sábado, 19 de novembro de 2022

Escolhas


 

Ela era vibrante

Havia uma juventude que conferia a tudo uma emoção estreante

Ela era leve

Flutuava sobre o peso das coisas com calma, compreensão

Vivia como uma artista

Colhia o detalhe de cada beleza em seu dia a dia

Como a cuidar de um jardim

Ela era feliz

Um humor contornava as coisas boas e más com espirito

De festim

Ela era generosa

Distribuía seu talento sem vaidade

Percebia e valorizava todos a sua volta

Suas palavras eram cuidadosas

Em buscar a melhor leitura do seu texto existencial

Sem magoar seus semelhantes

 

Ele era frio

Havia uma canseira velhaca em sua rotina de repetir as coisas

Ele era pesado

Pesava sobre si as maldades e insensatezes do mundo

Vivia como um ressentido

Colhia recalques pelo reconhecimento que julgava merecer e não tinha

E se envenenava em silêncio

Ele era soturno

Uma violência radicalizava as coisas inevitáveis das imperfeições humanas

Ele era egocêntrico

Nutria-se da própria vaidade

Destravava fácil o tambor das palavras como quem usa uma arma

Atirava seu texto como uma metralhadora giratória

Na dúvida partia para o ataque

 

“Ela” encontrou “ele”

E ali ficou

Buscando a melhor leitura

Do texto que não batia

Compondo argumentos para justificar o dia a dia

Os dias se sucederam

Se acomodaram aonde não deveriam

 E ela já não sabia como sair

Nem por que ficava

Mas ali tudo que lhe era virtude se desperdiçava

Às vezes uma bofetada em forma de palavra a sacudia

Ela até pensava em reinventar o mundo

Cair fora

Mas já não havia força

Nem se ele mandasse

Já se acostumara a sucumbir sua juventude ao velhaco ranzinza

A ancorar sua leveza nas botas do troglodita

A trocar as cores das coisas pela ranço da vida sempre cinza

 

Não era uma prisão

Nem tampouco satisfação

Nem era mais amor

Quando se mata o seu melhor por alguém

Mata-se a emoção, a paixão, a ilusão, a essência

Troca-se o viço pelo vício

Não há como culpar a existência e suas imprecisões

Quando a escolha é infeliz

Ela era uma janela aberta para o mundo

Ele um quarto fechado

Mas o amor que acerta ou erra nada diz

Quem há de dizer

Parece óbvio o erro pra quem olha de fora

Mas não é

Viver é sempre por um triz

Mas as escolhas podem ser pra vida toda

Se alguém assim quis...

Teju Franco 19/11/2022 


 

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