta que estou apaixonado, ao contrário, quando entro nessas circunstâncias, entro dizendo pra mim - não tem paixão, mas talvez possa ser legal assim mesmo, mesmo por que se a gente fosse depender de paixão o tempo todo, acho que não virava né, ficaríamos a maior parte da vida a sós.
Não consigo me convencer da paixão, a paixão quando me ocorreu, foi sempre tão fácil de ver, a cidade se transforma subitamente, o caos se mostra e é bonito, lindo, é como ver um filme e reconhecer a sua personagem que encanta e apavora. Eu senti isso poucas vezes, mas é impossível confundir isso, a vida vira de ponta cabeça, as cores ficam mais vivas, radioativas, existe um frêmito no ar, um sinal vermelho de batom dizendo – perigo! O tempo ganha medidas diferentes, a tal memória emocional, existe uma euforia dos sentidos, quase uma síndrome, você come demais ou come de menos, dorme demais ou dorme de menos, não há lógica na dança das horas, o tempo do amor é o tempo do amor, só ele que sabe, as cores e luzes do dia ganham outras dimensões, se misturam compondo coisas.
Não consigo me enganar que estou apaixonado, consigo me enganar que estou feliz, triste, esperançoso, enfim, sou um bom enganador, mas não da paixão. Mas criei meus mecanismos e brinquedos, meus games, sou muito ligado ao espaço e tempo, lugares e fatos, não sei de onde vem isso. Então às vezes crio jogos, pequenas farsas do tempo e do espaço. Como outro dia em que fui ensaiar com uma cantora que vai cantar comigo, quando ela me passou o endereço “Rua Maria Figueiredo”, me excitei secretamente. O prédio dela fica bem próximo ao seu, um pouco abaixo, um “predinho” charmoso pintado de uma cor rubra, não sei definir. Bom, fui lá, ensaiamos até umas 19h30min e saindo do prédio o frio do inverno paulistano cortou-me em espelho de memórias partidas, cacos de vidros encantados, não resisti e fui ladinamente pisando nesses cacos como quem segue uma trilha, um rastro, fui a um encontro com o passado, fui caçar magia com as narinas ao vento, fui como quem segue um cheiro, como quem procura uma porta no tempo, uma taboa de salvação, um milagre, fui como um tolo que não sabe o que faz, um insensato, como a crença que não precisa de motivo, fui...
Espiar o seu prédio, andar pela calçada, tentar ver as salas através de janelas e cortinas, e plantas, e pianos com sinhás moças, e era Junho, não por acaso o mês do meu nascimento e do seu nome. Lembrei de tudo intensamente quando vi o prédio, senti um cheiro de lavanda, uma música flanando, o intervalo de tempo transcorrido entre o domingo que te vi e a terça em que nos encontramos para nos conhecer, esse interlúdio trilhado por dois discos musicais que voavam ao meu redor lançando raios e neons giratórios em minha cabeça de vento verde: era um disco de seresta de um cantor da noite que eu gostava, e um disco do Sá e Guarabira chamado “Quatro”, esse tinha uma música específica, o de seresta não, o de seresta era uma onda, uma sensação de trovas e juras de amor eterno, como quando li Shakespeare a primeira vez; já o disco “Quatro” era ouvido também, mas continha uma música que recorria sobre tudo, essa música se chama Alucinante Alice. Acho que nunca te disse isso, curioso, esse disco sumiu, mas deixou a capa, eu não posso ouvi-lo, mas posso vê-lo, a relação oposta se da comigo e você, eu escuto você falando vez ou outra ainda em minha cabeça , após tantos anos sem te ver, escuto, mas nunca posso vê-la, nunca, nem falar, nem saber nada, nem trocar um email de fim de ano, nada, absolutamente nada, seu Orkut é trancado a sete chaves, seu face book é trancado a sete chaves, existem sete titãs mantendo a distância entre a gente, eles foram incumbidos de fazer-se cumprir o nosso fim, eles nunca deixarão eu me aproximar, eles possuem a chave de todos os espaços e os mantém sempre fechados e bem trancados, eles não deixarão eu ver a sua face nunca mais, eu sei disso.
O prédio está exatamente igual, nada mudou, visualizei a portaria, o hall de entrada com uma luz cor champanhe, tapetes mágicos, plantas de outro mundo vivas e carnívoras, tudo no hall era coberto de uma tênue radioatividade de tom pastel, só a parede do fundo do corredor que levava ao elevador era destoante, era de um azul esverdeado cintilante, a porta do elevador também, era branca avermelhada incandescente, havia um telefone que latejava a espera de alguém.
A porta do carro, o portão do prédio, a portal do hall, a porta do elevador branca avermelhada incandescente, a porta do apartamento entreaberta na névoa amarelada magenta do abajur, aquarelas estranhas, a porta que entrei há algumas eternidades atrás, com as pernas trêmulas e toda a coragem do mundo para voar alguns andares acima de mim, e entrar em seus domínios: um território alienígena de parentes e histórias, de teclas brancas e pretas, do teu agasalho verde de gênia das mil e uma noites, da estação tropical úmida, perdida entre a menina virgem e a nave mãe, o riso marfínico branco, as flores na palma da mão silvestre, a face de maçãs vermelhas esverdeadas, a arvore do sexo no centro do mundo, deuses do mal vigiando, deuses do bem colorindo as frutas oferecidas a nós, pronto: me pus no sonho, a sorte foi lançada, nascemos, crescemos, comemos o fruto, fomos expulsos, virei o fruto do vosso ventre. Mamães e papais quem são vocês? Viramos uma espécie de planta doméstica, sua boca dizendo - moço, deus do céu, o que foi aquilo, aquele espelho d’água que mistura faces, eu era lindo e não sabia, foi preciso me ver em você, não sabia que os amores eram estetas, protetores, violadores, astros desastrados de uma farsa bem armada.
Lembrei que a morte quase se fez súbita ao primeiro beijo, sai da sua casa em pistas aneladas de saturnos em festas, sai dirigindo como se regesse uma sinfonia, uma grande orquestra, perdi o controle da orquestra na primeira curva da Vinte e Três de Maio, meu carro estava na oficina e eu estava com o carro do Tonico, pior, da mãe do Tonico. Desci a via em direção a curva do DETRAN com beijos voadores cometeando dentro do pequeno Fiat, eles se chocavam contra os vidros do carro e vinham em direção a mim, ávido de beijá-los todos, fiquei tonto, o mundo girou, o Fiat também, eu vi o guardrail, escutei um estrondo, os amores explodem muito alto, eu não sabia, e o carro bateu acordando-me do transe, nada do que eu sentia tinha a ver com morte, eu exalava vida pelos poros, segurei o volante como quem segura a mão de um herói, a morte rodopiava, jogava o carro de um lado para o outro, e eu fui voltando para o mundo em que tudo era vida, premência e frêmito, desespero, aconchego, represa e vazão, fui controlando essas duas forças no volante do Fiat , consegui recuperar o controle do carro, mas ele estava destruído, fazia um barulho absurdo, não sabia que os amores atropelavam as coisas assim, que podiam destruir, que atentavam contra vidas em sua velocidade autoemotiva.
Seria o beijo da morte, de uma determinada maneira, foi mesmo, não sabia que o coração podia bater em silencio, em coma profundo, em fermata de pausas infindas durante anos, não sabia tanta coisa, eu era jovem, lindo e tolo, eu era tão jovem e consegui a grande perda da vida, consegui o castigo eterno, eu era tão jovem e já tinha perdido meu grande amor na ânsia da juventude, quando o encontrei, não era digno de perdão, fui eu que deixei, que parti, que reneguei, que quebrei o encanto do cristal, já tinha a minha maldição, forever Young, eu não cresceria nunca mais, não teria casa, não teria filho, adeus meu amor, eu falava enquanto você crescia como uma gigante a minha frente, adeus amor, enquanto você ia para o hemisfério norte, onde vivem os gigantes inatingíveis...
Fui até o fim do quarteirão para poder mirar o prédio de vários ângulos, como é mesmo o nome, deu branco, será “Edifício Forly”, me veio esse nome à cabeça, o que significara “Forly”? Um lugar, um logradouro, uma praia da França, um bairro de uma cidade longínqua, um sobrenome importante? Voltei pelo outro lado da rua, havia uma lua gelada cortada pela metade no céu negro azul do inverno, lembrei do salão de jogos no térreo, nunca fui muito de jogos, mas passei horas ali, lembrei das fugas noturnas para fumar maconha na Caravan do seu pai que o seu irmão dirigia sem conhecer a cidade, lembrei das suas irmãs todas, belas e loucas, do seu irmãozinho bacana e engraçado, amava todos em sua casa, inclusive a sua mãe que eu fingia não amar, na verdade a veia artística da família veio dela, ela entrou com o delyrio no gen, ficava horas acompanhando-a ao violão. Quando mudei de lado da rua, vi o tamanho da sala e lembrei da outra sala em L, a sala de jantar em que me sentei a primeira vez que fui te buscar, fiquei ali com os seus parentes que eu não conhecia, enquanto esperava você se aprontar. Lembro do seu irmão dizer que era músico, lembro de comentários engraçados de seu pai, daquela forma mineira de receber as pessoas, eu me sentia uma personagem de um filme italiano, eu via aquelas pessoas falando e me perguntava o que fazia ali, eu ali ? A Re não sabia que eu estava ali, a Re que eu namorava há uns sete anos, a Re que cresceu comigo, que sempre foi tudo.
O que eu fazia ali, quem sairia daquela porta, quem eu estava esperando, o que eu fazia ali? E se eu levantasse e fosse embora sem falar nada, simplesmente saísse dali, me salvasse enquanto havia tempo, se eu falasse para o seu pai :- vou embora, não vou casar com a sua filha, adeus; que nada! Eu estava ofegante e trêmulo, conversava com os seus sem tirar o olho da porta que dava para os quartos, a porta que dava para o infinito labirinto de espelhos, o ponto de interrogação entre os mundos, o buraco negro das almas, a partilha dos cromossomos. A minha culpa alimentava uma secreta esperança, você sairia daquele quarto, romperia naquela porta e estragaria tudo, todo o mundo perfeito que eu tinha criado, você seria mais tola, mais chata, seria mais burra, sem graça, eu ficaria farto de você e contaria os minutos para devolve-la em casa. A noite seria arrastada e monótona, eu me sentiria um tolo e um filho da mãe de fazer isso com a minha Re amada, suspiraria aliviado e dormiria com a paz dos cafajestes, após uma tentativa de mijada fora do pinico que não vingou, perfeito, mas não foi bem assim ...
Assim que você rompeu a porta, eu senti que estava perdido, que nada mais seria como antes, fiquei como um planeta desgovernado, tirado da órbita ao encontrar-se por outro corpo celeste, aquela mulher branca cheia de azuis, aquela pele cheia de luas e recantos, aquele silêncio repleto de teclas que “pianavam” voadoras, tilintantes. Lembro da gente no, ainda existente, Café do Bixiga, quando você começou a contar “as histórias de você”, eu tentava me controlar para não babar, não dar bandeira, não me entregar tão fácil, eu dizia – “segura a onda rapaz”, qual o que, por mim já sairia dali e pegaria o primeiro padre, a primeira igreja, o primeiro vestido, o primeiro bordel, não sabia que os amores reconhecem a casa assim à primeira vista, e era essa a sensação que eu tinha: de casa, mas não era casa de família ainda, era a casa da paixão, cheia de perigos, missões impossíveis: ação, ação, medo, coragem, mergulho no mar revolto, era a casa do outro que você tanto procurou e encontrou, que te conforta e te apavora, era o lar desconhecido, era a fantasia de não estar mais só no mundo, lindo isso né, o amor é mesmo lindo, ele vence a solidão com uma mentira, uma história bonita, o amor é um trapaceiro adorável, uma casa de névoa flutuante num oceano de lavandas e bálsamos. Depois foi o beijo, o carro rodando, a conta da oficina e a conta do remorso da Regina que eu deixei com o coração sangrando de culpa três dias depois.
Na volta tentei ver o porteiro, esses guardiões são invisíveis, vi um corredor que ficava acima que eu não me lembrava, continuei singrando sulcos, entrando em sua vida, “seu quarto, suas coisas, sua alma, desvãos”, ficamos adultos, eu e você, descobrimos o bosque proibido, sempre fomos hábeis e parecidos em sacanagem, foi uma festa sagrada em um bordel, uma orquestra afinada, ensaiada, que música era aquela, que intervalos eram esses, que meretrizes e marujos e romeus e julietas, quem comia quem, que bacanal dos deuses, que baque do Baco, do balacobaco, o que era aquilo?
Terminei a quadra, seu prédio ficou para trás, sai como “Alucinante Alice” num País sem maravilhas” onde tudo é dolência opaca e bege. Que bom foi essa volta no quarteirão da sua antiga casa, e eu que achei que não fosse acontecer nada...
Teju Franco 18/08/2010

Excelente ! Parabéns !
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