segunda-feira, 5 de abril de 2021

O anjo do medo


  
Desde muito cedo sabia do medo e do fascínio que as mulheres causavam em mim, tive grandes amores em idade que os meninos não pensam nisso. Começou no primeiro ano primário, eu não fiz pré; uma loirinha da classe chamada Ana. Era uma escolinha pequena de bairro no último tobogã da avenida Pompéia, Ginásio das Nações, a primeira professora de música Cecilia Gorini é minha amiga aqui, ela não vai lembrar da Ana, mas eu lembro.

A Ana tinha um ramster do qual não se separava nunca, então deixaram o ramster frequentar uma semana de aula até ela se acostumar com o fato de que ratos não vão à escola.

Fiquei louco por ela assim que a vi, o ramster chamava-se Frederico, era gente boa, o ramster, ela também era, andava pela classe durante a aula roubando–nos a atenção vez ou outra, o ramster, ela ficava estática em sua carteira de fada. Todos queriam o bichinho embaixo de sua carteira, eu queria a Ana. Nasci me sentindo bem no precipício da paixão, é a única altura que não me paralisa, ao contrário, me lança ao abismo em que caio sorrindo sem saber aonde, mas não gosto da pressa, sou fascinado pelas sutilezas da conquista.

Bom, meu problema virou conquistar aquele ramster, a paixão é um jogo e, aos seis anos, ele é meio diferente, não precisamos impressionar a família de ninguém, e sim um ratinho chamado Frederico. Depois de dias de dúvidas eu tive uma luz, perguntei ao meu pai o que aquele bicho comia, comprei um banquete ratazânico e o joguei “despretensiosamente” embaixo da minha carteira. O Frederico atraído pelo cheiro do rango começou a frequentar a minha carteira, e assim nos tornamos amigos, irmãos, parceiros, companheiros de copo e seresta, e a musa ficou intrigada com essa nossa “afinidade espontanea”. Conversas sobre bichos, desenhos animados e coisas assim e descobrimos que morávamos perto, algumas ruas pra lá ficava o mistério que me inebriava, e eu nem sonhava.

O anjo do medo se tornou ótimo, apesar do medo, e marcamos um dia para brincar e depois outro, e outro. Depois ela foi embora, mudou-se de estado. Falava-se algo na escola que o pai dela, que era jornalista, estava sendo procurado pela direita militar, e eles saíram às pressas.

Passei alguns dias indo à praça em que a gente brincava, mas o parquinho parecia não brincar, perdera a graça, o balanço não balançava, apenas eu, a gangorra não subia, só eu caía, o carrossel não girava mas eu me perdia num céu cor de rosa giratório.

O anjo do medo escorregou pelo escorrega e nunca mais voltou e eu descobri que era um tocador de flauta, que amava tocá-la quando algum anjo, que me apavorasse, cruzasse o caminho, e me deixasse assim como um menino que nada soubesse e tudo quisesse, um eterno estreante.

Teju Franco

7 comentários:

  1. Lindo post! A imagem foi bem escolhida. Parabéns pelo seu blog. Você é, genuinamente um escritor amoroso e gentil.

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  2. Cara, que delícia de ler. Você escolhe as palavras como se a Ana fosse identificá-lo. E acabamos nós - talvez a Ana também- trazendo para o parquinho todas as “comidas de bicho” que improvisamos desde sempre. A sutileza que comenta no início do texto acompanha toda a sua escrita. E também (TENHO CERTEZA DISSO) toda a sua forma de amar. Amei. O texto também.

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  3. Lindo muita sensibilidade. Parabéns amigo. Amei .

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  4. Que delícia de texto amigo. Nestes tempos sombrios pude me encantar com as sutilezas e pureza de sentimentos que um dia habitaram o coração enamorado do menino Teju.

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  5. Sabe,eu não me manifesto aqui nos comentarios mas sou frequentadora assidua desse seu blog. Passo pra ver se tem texto novo, e qdo não tem, sinto falta.
    Amo suas narrativas, suas estórias curtas, suas quase crônicas, a estética e as fotos ilustrativas.
    Por favor, venha mais. Deixe-nos mais dessas suas poesias tão pessoais-interpessoais que só nos mostra o quanto não estamos sozinhos nessa.
    Te abraço forte e agradeço o prazer e as reflexões que tenho quando te leio.

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  6. Sabe,eu não me manifesto aqui nos comentarios mas sou frequentadora assidua desse seu blog. Passo pra ver se tem texto novo, e qdo não tem, sinto falta.
    Amo suas narrativas, suas estórias curtas, suas quase crônicas, a estética e as fotos ilustrativas.
    Por favor, venha mais. Deixe-nos mais dessas suas poesias tão pessoais-interpessoais que só nos mostra o quanto não estamos sozinhos nessa.
    Te abraço forte e agradeço o prazer e as reflexões que tenho quando te leio.

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