Ela era vibrante
Havia uma juventude que conferia a tudo uma emoção estreante
Ela era leve
Flutuava sobre o peso das coisas com calma, compreensão
Vivia como uma artista
Colhia o detalhe de cada beleza em seu dia a dia
Como a cuidar de um jardim
Ela era feliz
Um humor contornava as coisas boas e más com espirito
De festim
Ela era generosa
Distribuía seu talento sem vaidade
Percebia e valorizava todos a sua volta
Suas palavras eram cuidadosas
Em buscar a melhor leitura do seu texto existencial
Sem magoar seus semelhantes
Ele era frio
Havia uma canseira velhaca em sua rotina de repetir as
coisas
Ele era pesado
Pesava sobre si as maldades e insensatezes do mundo
Vivia como um ressentido
Colhia recalques pelo reconhecimento que julgava merecer e
não tinha
E se envenenava em silêncio
Ele era soturno
Uma violência radicalizava as coisas inevitáveis das
imperfeições humanas
Ele era egocêntrico
Nutria-se da própria vaidade
Destravava fácil o tambor das palavras como quem usa uma
arma
Atirava seu texto como uma metralhadora giratória
Na dúvida partia para o ataque
“Ela” encontrou “ele”
E ali ficou
Buscando a melhor leitura
Do texto que não batia
Compondo argumentos para justificar o dia a dia
Os dias se sucederam
Se acomodaram aonde não deveriam
E ela já não sabia como sair
Nem por que ficava
Mas ali tudo que lhe era virtude se desperdiçava
Às vezes uma bofetada em forma de palavra a sacudia
Ela até pensava em reinventar o mundo
Cair fora
Mas já não havia força
Nem se ele mandasse
Já se acostumara a sucumbir sua juventude ao velhaco
ranzinza
A ancorar sua leveza nas botas do troglodita
A trocar as cores das coisas pela ranço da vida sempre cinza
Não era uma prisão
Nem tampouco satisfação
Nem era mais amor
Quando se mata o seu melhor por alguém
Mata-se a emoção, a paixão, a ilusão, a essência
Troca-se o viço pelo vício
Não há como culpar a existência e suas imprecisões
Quando a escolha é infeliz
Ela era uma janela aberta para o mundo
Ele um quarto fechado
Mas o amor que acerta ou erra nada diz
Quem há de dizer
Parece óbvio o erro pra quem olha de fora
Mas não é
Viver é sempre por um triz
Mas as escolhas podem ser pra vida toda
Se alguém assim quis...
Teju Franco 19/11/2022

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