domingo, 15 de julho de 2018

As insuperáveis baladas da década de setenta. Leia escutando a música abaixo da foto






AS INSUPERÁVEIS BALADAS...

 

Era como se os sentimentos vivessem ao oposto da lógica da vida.

 

O ápice da festa se dava ao desacelerar a música. Os primeiros acordes soavam com um frio na espinha porque você sabia que era a hora em que deveria, ou não, tomar uma atitude; toda a sua coragem estava ali, sendo posta à prova. De longe, você avistava a dona dos seus medos todos, a senhorita apocalipse: uma moça de quinze ou dezesseis anos, que carregava com ela todos os mistérios do mundo, da magia, da diferença, de tudo que você não sabia.

 

E aí? És um homem ou um rato? Coragem! Você respira fundo, dá mais um gole na cuba-libre, e parte rumo à gloria ou ao desastre. No caminho, junta toda a falsidade de que é capaz para se mostrar senhor de uma situação que lhe aterroriza, figas na alma e vamos lá...

 

- Oi, vamos dançar?

 

Um sorriso traz redenção ao mundo insano de tantas coisas além dos dezesseis anos. O mistério dos cabelos loiros a cinco centímetros da minha existência sem graça, agora em glória. Um perfume me prende a uma cúpula, existe algo em volta de mim que eu não sei o que é. Tantos meses sonhando com aquilo, olhando de longe na escola, tentando adivinhar as palavras em leitura labial. De repente, estava tudo ali, tão próximo, as faces quase se tocando. Ela, surpreendentemente, quebra o silêncio – as mulheres já nascem sabedoras das palavras certas, das surpresas todas:

 

- Pensei que isso nunca mais fosse acontecer

 

- O quê?

 

- Isso, a gente se conhecer

 

- Eu te conheço, Maria Julia, só não tinha chegado ainda porque... Ah!, não sei por que, pra ser sincero, não sei por que, receio, talvez...

 

- Faz tempo que eu acho que você fica me olhando de longe, mas não tenho certeza

 

- É, eu “tava” mesmo, mas “tava” esperando a hora certa (hora certa, tu "é" relógio, babaca? Que coisa besta de se falar!)

 

- Por quê?

 

- Isso eu não vou saber te responder assim, é complexo (o que será essa complexidade toda, tão madura? Só Deus sabe rsrs)

 

- Mas você queria falar comigo por quê?

 

- Porque você é a única pessoa que me interessa naquela escola

 

Naquele momento, você sente o rosto se aproximar mais, pele à pele, a boca a alguns oceanos abaixo, o descompasso das respirações se junta em polirritmia. O perfume da pele fica mais nítido, sobrepõe-se às fragrâncias artificiais, as mãos suadas começam a se conhecer, o seio encosta no peito, a textura da pele; meus Deus!, me salva. Onde as mulheres aprendem a entregar cada centímetro de distância como a terra prometida a prestações?

 

A música está acabando, maldição, justo agora que eu ia beijar, eu juro que ia, não beijei e vai acabar a música; o que faço? Sem pressa, não vá estragar tudo, pense em algo. Convide-a pra conhecer a piscina, você conhece a casa.

 

- Vamos tomar uma cuba-libre na piscina?

 

- Tem piscina?

 

- Tem sim, é linda

 

- Vamos

 

Ufa! Agora é só esperar a próxima música lenta.

 

- Você é amiga da Fernanda né, a Fe é super gente boa

 

- Ela te adora, falou super bem de você, que você ajudou o irmão dela

 

- Eu queria perguntar de você pra ela, mas fiquei com vergonha

 

- Perguntar o quê?

 

- Tudo: qual sua música preferida, filme, livro, signo, comida, aniversário, endereço, telefone, quem você mais detesta, quem você mais gosta, deixa ver se esqueci algo...

 

- Chega, não sei isso tudo, vou responder só a última: quem eu gosto mais é quem está comigo agora

 

Olhos nos olhos, nenhuma folha cai no universo nesse momento, nada no mundo detém os lábios quando estão certos de si com dezesseis anos, quando traçam o caminho do beijo. Tudo se cala em um beijo nesse mundo, pode crer, e também pode me esquecer, mundo, agora eu não atendo a ninguém, não escuto, nem vejo, agora sou dois no meu desejo. Que beijo! O mundo umedece doce, a madrugada orvalha aliviada, a vida é doce. Começa a próxima música lenta:

 

- Vamos dançar essa?

 

- Segunda resposta respondida: é a minha música preferida

 

- Whiter Shade of Pale? Ah!, Maria Julia se revela aos poucos

 

- Sagitariana, terceira resposta.

 

Bye, vida besta, hoje é o meu dia e a música lenta vai parar o mundo para eu dançar, todo mundo devagar, a Terra gira devagar, "Whiter Shade of Pale". Tire a sua pressa do caminho que eu quero passar dançando com a Maria Julia. A música é lenta, a noite é infinita, a paixão é veloz como os hormônios adolescentes. Tenho dezesseis anos e não tô nem aí pra nada, tenho todo o tempo do mundo nesta noite... Lua crescente...

 

Teju 15/07/2018










4 comentários:

  1. Que bacana...me transportei pelo tempo aos anos 70. Só quem viveu sabe sobre essa intensidade da qual você fala... obrigado brother!

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  2. Vc não vale, é suspeita pra falar, é a Maria Julia versão mãe kkkkkk

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