segunda-feira, 1 de julho de 2019

Peneira








Não me importa se ninguém bater à porta
A poesia bate
A qualquer momento
De alegria, tormento
De caos, merecimento
De júbilo e desespero
No meio da tarde
 Inesperada
Visita indevida
Da vida, do nada
Pra um cafezinho
Incômodo
Intrometida
Não convidada
Ao chá das cinco
Na madrugada
Furando o zinco
Ao chão de estrelas

A poesia é minha
Dentre outras coisas sem valia
É nela que me meço em valor
Sou seu morador de rua
Quando a vida estiver por um vapor
Hei de me lembrar de algum verso
De uma mulher nua
Viver é perverso
A poesia não
É um tipo de antídoto
Uma peneira em que se retêm nossas glórias
Belezas, virtudes,
Até os desandes, os pecados, vacilos, maldades,
mediocridades,
As pequenezas
Falhas de caráter
Ao passarem a peneira da poesia
Ganham ares épicos
Parecem normais, necessárias, salutares


Eu preferiria que ela tivesse carne, osso, buceta de mulher
Mas ela é assim
Não esposa, só amante
Vem quando quer
Vai num affair,
Volta sem avisar
Vai,
Deixando a frase ao meio
Por terminar
Até que o poeta seja terminado pelo tempo
Esse carrasco de cimento pétreo
Lápide derradeira
E sua alma perpasse a peneira
Fluido como o vento que existiu
Etéreo
Existiu
Mas ninguém viu,
Viveu, mas sumiu,
Tanto verbo pra nada,
A Poesia bate a porta de madrugada
O poeta é uma utopia da poesia
Existiu,
Mas ninguém viu
Versejou e sumiu


Teju 2/07/2019

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