Juro que me espanta o tanto de gente da minha idade ainda tão preocupada com os próprios egos. Depois de tanto apanhar da vida minha preocupação é acertar e não cuidar da própria imagem, ter razão ou coisa assim.
Myriam, com sua didática, era terrível nisso. Para ela, ego e arte não se bicavam, um artista para se entregar tem que estar destituído de ego, ele é instrumento e não causa. Myriam destruía para reconstruir e muita gente não aguentava isso, eram muitas pessoas que chegavam lá e abandonavam o curso nos primeiros meses, as modelos com ambições de serem atrizes não duravam um mês, as cantoras da noite ou de bailes repleta de vícios de interpretação também sucumbiam à fúria de Myriam.
Até hoje não sei como ela e Elis Regina não se mataram naquele show antológico, mas elas não se mataram, se amaram profundamente.
Para Myriam um ator ou artista deveria estar desprovido de si para se por a serviço de algo maior, no caso, o teatro, a música, a dança. Sendo assim, ela percebia seus pontos fracos, suas máscaras e atacava ali ferozmente, incessantemente:
Se você era muito macho ia ter que virar mulher, põe aquele vestido vermelho nego, você agora é uma prostituta alemã, você ria de nervoso toda vez que tinha que fazer uma cena - nego, sua mãe morreu, entendeu, mostra a sua dor, por que você tá rindo maluco, sua mãe acabou de morrer, vc é psicopata?
Ela era implacável, não era qualquer um que aguentava, mas quem aguentava, quem queria muito e acima de tudo virar artista e se submetia, com raríssima exceções, chegava à excelência de suas possibilidades, em um ano o resultado era assustador.
Depois de passar por tudo se recuperava o ego, a autoestima em uma pessoa mais focada, concentrada, humilde, até a postura física se modificava.
Myriam era uma salvadora de almas, foi assim que um amigo, o Garfunkel, a indicou a mim - vai lá que a Myriam é a salvação da lavoura; e assim se deu, virei outra pessoa depois dela, todos que passaram por ela sentem a mesma coisa, um divisor de águas.
Deixem seus "eguinhos" pra lá muchachos, ego não faz felicidade, felicidade vem de atitudes mais positivas e construtivas consigo mesmo, não tem nada a ver com autoimagem, até a escuto falar com seu sotaque paulistano "italianado":
- tá preocupado com a imagem, nego, tá? Vá fazer marketing, aqui é teatro, aqui eu quero que sua imagem se foda, porra.
Teju Franco 28/1/2021

Nenhum comentário:
Postar um comentário