Vamos, meu amor, viver de poesia?
O dono do mundo rasgou o dinheiro,
Deus perdeu o emprego,
nada que se conhecia tem mais valia.
Vamos, meu amor, que a noite está linda e tudo é de graça:
as estrelas no céu, os bancos da praça, o vinho na tina.
As ondas espumam sonhos prateados de lua
por costas infindas...
Guitarras tocam apaixonadas por iluminadas ilhas...
Vamos, meu amor, viver de poesia;
que a noite é uma lira que o amor dedilha
e o tempo perdeu a hora, o trem,
a chave do cofre das notas.
Vamos dançando... bailando...
Existe uma festa, uma fresta entre as palavras mágicas...
Uma orquestra de neon e baile em que tudo se valsa.
Vamos, meu bem, viver de poesia?
Encher a barriga da alma de luz e dançar ao meio-dia.
Vamos sambar lá no alto, acima do medo,
da cólera do mundo,
e triscar a noite como um astro reluzente,
um cantar vagabundo,
uma menina contente...
O mundo é uma farsa,
nada é real além da palavra que a tudo nomeia,
só a poesia é concreta.
Vamos, meu amor, viver de poesia.
A vida tem esperança e ela dança criança de conto e magia
por calçadas e jogos de amarelinha.
Vamos namorar, brincar, bailar, beber, comer, transar...
O mundo é assim mesmo: um belo poema.
E quem fez de outro jeito foi um deus com defeito,
foi um homem sem jeito que não sabia amar, nem viver.
Vamos, meu amor, viver de poesia?
A partir de hoje, ninguém mais morrerá.
Seremos eternos em nossa própria grandeza
que se traveste em palavras...
Uma palavra pode qualquer coisa.
Nossa arte de sonhar além foi quem disse a que vem
e nos trouxe até aqui.
Nossa arte de sonhar além...
Vamos, meu amor, viver de poesia.
Que coisa melhor não tem!

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