sexta-feira, 9 de julho de 2021

Desperdício



É conter o que não cabe em lugar nenhum

Sufocar a grande revolução no peito

É se vestir pra uma festa em que não se vai

É engolir o sol como a um cubo de gelo

Andar com a voz sombra

Tirar a mão do desejo

Tirar o pé da estrada

Esqueçer

A que veio

É fazer da angústia sua melhor amiga

Sair pra passear num domingo de mãos dadas com a ausência

É conter o pensamento

Desarquitetar a capacidade de sonhar

Fazer a mesa e não servir a ceia

É virar o artista da conformação

Pegar uma insolação na tempestade

Ver em quilates o afeto escorrer entre os dedos

Desperdiçado

Cada minuto sagrado

Pó de ouro diluído no cascalho

Num tempo de nada acontecer

Vou encarar mais uma Lua

Tentando não vê-la

Tampar os ouvidos

Quando tocar a música

Vender sorrisos sem graça na banca da esquina

Sobreviver àquilo de que não se conhece vacina

Lamentar-se ao vento

Desabafar às paredes

Abrir e fechar a porta que não sai, nem entra

Como um perdulário

Incapaz

Indeciso

Desventura

Andar atrás do que te escapa

Do que não depende de ti

Viver na eternidade em que tudo que há pra fazer é eperar

Por a roupa de domingo

Para o grande feriado

Do desperdício

Caminhar

Depois voltar pra casa e dormir no hospício

Da paixão

Sozinho

Com um sonho na mão

Sem gaveta pra guardar

Teju 09/07/2021





 

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