sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Assassinato de Clarice


Nunca houve na história da literatura um assassinato como o que as redes sociais cometeram com Clarice Lispector. Por que ela foi escolhida?, justo ela. Uma das minhas escritoras preferidas, uma manifestação literária mais oposicionista à autoajuda do que a literatura de Clarice é difícil imaginar, Clarice é antônima de autoajuda, uma das escritoras mais herméticas do mundo, nada nela é frase feita, resolvida, Clarice escreve com perguntas.

Quem inventou que ela é autoajuda? Por que ela, será que acharam seu nome chique?, nome de gente inteligente, Clarice Lispector, tipo assim, vou assinar essa frase de autoajuda com "Clarice Lispector" e todo mundo vai parar para ler. Deve ter sigo algo assim, rsrsrs,


Clarice não tem nada de fácil e dois mais dois são cinco o tempo todo, e depois de te levar num labirinto de palavras e sensações subjetivas, ela quase reduz a palavra a nada do ponto de vista semântico, é apenas um meio de transporte para suas sensações, abstrações, emoções, divagações. 

A literatura de Clarice é um labirinto, o Facebook transformou em frase feita de autoajuda, isso é um crime, um assassinato de reputação, mas, mais, é prova que a pós-modernidade contemporânea com toda a sua tecnologia criou uma geração de leitores idiotas manipuláveis, é meio triste, meio terrível, tétrico, mas é verdade. Perto do coração selvagem do homem moderno tem um homem mais burro que não leu "Perto do coração Selvagem", ele só lê as coisas que chegam a ele por acasos das midias tecnológicas, ele acredita em tudo, ele é o homem da pós-verdade, o que chega não é exatamente uma escolha, pode ser qualquer coisa, pode ter qualquer nome.

Mas não precisava ser Clarice Lispector, né, puta sacanagem fazer isso com a minha clarice, tão linda, misteriosa, complexa,  é que nem fazer um pagode romântico clichê e assinar Antonio Jobim, não ferra porra!! Mantenha sua ignorância inofensiva, sem assassinatos.

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